sábado, março 15, 2008

Cliente 9, no 801 por 4 300


O governador de Nova York é flagrado com
prostituta e cai. Sua queda não se deve à
alcova. Deve-se a seu moralismo de fachada


André Petry, de Nova York

Timothy Clary/AFP
Spitzer, pego com a boca na botija, logo ele: por que agiu de modo tão claramente autodestrutivo?

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No dia 13 de fevereiro, véspera do Dia dos Namorados nos Estados Unidos, passava das 9 da noite quando Kristen, 1,65 metro de altura, 48 quilos, chegou ao Mayflower, hotel cinco-estrelas de Washington. No quarto 871, por duas horas e meia, Kristen satisfez os desejos do Cliente 9 em troca de 4 300 dólares. Antes do encontro, informado por telefone de que sua companhia noturna seria Kristen, o Cliente 9 reagiu com entusiasmo. "Ótimo, maravilha", disse. Depois do encontro, em uma conversa telefônica, Kristen disse que gostou do Cliente 9 e, ao contrário do que lhe disseram, não o achou "difícil". Aparentemente, deram-se bem. Kristen é o nome de guerra de Ashley Dupré, 22 anos, prostituta de luxo. Cliente 9 é o código pelo qual a empresa Emperor’s Club VIP, que agenciava garotas de primeira linha, identificava Eliot Spitzer, 48 anos, governador de Nova York. Como há políticos americanos envolvidos em escândalos sexuais que sobreviveram, a começar pelo ex-presidente Bill Clinton, o caso de Spitzer poderia ter ficado circunscrito a mais um flagra de autoridade com garota de programa. Os amigos advogados de Spitzer deram-lhe um parecer técnico de emergência: era possível, sim, conter os danos e até se manter no cargo.

Na prática, tornou-se impossível. Eliot Spitzer não é apenas casado, pai de três filhas e governador de Nova York. Ele também era a mais inflexível e implacável encarnação da ética, da moral e da lei. Por oito anos, foi procurador-geral do estado e agiu como um rolo compressor esmagando os antiéticos, os imorais, os corruptos, os que violam a confiança do público. Aproveitando o gosto americano por xerifes invencíveis, Spitzer ganhou projeção nacional, elegeu-se governador com 69% dos votos e virou intocável. Eliot Spitzer era um Eliot Ness. Em 2004, quando ainda era procurador, estourou uma rede de prostituição e passou a apoiar o endurecimento da lei de Nova York para homens que pagam por sexo, convencido por feministas de que o negócio não era combater a oferta, mas a procura. No ano passado, já no governo, assinou a lei mais rigorosa do país, ampliando de três meses para um ano a pena de prisão para homens que procuram prostitutas. Taina Bien-Aimé, diretora da Equality Now, que defende os direitos da mulher e se envolveu na elaboração da nova lei, estava perplexa: "Ele era nosso herói".


NYT
Ashley Dupré, de 22 anos, que usava o codinome Kristen: ela não achou seu cliente "difícil"

O herói era um hipócrita? "Somos a nação mais hipócrita do mundo quando o assunto é sexo", disse a VEJA Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard, que teve Spitzer como assistente de pesquisa na década de 80 e mantém amizade com ele até hoje. "Em matéria de sexo, nós nos comportamos como brasileiros e falamos como vaticanos. Não estou ofendendo, estou?" Claro que não, mas parece que a platéia ainda crê que padre é padre e cafetão é cafetão, e, se um age à semelhança do outro, a enganação fica intolerável. A investigação desvendou um esquema que agenciava garotas em Nova York, Paris, Londres, Miami e Washington – e, no meio, fisgou Spitzer. Ele era cliente da Emperor’s havia oito meses. Além do de Washington, teve encontros no Texas e na Flórida. Em viagens longas, contratou mais de uma prostituta. Gastou 80.000 dólares. Era "difícil" e pedia às garotas coisas "que podem não ser seguras", como diz uma integrante da rede em telefonema monitorado. Para o encontro de Washington, Spitzer, com ansiedade adolescente, ligou seis vezes para a empresa em 24 horas. Queria saber como a garota viajaria até Washington, qual era sua aparência, como entraria no hotel.

A desgraça do Cliente 9 foi o excesso de zelo. Para esconder suas estripulias da mulher, Silda, com quem é casado há mais de vinte anos, Spitzer fazia os pagamentos à Emperor’s por meio sofisticado, envolvendo empresas de fachada. Em julho passado, o North Fork Bank suspeitou que ele estivesse lavando dinheiro, já que fazia depósitos freqüentes para uma tal QAT. Comunicou as autoridades, mas ninguém deu bola. Em outubro, o HSBC estranhou a movimentação da tal QAT, e comunicou as autoridades. Intrigados com a coincidência, os investigadores começaram a trabalhar. Suspeitavam que Spitzer estivesse escondendo dinheiro de corrupção. Rico e filho de pai milionário, ele estava usando o próprio dinheiro. Não se sabe por que os investigadores, todos da área financeira, continuaram na cola de Spitzer mesmo depois de saber que tudo não passava de sexo pago. Conforme o sensacionalista New York Post, teriam contado até com a ajuda da brasileira Andréia Schwartz, 33 anos, ex-prostituta da Emperor’s.

É um mistério por que Spitzer fez movimento tão autodestrutivo. Como ex-procurador de Nova York, ele sabia que bancos monitoram transações como as que fazia. Tanto que construiu sua fama pisando nos calcanhares de gigantes de Wall Street, dos quais arrancou 5 bilhões de dólares em acordos calçados mais na ameaça de longas batalhas judiciais do que em acusações sólidas. Spitzer também sabia que Nova York faz 30% de todos os monitoramentos telefônicos do país, e deixou-se grampear como um pato inocente. Na quarta-feira, 48 horas depois de pedir desculpa pelo seu "erro", ele anunciou sua renúncia – em ambas as ocasiões, acompanhado da mulher, Silda, e seu semblante devastado, num misto de ódio e decepção. Afinal, dias antes, numa cena de corriqueira harmonia, o casal fora visto passeando com os cachorros no Central Park, perto do apartamento da família na Quinta Avenida. Nesta segunda, toma posse o novo governador, David Paterson, 53 anos, filho de tradicional família política do Harlem. É praticamente cego. Não vê nada com o olho esquerdo e, com o direito, tem só 5% da visão. Não lê em braile, não usa bengala, nem tem cão-guia. Será o primeiro governador negro da história de Nova York.


ESPECIAL
19 de março de 2008

Se olhar de ódio matasse...

Timothy Clary/AFP

Aviso aos políticos: humilhar a mulher em público, exigindo solidariedade quando pego em flagrante, não melhora nada a própria imagem. Mas eles continuam fazendo isso. Por lealdade ou interesse no patrimônio familiar, político ou de outra natureza, elas também. Silda Wall Spitzer, 50 anos, advogada por Harvard, foi a última a entrar para a galeria onde outras já penaram:

Win Mc Namee/Reuters

Caso: em 1998, ouviu o marido, Bill, então presidente dos Estados Unidos, afirmar, em tom de pura indignação: "Não tive relações sexuais com aquela mulher". Teve, como todo mundo sabe – nos mínimos e mais íntimos detalhes.

Hoje: Hillary é pré-candidata à Presidência dos EUA e Bill, seu principal cabo eleitoral.

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