domingo, março 09, 2008

Miriam Leitão Mundo estranho

O mundo está esquisito. Todos os vários indicadores da economia americana convergem para a mesma constatação: o país, se já não entrou, está às vésperas de uma recessão. Mas as commodities estão tendo um boom de preços, como se o crescimento acelerado fosse continuar para sempre. Alguns economistas vêem nisso a prova do descolamento. Outros temem uma inflação de ativos. O dólar se desfaz e o petróleo quase dobrou de preço em 12 meses.

Os Estados Unidos são menos importantes para o mundo do que já foram.
Mas não se pode dizer que o rei não tenha mais majestade.
Os EUA continuam representando 20% do PIB mundial. A tese de que a China mais alguns países asiáticos podem sustentar sozinhos o crescimento do planeta continua ganhando adeptos — ou torcedores — a cada nova alta das bolsas.
Para acreditar nela, é preciso crer que a conexão da globalização só funciona quando é para puxar o crescimento.
Na última sexta-feira, saíram os dados de desemprego nos Estados Unidos.
Como a maioria dos índices, este também avisou que, há muito, já se passou da luz amarela. O número de postos de trabalho nos EUA teve sua maior queda em cinco anos, vagas foram fechadas.
Especialistas davam conta de que o desalento começa a tomar aqueles que procuram emprego.
Outros vários indicadores antecedentes, como o “leading indicators”, têm apontado para o quadro recessivo norte-americano, mas, como o mundo continua dando sinais de crescimento, a tese do descolamento reaparece. A revista inglesa “The Economist”, nesta última semana, publicou uma reportagem revigorando a idéia do descolamento.
A revista registrou que os emergentes já estão exportando mais para a China que para os Estados Unidos.
Particularmente no caso do Brasil, isso ainda não é verdade. A “Economist” mostrou também que a China tem crescido com base na sua própria poupança interna; e que as vendas nos mercados emergentes estão salvando os balanços de grandes corporações americanas, como Coca-Cola e IBM. Mas lembra que descolamento não quer dizer que a recessão americana não tenha efeito no resto do mundo; pode ter menos impacto que em outros períodos recessivos.
De fato, o mundo hoje é diferente do que era há 20 anos. O economista José Júlio Senna, da MCM Consultores, calculou, com as necessárias ponderações, o quanto do crescimento da economia mundial está atrelado ao crescimento americano. Constatou que, até meados dos anos 80, a cada 1% de crescimento do PIB americano, isso significava para o mundo 0,9 ponto percentual de crescimento.
No entanto, desde então, essa relação foi diminuindo e hoje a conta é de 1 para 0,7.
— O restante da economia mundial sempre foi muito dependente da economia americana. Esse número é sugestivo de que outros países encontraram forças motrizes próprias para crescer.
Mas, ainda que a relação tenha se reduzido, ela continua bastante significativa — afirma José Júlio.
Ele acha que a boa discussão não é se haverá ou não o “decoupling”. O importante é tentar identificar em que medida a crise americana atingirá os demais países. Acreditar num descolamento por completo é apostar que a globalização, que aprofundou tanto os laços entre os países nas últimas décadas, tenha deixado de existir e que uma recessão em 20% do PIB do planeta não terá um forte impacto no crescimento dos demais países.
Há sinais contraditórios, como os dados pelas commodities.
Se há recessão se espalhando, então há menos demanda, e isso reduziria o preço. Está ocorrendo o contrário. O petróleo alcançou os US$ 106; o reajuste negociado do minério de ferro chegou aos 70%, o alumínio subiu 18% só nestes primeiros meses. Entre as commodities agrícolas, a história não é diferente: no ano, a soja subiu 20%; o açúcar 26%; o café 16%.
Para as agrícolas, uma parte da explicação é que milhões de pessoas estão comendo mais e melhor tanto na Índia quanto na China, com o aumento da renda das populações desses países. As commodities metálicas ainda são consumidas no crescimento chinês puxado pelos investimentos que a China tem feito em novas centrais elétricas, rodovias e ferrovias.
Mas há também nisso uma lógica financeira. Com os juros americanos com tendência de queda, a bolsa americana instável, o mercado estaria em busca de rentabilidade especulando no mercado de commodities.
Segundo a RC Consultores, isso tem feito com que haja um “flagrante descolamento dos preços desses produtos da realidade corrente e do cenário advindo dos desdobramentos da atual crise econômica norte-americana”. Ou, como diz diretamente Fabio Silveira, da RC: — Os fundamentos de alta já estavam dados desde o ano passado; nada mudou neste cenário. Não faz sentido aumentar tanto o preço das commodities com os EUA divulgando dados péssimos como estes de agora.
Em resumo, em vez de sinal de vigor da economia, pode ser indício de uma bolha saindo do mercado hipotecário para outros mercados.
A economia internacional mudou, e esta crise não será uma repetição das anteriores com a mesma relação de causa e efeito. Uma coisa é certa: nada do que está acontecendo é trivial.
O petróleo dobrando de preço em um ano, a moeda de referência se liquefazendo, recessão com crise de crédito na ma

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