sábado, março 01, 2008

Dora Kramer Os meneios das Gerais

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, sempre tão cauteloso quando o assunto é sucessão presidencial, nesta semana deu dois passos muro abaixo em uma entrevista à Rádio Bandeirantes.

No geral, Aécio reafirmou o óbvio: dividido, o PSDB não ganha eleição. Mas, no meio de muitas meias palavras, registrou dois pontos de avanço em relação à sua posição habitual.

No primeiro, quando indagado sobre a candidatura - mais especificamente, por que não abria mão dela em nome da unidade interna do partido -, disse: "Há um sentimento muito forte em Minas Gerais em favor de um certo reequilíbrio no jogo do poder no Brasil. Um sentimento existente em outros Estados, e Minas haverá de ter um papel sempre muito importante."

No segundo, ao falar sobre a possibilidade de se mudar para o PMDB, afirmou: "Eu continuo conversando, tenho um diálogo muito aberto com o presidente do partido, Michel Temer, com os líderes dos partidos, mas quem sabe pensando muito mais na construção de um projeto de país do que numa mudança partidária, algo que hoje não está nos meus planos."

Disso, depreende-se o seguinte: Aécio Neves está ativo no jogo, age no sentido de não deixar que se consolide a idéia da candidatura de José Serra como algo já resolvido, exibe sua capacidade de interlocução suprapartidária e não fecha intencionalmente a possibilidade de trocar de partido.

Isso quer dizer que virá mesmo a mudar ou que brigará internamente para ser o candidato tucano? Não necessariamente. Significa que iniciou a movimentação eleitoral de forma mais aberta, a fim de ocupar, desde já, uma mesa de pista no processo.

São movimentos que sinalizam aprofundamento de confronto com José Serra e, portanto, incoerentes com sua profissão de fé em prol da unidade? Não. Para o governador de São Paulo, nesta altura é ótimo que alguém divida com ele a cena da candidatura, a fim de não ficar exposto como o alvo único do adversário.

Neste sentido, guardadas as imensas proporções entre a força político-eleitoral de um e de outro, o lançamento da pré-candidatura do líder do partido no Senado, Arthur Virgílio, cumpre um papel parecido.

No caso da conversação com o PMDB, Aécio fortalece as pontes com um possível e imprescindível aliado para 2010, caso o PT não se configure uma possibilidade segura de permanência no poder. O mineiro não é o único a fazer isso, mas é o mais explícito.

Sobre uma possível transferência para o PMDB, quando deixa em aberto a hipótese de certa forma neutraliza o adversário real, pois mantém no presidente Luiz Inácio da Silva acesa a esperança de que Aécio Neves possa ser o candidato da coalizão à qual emprestaria seu apoio.

Chances concretas de isso acontecer? Quase nulas. No meio do caminho dessa quimera há vários obstáculos: um PMDB indigno de confiança (Itamar Franco e Anthony Garotinho sobreviveram para contar as histórias de suas tentativas de disputar a Presidência da República pelo partido), um PSDB com chances reais de chegar ao poder e um PT que não abre mão de sua identidade partidária numa eleição presidencial.

Se o partido não aceita apoiar Ciro Gomes, do PSB, desconfia do passado pedetista de Dilma Rousseff e resiste bravamente à formalização de uma aliança já existente na prática em Belo Horizonte entre o governador Aécio e o prefeito Fernando Pimentel, é de se imaginar como reagiria à tarefa de apoiar um ex-tucano filiado ao PMDB.

Crime de opinião

O presidente Lula é a última pessoa no Brasil com autoridade moral para criticar quem quer que seja por emitir uma opinião.

Quer falar sobre tudo e sobre todos (descontados os temas desconfortáveis, a respeito dos quais prefere calar) dia sim, outro também, e irrita-se quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio Mello, registra uma obviedade: o potencial de ilegalidade contido no ato de criar programas assistenciais em ano eleitoral.

Marco Aurélio ateve-se ao seu papel. Já o presidente extrapolou em sua vocação imperial, ao desqualificar de maneira chula o exercício da livre manifestação: "Se cada um ficar no seu galho, o Brasil tem chance de ir para a frente." Na visão dele, "palpites" conturbam a ordem social.

Talvez porque ajudem o cidadão a pensar.

Petrobrás

O que leva um presidente da República e dois ministros de Estado, um da Justiça, outra da Casa Civil, a assumir como crime de espionagem industrial com risco à segurança nacional um episódio que poucos dias depois viria a se revelar fruto da ação de quatro vigilantes, ladrões comuns?

Vários fatores: a precipitação, o apreço à teoria conspiratória, a vocação para a produção de factóides, o afã de arrumar assunto novo para ocupar noticiário à época tomado pelas denúncias de abuso no uso de cartões corporativos do governo.

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