Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 15, 2005

Lucia Hippolito:Cadê Zé Dirceu que não vê essas coisas?



"O que faz o ministro José Dirceu como gerentão do governo, que não vê os absurdos que estão acontecendo no Brasil em matéria de burocratização das relações do Estado com os cidadãos? Uma burocratização desnecessária e na maioria das vezes muito burra.
Todo mundo ainda se lembra daquelas filas quilométricas cheias de velhinhos de mais de 90 anos, que tinham que provar que estavam vivos para poder continuar a receber a fortuna que a Previdência lhes paga.
Pois bem: um dos documentos exigidos dos velhinhos era o certificado de reservista. E daí? E se o velhinho não tivesse servido ao Exército ou tivesse perdido o certificado? Ia ter que fazer Tiro de Guerra ou CPOR?! Ia deixar de receber sua mísera aposentadoria porque não serviu ao glorioso Exército Nacional?
Na Receita Federal, o dono de botequim que não possuir um computador com Internet, não consegue tirar uma certidão. Sua alternativa é chegar numa fila em algum guichê da Receita às três horas da manhã, para pegar uma senha e ser atendido por um burocrata mal humorado que vai lhe pedir meia tonelada de documentos. Resultado: o dono do botequim escolhe o caminho da informalidade – que é outro nome para sonegação.
Outro caso é o dos adolescentes que prestam o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Pela primeira vez, os burocratas do MEC decidiram exigir CPF dos adolescentes.
Ou seja: só se tira CPF quando se passa a ser contribuinte. Por exemplo, quando se abre uma conta em banco, porque aí o governo já pode extrair CPMF do correntista. Mas se o adolescente não é contribuinte, para que possuir CPF? Só para entupir os computadores da Receita Federal.
A resposta do burocrata do MEC foi que os jovens podiam tirar o CPF nos Correios. Resposta dos Correios: demora dois meses. Os meninos e meninas quase foram à loucura. Sem contar os pais e as escolas, que não sabiam o que fazer.
Agora apareceu mais uma idéia genial: os alunos do ensino fundamental vão passar a ter um número. Igualzinho gado quando é marcado. Ou judeu em campo de concentração. Só falta costurar o número no uniforme ou tatuar no braço.
Durante a ditadura o delírio burocrático chegou a tal ponto que os militares criaram o Ministério da Desburocratização, para começar a simplificar a vida das pessoas. Diminuir o número de carimbos, de firmas reconhecidas, de documentos autenticados em cartório. Bobagens desse calibre.
Pois a coisa hoje está muitas vezes pior do que no tempo da ditadura. Está acontecendo o samba do carimbador maluco: a burocracia desembestou de vez.
Cadê o ministro José Dirceu, que não vê esses absurdos?"

enviada por Ricardo NoblatBliG Ricardo Noblat

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