sexta-feira, março 14, 2008

Luiz Garcia - Condi está aí. Por quê?




O Globo
14/3/2008

O que veio mesmo fazer no Brasil a secretária de Estado Condoleezza Rice? Oficialmente, é missão com três itens: assinar um tratado anti-racista, conversar com Lula e visitar a Bahia.

Como se vê, uma agenda altamente suspeita. Que história é essa de tratado anti-racista? A escravidão e suas conseqüências têm histórias inteiramente diferentes nos dois países, com problemas e soluções nada parecidos.

Ou a idéia é combinar atitudes parecidas em relação ao racismo alhures? Onde, por exemplo? Perdoem a desconfiança, mas, mesmo sem qualquer informação sólida a respeito, esse tratado está parecendo meio tratante.

Condoleezza, que daqui vai ao Chile, também teria a incumbência de reforçar a pressão para que o Brasil apóie a Colômbia e o presidente Uribe na briga com Chávez. A causa tem valor, mas é duvidoso que, principalmente sem fatos novos e argumentos inéditos, o governo Lula vá além do que foi no recente episódio equatoriano. Continuará a favor de que ninguém brigue, mas sempre batendo palmas para o barulhento venezuelano. Segundo o pensamento predominante no Itamaraty, Chávez é um Fidel com petróleo. Para o pessoal que manda na casa, melhor que isso só dois disso.

Enfim, o Departamento de Estado sabe perfeitamente que adianta muito pouco mais um tête-à-tête a respeito com o presidente brasileiro. Principalmente quando intérpretes são indispensáveis.

Uma possibilidade de explicação parcial para a visita da secretária estaria na anunciada passagem por Salvador. Não há informação sobre agenda oficial. Quem sabe, Condi só quer dar um rápido mergulho na cultura baiana. Candomblé, igreja, acarajé, Salvador, Itaparica, João Ubaldo... Quem veria pecado nisso, minha santa?

Temos, então e assim, uma combinação de motivos possíveis para a viagem da secretária de Estado: Venezuela, preconceito, Bahia. Nada de grande urgência - mas, num governo que acaba no fim do ano, entende-se que até figuras importantes já comecem a encontrar motivos ou pretextos para ficar dias e dias longe de Washington.

Infelizmente, acontece que há mais uma explicação possível para a viagem da secretária de Estado: segundo jornais americanos, o ex-presidente Kirchner recebeu dinheiro de Chávez para ajudar a eleger a mulher como sua sucessora - e o Departamento de Estado está danado da vida.

A secretária de Estado não estaria visitando Brasília e Santiago para altas transas diplomáticas, nem indo a Salvador para mergulhar nos encantos baianos. Condi viria aos dois países só para mostrar que não vai à Argentina nem morta.

Meio humilhante, não?

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