terça-feira, fevereiro 19, 2008

Luiz Garcia - Homens e armas



O Globo
19/2/2008

Se é negra a situação, qualquer boa notícia vale foguete e rojão, diz velho ditado. Comemoremos, pois, a guerra declarada pela Marinha aos traficantes do Rio.

Pode haver quem diga que as Forças Armadas não se prestam a combater a criminalidade urbana. Mas a questão pode ser apenas escolher o tipo adequado de ação. Em anos passados, tentativas do Exército de ajudar no combate ao tráfico -- inclusive com presença física no patrulhamento de favelas -- não tiveram resultados animadores, nem, por isso mesmo, duraram muito.

A participação da Marinha no combate ao maior inimigo público do país, agora anunciada, não parece destinada à frustração. Na verdade é a intensificação de trabalho que já existe. E, para bom começo de conversa, não inclui o equívoco de substituir os contingentes policiais nas suas áreas de competência específica.

Consiste principalmente de apoio material de retaguarda, como a manutenção de veículos policiais e a doação de 500 fuzis. Também está previsto intercâmbio tecnológico: policiais ganharão conhecimentos em áreas como meteorologia, marés e correntes marinhas, e passarão aos marinheiros noções sobre impressões digitais, preservação de locais de crimes etc. Além disso, já há algum tempo, a Marinha aperfeiçoou a segurança de seus quartéis, impedindo o roubo de armas por quadrilhas de traficantes.

São boas novas. Principalmente se resistirem ao duro teste da realidade. Por exemplo, no caso dos 500 fuzis entregues à Polícia Militar. A PM tem sua banda podre - como está documentado em variados episódios recentes - e todo o projeto de cooperação pode ir por água abaixo se, por exemplo, parte das armas acabar nas mãos de traficantes. Isso não é previsão, apenas constatação de que o risco existe e tem precedentes conhecidos. Nessa guerra, a combinação pouco salário/muitas armas é bomba com pavio permanentemente aceso.

Mas não é hora de previsões pessimistas. O acordo entre a Marinha e o governo estadual tem importância superior à soma de seus itens. É prova concreta que existe na área federal (ao menos, num setor dela) consciência da amplitude e da profundidade do problema da segurança pública no Estado do Rio - na verdade, parte mais visível de um problema generalizado.

A força do crime organizado, que tem nos pistoleiros das favelas apenas os seus integrantes mais visíveis, é ameaça e permanente à segurança nacional. O grande traficante federal e o pistoleiro adolescente das favelas municipais fazem parte da mesma empresa criminosa. A união de todos os setores e níveis do Estado contra ela tem mesmo de ser, por isso mesmo, intensa, permanente e eficaz.

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