domingo, março 16, 2008

Celso Ming

O racha na economia


Os fatos desta semana mostraram que, em matéria de política econômica, o governo Lula está preocupado com a disparada das importações, mas está dividido por dois diagnósticos e por dois projetos diferentes para atacar o problema.

Para o ministro Guido Mantega, para quem é preciso estimular exportações de manufaturados, há em curso um processo de desindustrialização com origem na valorização do real, tanto na entrada de capitais especulativos como na valorização das commodities. Às vezes, Mantega parece atraído pela tese do ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira, para quem o problema da economia é a doença holandesa, ou seja, são as fortes receitas em dólares provenientes das exportações de commodities (veja o Entenda). Mas age como se o inimigo fosse a entrada excessiva de dólares na Conta de Capitais.

Para o Banco Central (BC), no entanto, o consumo cresce mais do que a oferta interna de bens e serviços. Por isso, as importações são chamadas para suprir parte dessa demanda interna e, no momento, disparam a 50% ao ano. Seu projeto é puxar os juros para níveis que sejam capazes de estancar a inflação de demanda que ameaça a economia.

Sexta-feira, em Araraquara, o presidente Lula parecia dar razão ao BC: "O Brasil não pode crescer acima da capacidade produtiva." E concluiu: "Se crescermos muito e não houver investimentos em novas fábricas, teremos de volta a doença desgraçada que é a inflação." Na verdade, a ambigüidade do presidente Lula o impede de tomar partido firme entre posições inconciliáveis.

Antes de ir adiante, não dá para afirmar que há uma quebra das exportações e que, por isso, precisam de reforço. No momento, crescem a 20% ao ano. E elas não se limitam às receitas externas de bens primários. As exportações de produtos manufaturados, que pesam mais de 54% na pauta, avançam a mais de 15%.

E é também difícil admitir que esteja em curso um processo de desindustrialização quando a indústria automobilística bate recordes de produção e venda (aumento de 33,7 % nas vendas em 12 meses terminados em fevereiro) e a oferta de manufaturados cresce a mais de 6% ao ano.

Em todo o caso, não dá para compor os dois diagnósticos e menos ainda as propostas de solução. Se o problema é desindustrialização em conseqüência do dólar barato e da concorrência predatória externa, a indústria e o mercado interno precisam mesmo de reforço. Se é o consumo acima do tamanho das pernas do setor produtivo, o ataque tem de ser feito com mais juros, menos crédito, mais importações e mais investimentos.

E, por falar em crédito, nem sempre o BC está disposto a assumir sua responsabilidade na esticada do consumo. O crédito (matéria de política monetária), no momento, está avançando a 27,9% ao ano, ritmo quatro vezes superior ao do próprio PIB.

Na verdade, o problema de fundo são as despesas públicas, que crescem a 10% ao ano, portanto, mais do que o PIB, e estão puxando o consumo.

Se houvesse forte contenção das despesas públicas, o governo poderia reduzir mais rapidamente a dívida e o BC não precisaria manter os juros em níveis tão altos.

Mas isso não elimina o racha dentro do governo Lula, cujas conseqüências são de difícil avaliação.

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