quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A renúncia de Fidel


EDITORIAL
Folha de S. Paulo
20/2/2008

Uma transição negociada permitiria aos cubanos livrar-se de uma tirania sem pôr a perder avanços na educação e na saúde

O IMPACTO da renúncia de Fidel Castro Ruz, 81, aos principais cargos que ocupava no regime cubano é acima de tudo simbólico. Em termos práticos, a abdicação apenas oficializa a situação que já vigorava desde julho de 2006, quando o ditador se afastou para tratamento médico.
Quem exerce o poder interinamente desde então é o irmão de Fidel, Raúl Castro, 76, secundado por um grupo de dirigentes mais jovens e supostamente mais pragmáticos. Sobre esse núcleo deverá recair a tarefa de dar continuidade ao que se afigura como uma transição lenta e gradual rumo, não à democracia, mas a uma economia mais aberta ao mercado e tutelada pelo Estado, nos moldes chineses.
No plano político, se os sucessores de Fidel Castro tiverem a oportunidade, conservarão intacta a natureza autoritária do regime e o sistema de partido único. É claro que estratégias como essa são mais fáceis de conceber do que de executar. Há variáveis que escapam ao controle até de ditadores, mas o apoio financeiro de Hugo Chávez, que faz as vezes da antiga URSS, é um elemento que ajuda os planos continuístas da ditadura cubana.
Cabe à comunidade internacional tentar influir para que a abertura econômica ensaiada por Havana se converta também em abertura política. Nesse quesito, o papel de Washington será determinante.
Por ora, o governo norte-americano anunciou que nada muda. O embargo à ilha será mantido. Só que em janeiro do próximo ano haverá um novo presidente na Casa Branca e ele terá a chance de rever o complicado relacionamento entre os EUA e Cuba.
O ideal seria que aliviasse as restrições econômicas impostas a Havana. Tal prática tem servido muito mais para Fidel e seus asseclas se justificarem no poder -imputando a Washington todos os males da ilha- do que para arrancar-lhes concessões democráticas.
Espera-se que o próximo presidente dos EUA consiga libertar-se da tão poderosa quanto contraproducente influência dos emigrados cubanos da Flórida e estabelecer um diálogo franco e produtivo com Havana. É muito mais fácil influir sobre um país participando ativamente de sua economia do que vociferando-lhe ameaças à distância.
Uma transição não-traumática é o que de melhor poderia acontecer para os cubanos. Sem pôr a perder os avanços no campo da educação e da saúde que o regime de Fidel Castro logrou obter, dariam adeus a uma tirania que durante quase meio século perseguiu e eliminou implacavelmente adversários políticos.
Se os números oficiais estão corretos, Cuba é um país com nível de renda de padrão latino-americano, mas que exibe indicadores sociais acima da média da região. Não que a liberdade seja uma mercadoria negociável. Mas não é o caso de jogar fora o que foi tão duramente conquistado apenas para marcar diferenças políticas.
Que a renúncia de Fidel seja o prenúncio de novos tempos para os cubanos.

 

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