Durante quase quatro séculos, o Brasil escravizou os negros. A prática começou no início do século XVI e terminou no finzinho do século XIX. Isso dá quatro quintos da nossa história conhecida. O país foi o grande importador de escravos. Há alguma controvérsia estatística, mas a idéia é que desembarcaram aqui 40% dos que saíram da África. Os relatos do que se passava com eles no Brasil são estarrecedores.
Há muitos registros. No “Casa grande & senzala”, livro condenado à controvérsia, há amostras de que nunca houve uma escravidão benigna, não apenas porque tal expressão é uma contradição ambulante, mas porque os requintes de perversidade cotidiana eram devastadores. Os escravos brasileiros tinham alto índice de mortalidade, baixíssima expectativa de vida, mesmo quando comparados a escravos de outros países. As milhões de tragédias particulares construíram a economia do Brasil em todos os ciclos daqueles séculos. Não apenas a agricultura exportadora: toda a economia brasileira foi montada sobre aquele odioso pilar.
Um país carrega sua história. Para o bem ou para o mal. Melhor é encará-la de frente, atrás de virtudes a cultuar, feridas a curar. O que o presidente Lula fez na África foi olhar pela porta sem retorno, pela qual passaram tantos milhões dos que vieram para cá. Sentir no braço o grilhão e pedir perdão. O primeiro impulso de muitos brasileiros, ao ver a notícia, deve ter sido a estranheza: “Perdão por quê? Não fomos nós!” Ontem, um jovem de 32 anos, inteligente e bem informado, me disse, indignado: “Os brasileiros nunca escravizaram ninguém!.” Foram os portugueses apenas? Seria bom acreditar nisso, mas o fato histórico é que, por quase sete décadas, depois da independência, a escravidão legal continuou.
A minha convicção é de que o presidente Lula está certo. E que há um vasto trabalho a fazer para corrigir uma história varrida para debaixo do tapete no último século. A escravidão marcou o Brasil, até porque quatro séculos não passam em vão. A negação que o país usou como biombo não esconde nada. A brutal desigualdade racial permanece como chaga. Terá que ser curada nos anos e décadas que se abrem à nossa frente para construirmos o sonhado futuro de menos desigualdade.
Há muitos relatos daquele tempo. Numa leitura despreocupada de fim de semana, deparei-me com um deles. Adèle Toussaint-Samson era parisiense, filha de um dos fundadores da Comédie-Française e casada com um dançarino. Veio para o Brasil em 1850 e morou aqui 12 anos. De volta à França, publicou no “Le Figaro”, em capítulos, o livro relançado agora pela Editora Capivara. “Uma parisiense no Brasil” é fino e inquietante. O leitor fica com a sensação de encontrar lá o avô do Brasil. Somos parecidíssimos com o que éramos. O texto em que ela descreve seu deslumbramento com a beleza da Baía de Guanabara, ainda no navio, e sua decepção com a sujeira da praia, no desembarque, revela que é antigo o erro de tratar a baía como lata de lixo.
Adèle foi morar na Rua do Rosário. A vizinha de cima batia diariamente nos escravos. “Um dia em que os golpes de chicote choviam mais abundantemente que de costume e em que os gritos se faziam ouvir mais dilacerantes que de hábito, levantei-me de súbito e, dirigindo-me a meu marido, que, nascido no Brasil, de pais franceses, falava português como sua própria língua: ‘Como se diz bourreau?’, perguntei-lhe. ‘Carrasco’, respondeu-me. Essa foi a minha primeira palavra em português.”
Adèle era uma mulher além do seu tempo. Feminista, implicava com a maneira como os homens tratavam as mulheres no Brasil. Detestava até o fato de que, nas festas, os homens ficavam numa sala e as mulheres em outra. Apaixonou-se pela exuberante natureza e denunciou sinais dos atentados ambientais. Uma ecologista prematura. Viajou pelo interior do Brasil e conversou com os escravos. Uma repórter de talento.
Um dia, numa fazenda, ela conta: “Ao chamado do feitor, vimos erguer-se na sombra uma espécie de fantasmas: cada um saía de sua pobre senzala, um tipo de choupana feita de terra e lama, com folhas secas de bananeira por telhado, triste abrigo onde a água penetra quando chove, onde o vento sopra de todo lado e de onde sai uma horrível fumaça à hora em que o negro aquece sua refeição da noite.” Eles estavam sendo chamados para a missa na casa-grande. “A maior parte deles trazia nos ombros as marcas das cicatrizes que o chicote ali imprimira; vários estavam afetados por horríveis doenças, como a elefantíase ou a lepra. Tudo aquilo era sujo, repugnante, hediondo. O temor ou o ódio, eis o que se lia em todos aqueles rostos que eu nunca vi sorrir.”
Ela descreve a missa, e a repetição do ora pro nobis dos negros. “Enfim, seu canto terminou por este grito dilacerante, que todos lançaram, prosternando-se com a face contra o chão: Miserere Nobis!” Quando a missa termina, os escravos beijam a mão de cada branco na sala e pedem a bênção. “Eu te abençôo”, dizem, magnânimos.
Já li outros relatos, mas o de Adèle tem o frescor do texto jornalístico. Ela entrevista uma mulher açoitada e pergunta se ela tinha roubado. “Não senhora; eu fugi.” Por que fugiu? “Porque um escravo deve fugir da escravidão sempre”, ensinou.
O nome do que aconteceu no Brasil, por quase quatrocentos anos, é mesmo holocausto. Por que resistimos tanto a admitir? Talvez seja coisa herdada. A colônia brasileira em Paris insistiu para que Dom Pedro II pedisse ao jornal que suspendesse a publicação dos textos de Adèle. O imperador, felizmente, recusou o papel de censor.
O Globo
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