sábado, fevereiro 23, 2008

O acervo da família de Marc Ferrez

Um tesouro de família

Imagens feitas por filhos e neto de Marc Ferrez
mostram novos ângulos do Brasil do século XX


Marcelo Bortoloti

Luciano Ferrez/Acervo Família Ferrez
A foto de Luciano Ferrez mostra um panorama de São Conrado, em 1933: praia deserta e a favela da Rocinha nascendo ao fundo

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Entre os pioneiros da fotografia no Brasil, o nome mais conhecido e a obra mais monumental são de Marc Ferrez (1843-1923). Seu acervo, conservado durante décadas por sua família, pertence hoje ao Instituto Moreira Salles. Agora, os Ferrez voltam à cena, com uma exposição de preciosidades garimpadas em outro acervo, que permanecia guardado em família e foi doado no ano passado ao Arquivo Nacional: as 8.000 imagens registradas pelos filhos do fotógrafo, Júlio e Luciano, e por um de seus netos, Gilberto. São fotografias inéditas, de alta qualidade técnica e excelente estado de conservação, que mostram paisagens urbanas e cenas do cotidiano do Brasil e do exterior entre 1910 e 1950. Um retrato precioso de uma época pouco estudada, na qual apenas um nome se destaca fora dos círculos especializados: o de Augusto Malta, fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936.

A exposição, que reúne 396 imagens da lavra de Júlio, Luciano e Gilberto Ferrez, tem curadoria de Pedro Karp Vasquez, grande estudioso da fotografia brasileira. Será inaugurada nesta semana no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e em data ainda a ser definida segue para São Paulo. Ela revela talentos que tinham na fotografia uma atividade intensa, embora secundária. Júlio, que assim como Luciano trabalhava no ramo de distribuição de filmes, chegou a publicar um manual para fotógrafos não profissionais, O Amador Photographo, em 1905. Gilberto Ferrez, que se notabilizou como pesquisador de história da fotografia, desde os 18 anos não saía de casa sem uma câmera.

Gilberto Ferrez/Acervo Família Ferrez
O centro de São Paulo por Gilberto Ferrez, em 1931: o poderio econômico já se mostrava na publicidade

No período retratado, a linguagem fotográfica passava por grande transformação, provocada pelo avanço da tecnologia. Os pioneiros da fotografia trabalhavam com trambolhos de 5 quilos, que exigiam acessórios de peso três vezes maior. A partir da virada do século XX, esses equipamentos foram sendo gradualmente substituídos por máquinas mais leves e versáteis. Nos anos 20, já havia modelos de menos de 1 quilo, que permitiam fotos com a câmera na mão e maior mobilidade. Graças a isso, perdeu espaço o fotógrafo de câmera e tripé, especializado em imagens posadas. Essa mudança, associada aos filmes em rolo, que substituíram as pesadas chapas de vidro, favoreceu o desenvolvimento da fotografia amadora, que registrava o cotidiano sob um viés mais espontâneo. "Começam a surgir fotos feitas informalmente, no seio da família ou durante viagens. E os Ferrez vivenciaram essa transformação dentro de casa", diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles.

Outro aspecto importante do acervo é que ele registra as muitas transformações urbanas do Brasil da época. A cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, passou por duas grandes reformas. A primeira, mais conhecida, foi a do prefeito Pereira Passos, em nome de uma modernização urbanística. A segunda começou nos anos 1930, pela mão do prefeito Henrique Dodsworth, responsável, entre outras grandes obras, pela abertura da Avenida Presidente Vargas. Além do Rio, há imagens preciosas de monumentos na Bahia, Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais na primeira metade do século passado. O legado de Marc Ferrez para a fotografia brasileira é considerado, há muito tempo, um dos mais significativos da história. Vê-se agora que, direta ou indiretamente, sua contribuição foi ainda maior.

Júlio Ferrez/Acervo Família Ferrez
Marc Ferrez fotografado por seu filho Júlio, em 1915: acervo inédito por quase um século


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