sábado, março 15, 2008

Globalização de populares


Nunca houve tantos imigrantes no planeta. O desafio
será criar regras para viver em harmonia com eles


Thomaz Favaro e Julia Duailibi, de Madri

Carlos Genuario/AP
Imigrantes africanos exaustos são socorridos nas Ilhas Canárias: vinte horas de travessia


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do imigrantes
Exclusivo on-line
Perguntas e respostas: Regras de imigração

Fruto de guerras e da disparidade de oportunidades entre países e regiões, a imigração marca desde sempre a história humana. Esse fenômeno acentuou-se nas últimas quatro décadas com a diminuição dos custos de transporte e o aumento do fluxo de informações. Para se ter uma idéia de como está mais fácil se mover pelo mundo, a milha voada, que custava 27 centavos de dólar para os passageiros há cinqüenta anos, atualmente sai por 10 centavos – pouco mais de um terço. Imigrantes compõem 3% da população mundial atual, o maior porcentual de que se tem notícia. Trata-se de uma realidade auspiciosa para todas as partes envolvidas. Para os países que exportam migrantes, as vantagens voltam principalmente sob a forma de remessas – 199 bilhões de dólares em 2006, mais do que o total de ajuda humanitária que esses países receberam. Para o país receptor, o imigrante aumenta e complementa a força de trabalho, equilibra o sistema de previdência e contribui para a prosperidade – um terço das empresas do Vale do Silício, na Califórnia, é de empreendimentos de chineses e indianos. Um terço dos físicos americanos laureados com o Prêmio Nobel nos últimos sete anos são imigrantes.

Somente sob essa ótica, os países não deveriam manter controles rigorosos de fronteiras. Mas há outros fatores em jogo. Por motivos de segurança, e para dosar, a critério de cada país, o fluxo e o perfil desejáveis de estrangeiros, os sistemas de imigração são cada vez mais rígidos – e às vezes injustos com pessoas que fazem apenas turismo ou cursos no exterior, erroneamente confundidas com imigrantes ilegais. História vivida por alguns dos 950 brasileiros que, desde o começo do ano, foram impedidos de entrar na Espanha, um dos países que mais recebem imigrantes na Europa. Entre 2006 e 2007, a média mensal de barrados saltou de vinte para 200, numa proporção muito maior que a do crescimento de viajantes brasileiros para a Espanha. Nem mesmo pesquisadores e estudantes de pós-graduação a caminho de congressos científicos foram poupados, ainda que tivessem todos os documentos comprobatórios exigidos. Antes de serem expulsos, os viajantes ficaram detidos em salas da polícia espanhola dentro do Aeroporto de Barajas, em Madri, onde foram submetidos a horas de espera – quando não dias – até serem mandados de volta.

Jacob Lofman/Pix Inc./Time Life Pictures/Getty Images
Hans Bethe, imigrante alemão que ganhou o Nobel nos Estados Unidos


A expulsão de brasileiros causou furor na opinião pública local, logo captado pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Congresso. Convidado a explicar-se, o embaixador da Espanha no Brasil, Ricardo Peidró, respondeu que seu governo cumpre apenas o que está determinado na lei e que não há maus-tratos aos cidadãos estrangeiros. Insatisfeito com essa resposta, o Brasil não só protestou pelas vias legais e diplomáticas, mas também passou a revidar. Desde o dia 6, já mandou de volta 24 espanhóis. Embora negue que haja retaliação, um inspetor da Polícia Federal apareceu em recente reportagem da Rede Globo barrando a entrada de um espanhol no país "pelos mesmos motivos que os brasileiros estão voltando da Espanha". O turista, que ia para o Ceará, tinha o nome do hotel onde iria ficar, mas não a reserva. "Os atos da Polícia Federal do Brasil são recíprocos aos atos da Polícia Federal da Espanha", disse o encarregado do setor de imigração.

Considerando que a Espanha não exporta imigrantes ilegais para o Brasil, e que só a cidade de Barcelona recebe, num ano, quatro vezes mais turistas que os que chegam aos portos e aeroportos brasileiros no mesmo período, é de imaginar que a retaliação não tenha sensibilizado o outro lado do Atlântico, mais preocupado com a situação política interna. O aumento no número de barrados coincide com o período eleitoral no país, que no último dia 9 passou por eleições parlamentares. Mariano Rajoy, candidato do partido conservador, criticou a política de imigração do atual governo de José Luis Rodríguez Zapatero. Rajoy entoava a bandeira de que "não há espaço para todos", culpando os imigrantes pelo aumento do desemprego no país e conquistando a simpatia de parte do eleitorado. Em contrapartida, o primeiro-ministro, que buscava a reeleição, endureceu o discurso e a prática.

Por sua proximidade geográfica com a África e histórica e lingüística com a América Latina, a Espanha recebe 1 000 imigrantes clandestinos por dia. Na última década, a proporção de estrangeiros residentes na Espanha saltou de menos de 2% para atuais 10% da população, ajudando a economia a crescer acima da média européia. Nem todos, no entanto, entraram pelas vias legais. Nas Ilhas Canárias não é raro que turistas tenham de socorrer imigrantes exaustos e desidratados depois de 1 500 quilômetros de viagem em mar aberto. Estima-se que oito em cada dez prostitutas na Espanha sejam brasileiras, imigrantes ilegais. "A maior parte dos imigrantes ilegais não chega à Espanha nadando, mas por aeroportos, com visto de turista, passagem de volta e toda a documentação exigida pela lei", disse a VEJA o economista espanhol Rafael Muñoz de Bustillo, da Universidade de Salamanca. Depois de desembarcarem, fazem a siesta e resolvem ficar por ali mesmo.

À luz das ameaças terroristas e da falta de coordenação entre os países, seria utópico imaginar a simples eliminação das barreiras fronteiriças – em políticas de imigração, nenhuma nação quer ter regras mais liberais que as do país vizinho. Além disso, as preocupações com a segurança se sobrepõem aos argumentos econômicos a favor da imigração. Com o aumento dramático dos fluxos migratórios e do turismo, no entanto, os países precisam ter regras mais transparentes sobre as exigências que fazem na recepção a estrangeiros.





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