terça-feira, março 11, 2008

Míriam Leitão - Os contrastes

Míriam Leitão - Os contrastes

PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
11/3/2008

A semana começou otimista aqui e pessimista lá fora. Aqui, a expectativa é de que o IPCA de fevereiro, que sai hoje, fique no mesmo nível do do mesmo mês no ano passado. O PIB de 2007, que será divulgado amanhã, ficará entre 5,1% e 5,5%. Em fevereiro, a venda de automóveis cresceu 36% em relação a fevereiro de 2007. Este ano, o país está exportando US$1 bilhão por mês em carros; mesmo com o dólar baixo.

Lá fora, o dia era de fatos e boatos ruins. Rumores de novas quebras de bancos, de antecipação de queda dos juros americanos e muita volatilidade dos ativos. A Merrill Lynch rebaixou alguns dos papéis da Bear Stearns, que viu suas ações despencarem e teve que desmentir uma onda de boatos de que está com problemas de liquidez. Eles que são bancos que se entendam. O Lehman Brothers anunciou demissões em todas as unidades. A Bolsa de Nova York abriu em queda, teve uma forte recuperação e despencou de novo pelos temores da recessão, que se acentuaram depois que foram divulgados os dados do desemprego na semana passada. Commodities caíram de preço. O dólar parece não ter fundo; e o petróleo, não ter mesmo teto.

Aqui as notícias eram animadoras. Olhando em retrospectiva: a indústria automobilística aumentou em 62% sua produção desde 2003. De lá para cá, a produção anual de automóveis subiu em mais de um milhão de veículos, como mostra o gráfico. O licenciamento aumentou 78% desde 2003. Se for confirmado o aumento previsto pela Anfavea, ao final deste ano, pode ter dobrado a venda de automóveis no período 2003-2008. No ano passado, foram licenciados quase 2,5 milhões de novos carros no país. Isso é bom, mas, ao mesmo tempo, explica um pouco o tormento que tem sido o trânsito das grandes cidades brasileiras.

O crescimento acelerado das vendas é um ponto que assusta o Banco Central. Por outro lado, os dados de inflação estão melhores do que se calculava no começo do ano. O IPCA a ser divulgado hoje deve ficar abaixo de 0,5%; talvez em linha com os mesmos 0,45% do de fevereiro do ano passado. O que significa que a inflação em 12 meses ficará entre 4,4% e 4,5%; dentro da meta. E o IPCA de fevereiro normalmente vem mais alto, por causa do reajuste da educação. Em março, o índice pode ficar abaixo de 0,4%. Se for isso, a inflação do trimestre terá surpreendido. O cálculo era de que ela ficaria mais alta no começo do ano, e só depois cederia.

- O Banco Central não consegue mais justificar subir os juros agora. Vamos esperar a ata do Copom, que sai quinta-feira, mas neste momento ninguém está aumentando sua expectativa de juros - diz o professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio.

Lá fora, o ambiente estava tão ruim que chegou a circular de manhã o boato de que o Fed faria uma reunião de emergência para baixar os juros. O problema é que a reunião regular é na semana que vem.

- Se o Fed fizer uma coisa dessas, vai mostrar pânico e assustar todo mundo. Será que é tão grave assim que não se pode esperar uma semana? - comentou Cunha.

O dado que poderia ser visto como negativo no Brasil foi o da balança comercial que, de novo, deu déficit. Mas até que ponto isso é preocupante? Em momentos de crescimento, o país importa mais mesmo, e absorve mais produção local.

A grande questão é até que ponto pode a economia brasileira continuar bem se a crise externa se agravar. Apesar de todas as nossas boas novas, o risco-Brasil subiu e a bolsa caiu, provando que o mundo globalizado é mais complicado. Não existe a possibilidade de se manter uma ilha de tranqüilidade no meio de um mar revolto. O Brasil tem condições de se sair melhor desta crise que de outras, pelos bons indicadores externos, mas dificilmente estará imune a uma recessão nos Estados Unidos e ao aprofundamento do terremoto no mercado de crédito americano.

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