terça-feira, março 18, 2008

O Estado de S. Paulo

Celso Ming - Na bacia das almas
O Estado de S. Paulo
18/3/2008
Não se sabe o que provocou mais o estrago de ontem nos mercados, se o afundamento do Bear Stearns ou se as decisões extraordinárias e heterodoxas do maior banco central do mundo, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

O Bear foi arrematado na bacia das almas pelo JP Morgan por US$ 2 por ação, a mesma que, no início de maio do ano passado, era cotada a US$ 156. O mercado entendeu como um banco pode virar pó em um par de dias e temeu que este possa ser o fim de um punhado deles. (Veja a tabela e o Confira.) Como sempre nessas ocasiões, deixou o medo comandar seus movimentos.

O Fed não está mais lendo manual de procedimentos. Partiu para o tudo ou nada, sem olhar para prejuízos colaterais nem para aqueles que ainda resmungam que todo “proer” é imoral. Seu objetivo é conter a epidemia.

Nesse fim de semana, criou uma linha especial de crédito de seis meses - renovável sabe-se lá por quanto tempo mais - para bancos de investimento, instituições que estão de fora de seu guarda-chuva institucional. E anunciou a decisão na noite de domingo, antes da abertura dos mercados da Ásia, mostrando que está olhando para muito além do seu território. Como garantia da nova linha de crédito, vai aceitar títulos hipotecários, cujo preço de mercado seu próprio presidente, Ben Bernanke, não tem condições de avaliar, conforme reconhece.

O parágrafo acima mostra o quanto os mais poderosos bancos centrais são vulneráveis. Fundos de hedge (como o Carlyle Capital), bancos de investimento (como o Bear) e companhias de crédito imobiliário (como o Northern Rock) podem provocar terremotos no sistema financeiro, mas não estão sob a tutela de bancos centrais.

O mercado funciona como um só rolo planetário. E, no entanto, a supervisão das finanças globais continua puramente paroquial. Apesar disso, o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso, reafirmou ontem sua convicção de que os bancos centrais saberão devolver a estabilidade dos mercados.

A capacidade de atuação do Fed parece próxima do limite sem que as duas pontas principais da megaencrenca tenham sido amarradas. Os mutuários estão devolvendo seus imóveis porque seu valor hoje é cada vez mais baixo do que o financiamento levantado para comprá-los, e não há remédio para isso. O investidor que forneceu recursos para o crédito hipotecário exige seu dinheiro de volta. Mas ele está aplicado em imóveis e tem de 20 a 30 anos para voltar. Também não há remédio para isso. Por enquanto, a cobertura contra os estragos provocados pela crise atinge apenas o segmento que está no meio do negócio: os bancos.

Parece cada vez mais inevitável a intervenção do Tesouro americano, como ocorreu na crise do crédito imobiliário em 1998. O presidente Bush está informado disso, mas ontem saiu da reunião com sua assessoria econômica na Casa Branca afirmando apenas que está atento e que os bancos americanos são sólidos.

Enquanto isso, o dólar vai derretendo nos mercados.

CONFIRA

Superalavancagem - O consultor Carlos Coradi analisou o último balanço anual (do exercício de 2006) do Bear Stearns e viu o seguinte: o banco tinha um patrimônio de US$ 12 bilhões, mas ativos de US$ 350 bilhões. Uma alavancagem de 29 vezes.

Entre esses ativos, US$ 43 bilhões correspondiam a hipotecas equivalentes a quase quatro vezes o seu patrimônio.

As receitas líquidas do Bear em 2006 alcançaram US$ 9,2 bilhões. No entanto, apenas na rubrica Compensações e Benefícios para seus funcionários foram distribuídos US$ 4,3 bilhões, ou 40% do total.


Dora Kramer - Para o que der e vier
O Estado de S. Paulo
18/3/2008
Se existe um partido que não se aflige com a eleição de 2010, é o PMDB. Não precisa de discurso, desistiu de recuperar a irrecuperável identidade perdida lá atrás, na luta pela redemocratização, e dispensa até mesmo um bom candidato porque, caso raro na política, consegue sobreviver entre as grandes legendas sem disputar eleições presidenciais.

Com bancadas fortes no Congresso, presença organizada em todo o País e um time de profissionais bem treinados no exercício do poder, o PMDB será sempre um aliado desejado por quem quer que tome assento no Planalto.

Hoje o PMDB é mais que um partido. É uma equipe prestadora de serviços que podem ser executados no Congresso, nos ministérios e nas eleições mediante o trabalho de diretórios bem estruturados na quase totalidade dos municípios e a concessão de um bom espaço no horário gratuito de rádio e televisão garantido pela representação numerosa no Parlamento.

Mas o PMDB não seria esse objeto de cobiça se não fizesse, primordial e competentemente, política. Por meio dela conseguiu construir uma inédita unidade no início do segundo mandato do presidente Luiz Inácio da Silva, tornando-se ainda mais valioso e imprescindível aos governos, todos eles reféns de um sistema eleitoral que não produz maiorias parlamentares correspondentes aos votos obtidos pelos chefes do Poder Executivo.

Nessa arte de “fazer política” se inclui posicionar-se bem em períodos pré-eleitorais, a fim de valorizar o cacife da legenda, mas sem as atribulações do atual parceiro, o PT, e do antigo companheiro, o PSDB.

Seja eleito o “poste” de Lula no PT, um candidato de outro partido por ele apoiado, ou um dos dois tucanos presentes ao páreo, os pemedebistas têm lugar garantido na “base aliada”.

Só que conseguirá isso em melhores condições quanto mais eficiência demonstrar na fase preliminar, que no caso da sucessão de Lula já começou, em virtude da antecipação do processo patrocinada pelo próprio presidente, receoso de perder espaço para a oposição.

E se Lula lança seus experimentos, o PMDB também se acha no direito de fazer os seus.

No mais vistoso deles, faz dupla com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, num movimento bom para ambos. Ao mineiro, garante inserção fortalecida na cena da escolha do candidato do PSDB; ao PMDB permite mostrar ao PT que o partido tem suas alternativas e não precisa ficar a reboque dos planos de Lula.

A menos que lá na frente o presidente esteja tão forte a ponto de eleger qualquer um.

Enquanto isso não se resolve, tenta produzir um pré-candidato que dê face à tese da candidatura própria que o partido sempre lança na rua e derruba depois na convenção.

Desta vez, porém, há uma diferença, dizem os pemedebistas do primeiro time: como ainda não existem opções seguras de aliança, porque o PT não tem candidato natural e o PSDB ainda não superou a fase da briga interna, de repente o cenário se complica e o partido consegue mesmo ter um candidato viável.

Preferencialmente, seria o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. É do partido, começou o mandato defendendo temas de repercussão nacional, é jovem e poderia atuar no vácuo da fadiga de material da disputa entre petistas e tucanos.

Cabral, no entanto, não parece disposto a aceitar o desafio. Quando se aborda o assunto internamente com ele, o governador desconversa.

Como tudo o que o PMDB precisa agora é de visibilidade e Aécio Neves também, os dois se juntaram num projeto sem roteiro preestabelecido, cujo objetivo, por ora, não vai além da produção de hipóteses com o intuito de mostrar que estão no jogo para o que der e vier.




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