domingo, março 23, 2008

Dora Kramer Avisa lá que eu vou


O aviso do presidente Luiz Inácio da Silva aos navegantes oposicionistas de que seu candidato vai ganhar a eleição daqui a dois anos e meio pode ser interpretado de três maneiras: é provocação de campanha eleitoral aberta, é bravata inconseqüente ou é sinal da intenção de transformar sua popularidade em capital político para tentar mudar a regra do jogo.

Qualquer uma das alternativas pode ser falsa ou verdadeira, porque a hora ainda é de incertezas. Daqui até a eleição de 2010 a estrada é longa, o caminho é deserto e o lobo mau (o adversário) andará sempre por perto.

Só o que está fora de cogitação, hoje, é a hipótese de o presidente acreditar mesmo, do fundo da alma, que possa sair vitorioso de uma eleição presidencial carregando o chamado “poste” - um candidato a quem a maioria dos brasileiros delegaria a missão de comandar o País só com base no aval de Lula.

Não se tem notícia por aqui de fenômeno parecido, a não ser na célebre eleição municipal de 1996, em São Paulo, quando Paulo Maluf elegeu Celso Pitta.

O final da história é conhecido, certamente seria largamente explorado na campanha e, de mais a mais, o pleito na província obedece a critérios muito diferentes daqueles válidos para um certame de âmbito nacional.

Mas pode até ser que, pela primeira vez na história do Brasil, ocorra o espetáculo da transferência de votos. Agora, se o presidente Lula tivesse tanta certeza do que diz, se estivesse tão seguro da vitória quanto procura parecer cantando glórias antes do tempo, não estaria dando o duro danado que tem dado nos palanques País afora.

Se a convicção fosse genuína, não se arriscaria desorganizar seus dois últimos anos de mandato deixando o ambiente se contaminar por ambições eleitorais. Não provocaria a oposição como provoca, não chamaria o adversário para a briga com tanta veemência, não abriria a guarda no Congresso para sua base aliada começar a se engalfinhar como já fazem PT e PMDB.

Só faz isso porque não tem outro jeito. Precisa de tempo para preparar terreno, jogar as peças, embaralhar as cartas, testar apostas e investir na cizânia da oposição, mais exatamente do PSDB, com todas as mazelas o único com candidatos competitivos.

É impossível os tucanos enfiarem os pés pelas mãos, Lula vir a encontrar uma maneira de transpor todos os obstáculos e acabar elegendo o sucessor? Claro que não.

Trabalha dia e noite para isso, tem exposição privilegiada e garantida nos meios de comunicação, dispõe de todos os instrumentos oficiais, usa a logística de presidente para fazer campanha sem que isso se configure ilegalidade, fala o que quer a respeito de qualquer pessoa ou instituição sabendo que não terá o revide à altura, pois está protegido pela reverência institucional devida à Presidência, enfim, tem a faca, o queijo e muito mais.

Só lhe falta o candidato. A menos que nutra no recôndito do ser a esperança de vir a ser.

É o povo

O presidente Lula não vê lógica em se qualificar o PAC como um programa eleitoreiro, diz que é fruto de “cretinice verbal” e argumenta: “Se isso fosse verdade, eu não teria assinado convênios de R$ 8 bilhões com São Paulo, outros com Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul”, todos governados por partidos adversários.

Mas, convenhamos, seria uma manifestação de cretinice mental não perceber que quem fatura politicamente o programa é o presidente da República, cujo intuito ao lançar pessoalmente o PAC nos Estados é conquistar o eleitorado local, independente do partido do governador.

Imersão

Fernando Gabeira, candidato da aliança PV-PPS-PSDB à Prefeitura do Rio de Janeiro, desembarca brevemente em Belo Horizonte para um curso intensivo de aprendizado administrativo.

O governo de Minas já destacou seis técnicos para passarem um dia inteiro - ou quantos forem necessários - desvendando para Gabeira os segredos da máquina pública.

Rififi

A personalidade, digamos, combativa do líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio, outro dia quase consegue o impossível: tirar José Sarney do sério.

Tudo porque Virgílio resolveu tomar as dores do correligionário Mário Couto, que se envolveu numa briga feia com o colega Gilvan Borges, ligado a Sarney.

O líder telefonou para o gabinete de José Sarney e espalhou brasa: a ameaça mais suave dava conta da intenção de fazer terra arrasada do clã.

Sarney sentiu-se afrontado, “como nunca”, e avisou à cúpula do PSDB que estava disposto a enfrentar Virgílio no mano a mano e até na base do mano armado se fosse preciso. Por interferência de Sérgio Guerra e Tasso Jereissati, felizmente não foi.

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