Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, abril 16, 2005
Pedro Doria:Argentina tinha negros. Matou-os
16.04.2005 | De repente, quando a semana já ia terminando, racismo e escravidão tomaram conta do noticiário, jogando para trás as últimas do Vaticano, Brasília ou Mônaco. Justamente enquanto o presidente Lula visitava a África levando seu pedido de desculpas, um jogador de futebol argentino, alguém chamado Leandro Desábato, deu de ser preso em São Paulo por demonstração de racismo. Há algum tipo de ironia nisso, porque Brasil e Argentina são parceiros íntimos na chaga da escravidão. Uma chaga que, no vizinho ao sul, terminou em genocídio. En Argentina, no hay negros porque foram todos mortos faz pouco mais de um século, numa história trágica do continente.
O processo da prisão de Desábato foi meio confuso, repentino, pegou de surpresa a imprensa de cá e de lá, que juntas montaram um samba do criolo doido. Não só a imprensa. O governo brasileiro divulgou nota oficial – sabe-se lá o porquê. Foi só um ato de crime comum, não há qualquer motivo para alçá-lo à categoria de crise diplomática. Em matéria de inabilidade, Lula e Kirchner se equiparam, mas desta vez Lula não teve nada com isso, o desastrado foi seu ministro dos Esportes, e o governo argentino não mordeu a isca. Fez bem. A surpresa, na verdade, é maior lá do que aqui.
A imprensa esportiva argentina reagiu com a maturidade tradicional que cabe à imprensa esportiva, brasileira inclusa: nenhuma. Os outros jornais foram mais cautelosos. Mais impressionante são as pesquisas dos sites de “El Clarín” e “La Nación”, os dois jornais de maior circulação. Em ambas, numa proporção de 60% a 40%, os leitores são favoráveis à prisão. Acham que está certo.
Em mais de um lugar na imprensa brasileira, incluindo aí o noticiário da TV Globo, explica-se que na Argentina não há negros porque lá não houve escravidão e por isso a surpresa com a reação brasileira. Samba do crioulo doido, pois é.
Jorge Lanata é um dos mais importantes jornalistas argentinos, fundador do diário “Página/12” e autor de “Argentinos”, uma belíssima história de seu país em dois volumes, lançada em 2002. Nos livros, ele batiza os negros de los primeiros desaparecidos, referência aos mortos pela ditadura militar recente. E traz números: no censo de 1778, 30% da população tinha origem africana. A proporção se mantém no censo de 1810, cai para 25% em 1838. Em 1887, repentinamente, compõe menos de 2%. Mas no início, bem no início, há depoimentos de que a proporção de negros e brancos em Buenos Aires chegou a ser de 5 para 1.
Durante seu primeiro século de vida, a capital argentina sobreviveu às custas do comércio negreiro. Durante o século 16 e primeira metade do 17, a coroa espanhola drenava o ouro e a prata do Potosí, na atual Bolívia. Foi este o negócio que batizou o Rio da Prata – e foram principalmente mãos negras que tiraram das minas subterrâneas os metais que sustentaram a Europa.
Os escravos que trabalharam no Potosí vinham principalmente de Angola. Eram negociados pelos peruleiros, que faziam a rota Potosí, Buenos Aires, Rio, Luanda. O Rio de Janeiro também sobreviveu economicamente por conta do tráfico, numa época em que o açúcar do Nordeste era de qualidade muito maior. No Rio chegavam os escravos, pagos em boa parte não com dinheiro mas com açúcar, cachaça, mandioca e tabaco, que serviam de moeda de troca na África. Os escravos eram transportados então para Buenos Aires, onde entravam ilegalmente, e enviados Prata acima até as minas. Era um jogo onde todos, inclusive os governadores, eram contrabandistas. A relação na rota de tráfico entre Rio e Buenos Aires era tão íntima que, quando veio a separação da União Ibérica, os cariocas chegaram a sugerir aos hermanitos que se bandeassem para o lado português. (É incerto quem se deu bem na troca.)
Como no Brasil, todo o serviço, doméstico ou não, durante boa parte dos séculos 17 e 18 foi feito por mão-de-obra negra e escrava. Então desapareceram e a história local ensinada nas escolas se cala sobre o assunto.
Francisco Morrone, autor de “Los negros en el ejército: declinación demográfica e disolución”, é um dos historiadores que tenta recuperar o que houve. Segundo Morrone, uma das coisas que aconteceu foram casamentos mistos que, lentamente, clarearam a pele de filhos e netos. É o tipo da resposta que explica quase nada. Mas aí ele mete o dedo na ferida.
A Abolição da Escravatura na Argentina começou em 1813, foi confirmada pela Constituição de 1853 – um bocado anterior à brasileira. Durante o século 19 todo, o país se meteu numa guerra após a outra. Contra invasões por parte de Inglaterra e França, então a Guerra da Independência seguida do banho de sangue da luta interna entre caudilhos pelo poder e culminando com a Guerra do Paraguai, na qual seguimos aliados. Por todo este período belicista, a Argentina pôs seus negros na linha de frente dos exércitos, os primeiros a levar tiros, às vezes de espingardas – muitas vezes servindo de isca para que o inimigo gastasse as balas de canhão.
O golpe final foi a grande epidemia de Febre Amarela em 1871, que se abateu sobre os bairros de Buenos Aires para onde os negros que sobraram foram transferidos. Depois, nos primeiros anos do século 20, assim como no Brasil, houve uma enorme migração européia, principalmente de italianos, que marcaram o sotaque portenho como marcaram cá o paulistano. A diferença é que, a essas alturas, os poucos mulatos não tiveram melanina suficiente para escurecer a pele da população restante.
A Argentina teve, sim, escravos, exatamente como o Brasil e na mesma proporção. Nos momentos seguintes à sua independência, aboliu a escravidão para pôr em marcha uma política de branqueamento da população. No caso, isso quer dizer genocídio. Diga-se de passagem, nos primeiros anos da República isto foi motivo de inveja por parte do governo brasileiro. Não há inocentes.
E não deve ter feito qualquer mal ao jogador do Quílmes passar duas noites na cadeia para pensar sobre isso. A imprensa continua, tanto lá quanto cá, perdida no trato, se há exagero ou não, e onde. Mas julgando pelas pesquisas feitas online pelos jornalões argentinos, parece que a população portenha entendeu muito bem o que houve e jogou a rivalidade às favas.
no mínimo
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