sábado, março 15, 2008

Especial Todo mundo faz mais sexo, e melhor, do que você?

A vida sem muito sexo

Não se preocupe se a sua freqüência está abaixo da
média das pesquisas. Segundo especialistas, boa parte
dos que afirmam fazer várias vezes por semana exagera


Juliana Linhares e Naiara Magalhães

Pedro Rubens


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A maioria das pesquisas sobre comportamento sexual apregoa que, no mundo todo, as pessoas têm, em média, duas relações sexuais por semana (os brasileiros, mais animados, teriam três). Há duas maneiras de reagir a essa afirmação:

a) concordar com ela, porque se está "dentro da média" ou acima dela;

b) calar-se resignado, abatido pela certeza de que, enquanto o mundo todo se esbalda sob os lençóis, você é um dos poucos a optar pelo sorvete de chocolate – não antes ou depois de, mas em vez de.

Se o cabisbaixo leitor se encaixa no segundo caso, saiba que há bons motivos para acreditar que está enganado. Especialistas que, por força da profissão, têm de inteirar-se sobre os assuntos de alcova de seus pacientes são unânimes em afirmar que as pessoas têm grande resistência a dizer a verdade quando o assunto é sexo – o que inclui, é claro, o número de vezes que o praticam. Para onze de doze profissionais ouvidos por VEJA – entre psicanalistas, médicos e terapeutas sexuais –, nem o mundo nem os brasileiros se divertem na cama com a freqüência que proclamam. "Há uma larga mitologia no que se refere à freqüência sexual", afirma o psicanalista Renato Mezan.


Paulo Vitale
"Há cinco anos, eu não trabalhava, sobrava tempo, e eu e meu marido fazíamos sexo duas vezes por semana. Mas, por causa de alguns problemas que eu enfrentava naquele período, não tinha muito prazer nas relações. Hoje – como eu trabalho, faço faculdade, cuido da casa e do nosso filho – falta tempo, e acabamos só conseguindo namorar no fim de semana. Em compensação, considero que minha vida sexual está melhor do que há cinco anos, quando eu fazia mais sexo, mas sem vontade".
Eliene da Silva Nascimento, 35 anos, bancária

Isso se deve, em primeiro lugar, ao fato de que, sobretudo para os homens, a sexualidade está intimamente ligada à auto-estima. "Muitos associam a hiperatividade sexual a saúde, virilidade e poder, o que nem sempre é verdade", diz a psicanalista Magdalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Para essas pessoas, reconhecer que fazem menos sexo do que o cunhado (ou do que o cunhado diz fazer) é atestar a própria inferioridade. Por causa das mentiras que todo mundo conta, boa parte dos pesquisadores de comportamento sexual procura se cercar de medidas que aumentem a acuidade das respostas (repetir a mesma pergunta de diferentes formas é uma das estratégias). Ainda assim, mesmo os estudos mais planejados não conseguem garantir respostas 100% honestas – e esbarram freqüentemente em resultados suspeitos.

Uma pesquisa realizada na Inglaterra, com o objetivo de monitorar o avanço da aids (veja quadro), quis saber de 8 000 homens e 10 000 mulheres qual o número de parceiros sexuais que haviam tido, em média, na vida. Os homens responderam dez. As mulheres, três. Trata-se de um típico exemplo de conta que não fecha. Pelo simples motivo de que, excetuando-se a ocorrência de relações homossexuais, toda vez que um homem tem uma parceira sexual, isso significa que uma mulher também teve um parceiro. Como a população inglesa apresenta um número parecido de homens e mulheres – e como os pesquisadores cuidaram para que todas as faixas etárias, classes sociais e estados civis estivessem representados na pesquisa –, as respostas dos dois gêneros deveriam ficar próximas da coincidência, o que não ocorreu. A conclusão a que os cientistas chegaram foi óbvia: a de que muita gente falseou suas respostas – principalmente os homens, e para cima. "A cultura ocidental sempre valorizou o desempenho sexual", diz Mezan. "E, a partir da década de 60, passou a dar ainda mais importância a ele."

Reprodução
Charcot, "The Pelvis" e Lennon
A psicanálise revelou que o sexo estava na raiz de alguns graves problemas mentais, como os documentados no século XIX pelo médico francês Jean-Martin Charcot e seus discípulos (no alto, à esq.). Na década de 50, o rebolado de Elvis, entre outros movimentos, começou a abrir caminhos no campo da sexualidade – caminhos que o "protesto pela paz" de Lennon e Yoko Ono ajudou a pavimentar nos anos 60


Os anos 60 foram um ponto (G, H, I e J) de inflexão no terreno do comportamento. A tese do amor livre, uma das bandeiras do movimento de contracultura que sacudiu as sociedades ocidentais quase cinco décadas atrás, amparou-se na descoberta da pílula anticoncepcional e no avanço do feminismo para extravasar as margens dos acampamentos hippies e ganhar contornos mais palatáveis à classe média. Nesse sentido, concorreram, em termos de efeito adoçante, John Lennon e Yoko Ono, com seu célebre "protesto pela paz". Em 1969, no auge da escalada americana no Vietnã, o então beatle e a artista plástica passaram a lua-de-mel amassando-se diante das câmeras de TV, numa cama de hotel. (Dez anos antes, convenhamos, Elvis, "The Pelvis", parecia mais ameaçador e revolucionário, com seu rebolado que excitava a imaginação das adolescentes e provocava a ira dos censores.) Houve, além disso, outro fator a impulsionar a que se liberasse geral: a popularização da psicanálise e suas constatações de que a repressão sexual estava na origem das neuroses, da histeria e das perversões.

"Com todos esses elementos, o fato é que, desde os anos 60, transar muito e bem passou a fazer parte de um ideal cultural", afirma o psicanalista Contardo Calligaris. "A contracultura trouxe de volta a hegemonia de um hedonismo positivo", diz. E, com ela, as novas bandeiras. Algumas, como o direito ao prazer ou ao orgasmo feminino, acabaram desfiguradas pelo mau uso. Se, no século XX, a repressão foi substituída por liberação, no século XXI, a liberação deu lugar a uma espécie de obrigação: de fazer muito sexo e de ter muito prazer. "A liberação sexual trazida com a contracultura resultou em um ideal tão coercitivo e tão difícil de ser atingido quanto o modelo de renúncia e castidade do período pré-revolução", afirma Mezan.

Uma pesquisa realizada em 2003 pelo PROSex sugere que a maioria dos brasileiros está insatisfeita, também, com a intensidade da sua vida sexual. Tanto homens quanto mulheres dizem que, "se pudessem", gostariam de fazer duas vezes mais sexo do que fazem. Para Carmita Abdo, coordenadora da pesquisa, essa vontade não resulta apenas de pressões externas, como a exercida pela revolução sexual, mas é fruto também de um desejo íntimo e comum a todos os homens: o de não querer parecer velho e doente. "Freqüência sexual alta e sexo bom ocorrem muito mais na juventude do que na velhice", diz Carmita. "Isso significa que, ao admitirmos que estamos fazendo menos sexo do que fazíamos quando tínhamos 20 anos, estamos sinalizando uma fragilidade, que estamos mais cansados ou doentes." A experiência dos consultórios reforça a teoria. O angiologista José Mário Reis, habituado a tratar das aflições sexuais masculinas mais comuns, afirma que, de maneira geral, seus pacientes gostariam, sim, de ter uma vida sexual mais intensa – mas não usam tanto como referência as marcas (alegadas) do vizinho. "Eles comparam seu atual desempenho com o que tinham há trinta anos, quando eram mais jovens e mais ativos", diz.


Paulo Vitale
"Faço sexo em média três vezes por semana, mas há semanas em que eu e minha namorada apenas trocamos carinhos. Acho que o sexo é supervalorizado pela nossa sociedade e que há uma pressão para que as pessoas ganhem dinheiro, sejam bonitas, façam sucesso, tenham prazer e por aí vai. Eu não me incomodo com isso."
Marcelo Roveri Clementino, 30 anos, analista de sistemas

O desejo de fazer sexo e a intensidade desse desejo dependem de estímulos e situações que variam ao longo da vida. Na juventude, é normal que a atividade sexual das pessoas esteja em alta: os hormônios estão em efervescência, a curiosidade sexual idem, a oferta de parceiros é maior e tem-se tempo de sobra – embora a falta de experiência no assunto e a precipitação característica da fase muitas vezes acabem por desperdiçar todo o resto. Com a entrada na vida adulta, ganha-se de um lado (aumenta, por exemplo, o conhecimento que se tem do próprio corpo, o que torna o sexo mais prazeroso) e perde-se de outro. O foco se volta para a carreira e, em seguida, para a família e o casamento – que a maioria espera ser monogâmico e que todos desejam longo como, brincam os mais cínicos, uma temporada num campo de trabalhos forçados. De novo, ganha-se na intimidade e perde-se na surpresa e na novidade – alguns dos motores do sexo. Depois de alguns anos, e conforme o casal vai envelhecendo, é inevitável que as noites incandescentes acabem ficando mais espaçadas ou simplesmente virem uma lembrança sem retrato. Pelo menos com os parceiros legitimados pelas leis dos homens e de um certo senhor geralmente representado por um velho de barba branca.

O consolo é que isso já foi pior: o relatório Kinsey, que dissecou a vida sexual dos americanos na década de 50, nem sequer mencionou a existência de indivíduos com mais de 50 anos. Nessa idade, considerava-se que as pessoas já haviam desistido da brincadeira. "Há quarenta anos, a idéia de que uma pessoa com 50 ou 60 anos de idade pudesse ter relações sexuais era objeto de piada", afirma o psicanalista Contardo Calligaris. "Hoje, além das possibilidades médicas que surgiram, há o fato de que o sexo para os mais velhos passou a ser socialmente aceito." E, garantem os especialistas, ele não precisa ser feito de forma desenfreada para ser bom. "A relevância do sexo é muito menor do que as pessoas supõem", diz Calligaris. "Não há problema nenhum se um casal que está junto há anos fizer sexo num ritmo mais espaçado. Uma boa média de freqüência, do ponto de vista do que observo no meu consultório, é uma vez a cada quinze dias. O importante é que esse ritmo faça parte do pacto do casal." Perseguir como um maratonista as (duvidosas) médias estatísticas de freqüência sexual ou deixar-se pressionar por elas é desperdiçar a melhor parte do sexo: aquela que serve para divertir, dar prazer e reforçar os laços amorosos.

Uma breve história do sexo no Ocidente

Antiguidade (4 000 a.C. ao século V)
Por estar ligado a rituais de fecundidade e dionisíacos (caso das Bacantes), o sexo era visto com naturalidade pelos antigos – embora a liberdade para praticá-lo (com jovens do mesmo sexo, esposas, amantes e escravas) fosse muito maior entre os homens do que entre as mulheres. A imagem do falo, tanto na Grécia quanto em Roma, enfeitava amuletos e decorava fachadas de casas, como símbolo de poder e virilidade.

Idade Média (século V ao XV)
O obscurantismo medieval e o rigor da moral cristã no período impregnavam o sexo de culpa e pecado. Aos que pretendiam salvar sua alma, recomendava-se a abstinência – ou o casamento. Dizia São Paulo: "Se não podem conter-se, casem-se. Melhor casar do que abrasar-se". Mesmo quando praticado com fins reprodutivos, o sexo estava sujeito a tantas regulamentações religiosas (era proibido antes da comunhão, durante a gestação, em determinado período do mês etc.) que sobravam poucos dias para a sua prática autorizada.

Idade Moderna (século XV ao XVIII)
A repressão religiosa se aprofunda até o século XVIII, quando às transformações políticas e sociais provocadas pela Revolução Francesa se soma a degeneração moral conseqüente da miséria e da violência que toma conta das ruas. A libertinagem e a perversão sexual, expressas na literatura por meio de autores como Marquês de Sade, são o reflexo dessa perda de valores. Busca-se incessantemente o prazer, ainda que à custa da dor.

Renascimento (século XIII ao XVI)
A arte torna-se a depositária do erotismo e do desejo, que, na vida real, continuam reprimidos. Os quadros exibem corpos voluptuosos e decotes profundos e a literatura explora os fetiches masculinos ao destacar objetos como lenços, leques e meias femininas. Nos romances, predomina a idéia do "amor-paixão" – a relação cheia de obstáculos e sofrimentos, cuja consumação carnal deve ser punida, como em Tristão e Isolda.

Idade Contemporânea (século XVIII até hoje)
O período que passou pelo puritanismo da era vitoriana e pelas crenças da medicina pré-científica – segundo a qual o sexo "em excesso" e a masturbação podiam conduzir à loucura – viu avançar no século XX a psicanálise e o feminismo e surgir a pílula anticoncepcional. Estava aberto o caminho para a revolução sexual, cujos princípios, como o do "direito ao prazer", ecoam até hoje.

Fontes: Denise Sant’anna (PUC-SP), Mary Del Priore e Pedro Paulo Funari (Unicamp), Historiadores; Mirian Goldenberg (UFRJ), antropóloga; Jerusa Figueiredo (UnB), sexóloga; e Maria do Carmo Silva (UFRJ), psicóloga

Com reportagem de Kalleo Coura



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