sexta-feira, março 21, 2008

André Petry

Resistindo à verdade

"Na quarta-feira, dia do quinto aniversário da
invasão do Iraque, o Departamento de Defesa
identificou a 3 982ª vítima fatal americana do conflito.
Seu nome era Lerando J. Brown. Tinha 27 anos"

É um exercício de desmascaramento comparar os discursos que o presidente George W. Bush fez nos cinco aniversários da invasão do Iraque, anunciada, com firmeza e pompa, na noite de 19 de março de 2003. Naquela ocasião, a guerra custaria entre 50 e 60 bilhões de dólares e, no segundo semestre de 2003, a maioria das tropas americanas já estaria sendo desmobilizada. A coleção dos discursos é uma aula sobre como a retórica oficial oculta a verdade, como troca de objetivos com sutileza e, sobretudo, como resiste bravamente à realidade. Confira:

n Março de 2004, primeiro aniversário: Bush disse que o destino de Saddam Hussein era coisa do passado (o homem fora capturado dentro de um buraco em dezembro do ano anterior) e que o desafio naquele momento era implantar a paz e a democracia no Oriente Médio. "Não há meio-termo entre o bem e o mal, a liberdade e a escravidão, a vida e a morte", disse. Bush estava triunfante, mas teve de silenciar sobre o argumento central da invasão: a suspeita de que Saddam tinha armas de destruição em massa e perseguia a bomba atômica. A lista de americanos mortos no Iraque era de 571.

• Março de 2005, segundo aniversário: Bush disse que a questão não era ganhar e ir embora. Saddam Hussein estava liquidado (o homem seria enforcado em dezembro do ano seguinte), o Iraque elegera uma Assembléia Nacional e uma nova Constituição seria escrita. "Há dois anos", disse, "fomos desarmar um regime brutal, libertar seu povo e defender o mundo de um grave perigo." A missão foi cumprida, disse. "A liberdade está criando raízes no Iraque e o povo americano está mais seguro."

• Março de 2006, terceiro aniversário: a data caiu num domingo, Bush não fez discurso, mas deu uma entrevista de dois minutos. Limitou-se a dizer que estava "animado com os progressos" e não se deteve em fazer comentários sobre paz, democracia ou armas de destruição em massa. Tampouco sobre deixar rapidamente o Iraque. Naquela altura, 2 313 americanos haviam morrido no Iraque e 7 912 tinham sofrido ferimentos que os incapacitaram para os combates.

• Março de 2007, quarto aniversário: Bush fez um discurso em que pediu paciência e alertou contra a tentação de "fazer as malas e voltar para casa". Nem se falava mais na tal vitória rápida. Bush também não disse nada sobre democracia no Oriente Médio. Tampouco lembrou que, quatro anos atrás, previra que, por essa época, a presença militar americana no país seria meramente simbólica. Disse apenas que uma retirada precipitada poderia engolfar o país, e mais tarde a região, numa onda de violência.

• Semana passada, quinto aniversário: Bush disse estar convencido de que a invasão do Iraque melhorou o mundo e deixou os Estados Unidos mais seguros – e, sem condições de prometer sequer um fim para o conflito, fez um apelo à perseverança. Admitiu, enfim, que a guerra está custando em dinheiro e em vidas mais do que calculara no início.

Falar em erro de cálculo é um eufemismo grotesco.

Pelas contas oficiais, o custo do conflito já passou de 600 bilhões de dólares. Um valor igual ao da metade do PIB do Canadá, oitavo país mais rico do mundo.

Na quarta-feira, dia do quinto aniversário da invasão no Iraque, o Departamento de Defesa identificou a 3 982ª vítima fatal americana do conflito. Chamava-se Lerando J. Brown. Tinha 27 anos.

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