sexta-feira, março 21, 2008

A Família Savage, com Philip Seymour Hoffman

A classe operária vai ao paraíso

Ser superastro já era. Hoje os semi-astros, como Laura Linney
e Philip Seymour Hoffman, ficam com o prestígio – e o lucro


Isabela Boscov

Divulgação

Philip Seymour Hoffman, 40
Filmes: 41 em dezessete anos
Oscars: uma vitória por Capote e uma indicação por Jogos do Poder
Por que é tão requisitado: um dos atores mais lapidados do cinema americano, Hoffman é perfeitamente convincente tanto como o enfermeiro sensível de Magnólia quanto como o vilão de Missão: Impossível III. É o caso raro de ator igualmente popular entre a crítica e o público

Laura Linney, 44
Filmes: 29 em dezesseis anos
Oscars: três indicações, por Conte Comigo, Kinsey e A Família Savage
Por que é tão requisitada: é uma atriz de técnica impecável, inteligência evidente, gosto eclético e capaz tanto de se mostrar bonita quanto de esconder a beleza. Ou seja, não há papel que não consiga fazer – e no qual não galvanize a platéia


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Trailer do filme

Já na primeira cena, A Família Savage (The Savages, Estados Unidos, 2007), em cartaz desde sexta-feira, anuncia um pesadelo. Lenny, um idoso, briga com o enfermeiro de sua companheira. Instado a voltar ao banheiro e deixá-lo limpo, Lenny em vez disso usa seus próprios excrementos para escrever uma malcriação na parede. Deixou, enfim, de ser apenas um sujeito indiferente e grosseiro: agora é também vítima de demência senil, e caberá aos seus filhos, para os quais nunca foi um grande pai, lidar com ele. Daí em diante, como não raro acontece também fora da ficção, Lenny passará de pessoa a objeto – objeto de culpa, desavença, ocasional união e incômodo constante para Wendy e Jon Savage, os irmãos maduros mas imaturos que são os protagonistas da história. Tamara Jenkins, cineasta de currículo breve (seu último filme, o igualmente ácido O Outro Lado de Beverly Hills, foi lançado em 1998), disseca as desventuras dos irmãos com doses equilibradas de simpatia e ceticismo. As dificuldades emocionais dos dois têm razões legítimas; já a maneira como eles as usam para se perdoar por seus erros é outra história. No universo ordeiro do cinema comercial, tratar um conflito com todas as complicações que ele acarreta é um risco. Se roteiros como esse chegam a ser filmados, o mérito é dos atores que decidem encampá-los – no caso, Philip Seymour Hoffman e Laura Linney, que põem sua extraordinária capacidade a serviço dos carentes, infantis e encantadoramente reais Jon e Wendy.

Laura e Hoffman pertencem a uma categoria que se poderia chamar de a dos semi-astros: atores que o público reconhece e aprecia não só porque eles pipocam várias vezes ao ano em filmes de todos os tamanhos e afiliações, mas porque sempre acrescentam algo de sólido e inesperado a esses filmes. Não têm o tipo de popularidade que os habilite a "abrir" superproduções, nas quais costumam ganhar os personagens secundários. Mas têm o cacife necessário para atrair visibilidade para produções menores. Quando Hoffman trabalha em Missão: Impossível III ou Jogos do Poder, ele é coadjuvante – com a vantagem de ficar com o papel mais suculento. Quando faz Capote ou A Família Savage, tem o espaço que sua personalidade formidável pede – mais a satisfação de saber que fez o projeto acontecer.

Um semi-astro, portanto, vive no melhor de dois mundos. O mais relevante, contudo, é a constatação de que eles é que fazem o cinema americano girar como indústria e se renovar como ambiente criativo. Capote, que deu a Hoffman o Oscar, custou 7 milhões de dólares e rendeu sete vezes mais; Missão: Impossível III custou 150 milhões – e faturou menos do que isso nos Estados Unidos, a despeito de Tom Cruise. Essa é uma história que tem se repetido com freqüência: por razões que os estúdios adorariam compreender, gente como Cruise, Tom Hanks, Brad Pitt e Julia Roberts tem falhado em recolher ingressos em proporção compatível com seus altíssimos cachês e inúmeros caprichos. Em compensação, os filmes de "conceito", como Superbad e Cloverfield, e as pequenas produções apoiadas nos personagens, como Pequena Miss Sunshine, Juno ou A Lula e a Baleia (em que Laura Linney ajudou o orçamento de 1,5 milhão a se multiplicar quase oito vezes na bilheteria), têm retorno financeiro e prestígio praticamente garantidos, já que é desse segmento que sai a maioria das premiações. Se alguém ainda tem dúvida sobre quem leva a melhor hoje, é só prestar atenção ao rumo que tomou George Clooney, o mais esperto dos apostadores de Hollywood. Desde 2005, ele fez um único filme como superastro – Treze Homens e Um Novo Segredo – e quatro como, digamos, operário: Syriana, Boa Noite e Boa Sorte, O Segredo de Berlim e Conduta de Risco. Saldo dessa investida: três indicações e uma vitória no Oscar, além de 155 milhões de dólares em lucro. Hoje, ser menos de fato é ser mais – na ponta do lápis.

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA

Outros atores que sempre tornam
os bons filmes ainda melhores

Mark Ruffalo, 40
Filmes: 35 em dezesseis anos
Especialidade: com um quê de Marlon Brando, é ótimo em papéis em que a virilidade se alia à vulnerabilidade, como em Zodíaco ou Em Carne Viva

Chris Cooper, 56
Filmes: 31 em 21 anos
Especialidade: apesar do rosto marcante, desaparece dentro de personagens inflexíveis ou imprevisíveis, como em Adaptação ou Quebra de Confiança

Marcia Gay Harden, 48
Filmes: 36 em 29 anos
Especialidade: mulheres a um passo do descontrole, como em Sobre Meninos e Lobos, ou, ao contrário, as que não levam desaforo para casa, como em Pollock

Toni Collette, 35
Filmes: 32 em dezesseis anos
Especialidade: personagens generosas e discretamente exasperadas ou desesperadas, como em O Sexto Sentido ou Pequena Miss Sunshine

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