domingo, março 23, 2008

Merval Pereira Cretinices verbais

O presidente Lula chamou de “cretinice verbal” a acusação de que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem caráter eleitoreiro. O Democratas entrou na Justiça Eleitoral denunciando o programa por ferir as regras em ano de disputa de eleições municipais.

Não há dúvida de que Lula é um especialista em “cretinice verbal”, e ninguém melhor do que ele identifica uma quando aparece. Geralmente a “cretinice verbal” tem a ver com a disputa política, e não é propriedade de nenhum partido em particular, embora os que usem com mais freqüência o palanque estejam mais sujeitos a proferi-la

O ex-governador Geraldo Alckmim, por exemplo, cometeu uma “cretinice verbal” quando alegou que não poderia ceder seu lugar de candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB porque nunca vira “quem está em terceiro lugar querer ser o primeiro”, referindo-se ao prefeito Gilberto Kassab, do DEM. Pois foi o que aconteceu com Alckmim na sucessão presidencial de 2006, quando ele aparecia atrás de José Serra nas pesquisas, e mesmo assim insistiu em ser o candidato do PSDB.

O resultado foi o que se viu: teve menos votos no segundo do que no primeiro turno, fato inédito na política nacional. Outra “cretinice verbal” foi cometida agora mesmo na pré-campanha para a prefeitura do Rio, quando o bispo da Igreja Universal Marcelo Crivella disse que seu futuro adversário Fernando Gabeira era a favor “de homem com homem e do aborto”.

Essa, no entanto, está mais para o farisaismo do que propriamente para a cretinice.

Os falsos moralistas e os falsos puritanos são também figuras comuns no mundo político, sendo o caso mais recente o do governador de Nova York, que chegou à política através da repressão às drogas e à prostituição como promotor e caiu por ter relações com uma prostituta em Washington.

O presidente Lula mesmo é especialista em “cretinices verbais”, mas algumas delas estão mais vivas na pauta atual da política brasileira. O PT votou contra a criação da CPMF, imposto que, ao chegar ao governo, considerou indispensável para as contas públicas, a ponto de ter acusado a oposição de querer inviabilizar o governo com o seu fim. Também as medidas provisórias eram execradas pelo PT, e hoje o presidente Lula diz que é “impossível governar sem elas”.

Quando era candidato e não tinha noção do que o esperava, Lula garantiu que só exportaria alimentos depois de matar a fome da população brasileira. Hoje, são as commodities agrícolas que sustentam nossas exportações.

Mas, voltando ao PAC, se ele não tem fins eleitoreiros, por que aproveitar o lançamento de uma obra para apelidar a chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, de “mãe do PAC”, assumindo não apenas a paternidade do programa, mas indicando que a ministra pode vir a ser sua candidata à sucessão, quase dois anos e meio antes da eleição de 2010? O presidente Lula tem razão quando diz que as obras são feitas em redutos eleitorais de prefeitos adversários, e tem sido comum verse políticos do DEM e do PSDB nas inaugurações. No Rio, por exemplo, as obras do Complexo do Alemão são na maior parte nos redutos dos Democratas, apesar da oposição ferrenha do prefeito Cesar Maia.

O que o presidente quer fazer quando arranja uma “mãe” para o programa é neutralizar essa possibilidade inevitável de políticos adversários assumirem como suas as obras em seus redutos eleitorais, e deixar no programa a marca do governo federal.

Ao contrário do que recomenda a prudência política, o presidente Lula ainda nem terminara o primeiro ano de seu segundo mandato e já estimulava o debate sucessório, mantendo a expectativa de poder em torno de si com mensagens contraditórias quanto a um eventual terceiro mandato seguido, ora negando essa possibilidade enfaticamente, ora deixando no ar frases que indicam exatamente o contrário.

Ou permitindo que seu amigo, o deputado Devanir Ribeiro, como faz novamente agora, insista na apresentação da emenda que permite ao presidente a convocação de plebiscitos sem autorização do Congresso. Hoje à noite, em um programa da TV Gazeta, o presidente Lula estará no ar fazendo um desafio à oposição: ele reafirma que não quer mudar a legislação para tentar concorrer a um terceiro mandato seguido, mas garante que seu candidato vencerá a eleição presidencial de 2010.

Todo político sabe que fazer um candidato com dois, três anos apenas de campanha é muito difícil, mas, no caso de Lula, ele está no palanque desde que foi eleito pela primeira vez, em 2002.

Pelo próprio estilo de fazer política, e pelo dom da oratória que domina desde os tempos de líder sindical, o presidente Lula é uma versão política da “revolução permanente” de Trotsky; não desce do palanque nem quando a prudência aconselha.

O sucesso popular de seu governo faz com que se considere um interlocutor direto do povo, dispensando a intermediação dos partidos políticos e encontrando os próprios atalhos para se comunicar com o povo sem os “atravessadores”, como identificou, sempre no palanque, os jornalistas e a mídia em geral, aos quais acusou de tentar manobrar a opinião pública contra seu governo.

Seria uma típica “cretinice verbal” se lembrarmos que esses mesmos “atravessadores” sempre foram usados pelo PT e pelo próprio Lula nos tempos de oposição.

Ele mesmo já reconheceu que não teria chegado ao poder se não fosse a liberdade de imprensa.

Não saber conviver com as críticas é uma doença característica dos governantes, sem distinção partidária.

Mas considerar que sua oratória é suficiente para conduzir as massas, dispensando os instrumentos próprios da democracia ou tentando desacreditá-los, é sintoma de autoritarismo que pode prenunciar graves ameaças à democracia.

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