terça-feira, março 11, 2008

Luiz Garcia - Mais inteligência em Madri



O Globo
11/3/2008

Obrado "no pasarán!" é famoso na História da Espanha. Durante a guerra civil, a brava guerreira Dolores Ibárruri escolheu essas palavras para simbolizar a resistência de Madri ao avanço das tropas franquistas.

Como a esquerda sempre teve melhor imprensa que a direita, poucos se lembram da seca ironia do general Franco quando entrou em Madri: "Hemos pasado." É mesmo chato constatar que fascistas também podem ter senso de humor.

Em qualquer contexto, e apesar dos veredictos da História, a exclamação tem sempre lembrado espírito resoluto e nobres intenções. Será triste caricatura se for usada para retratar a grosseria e mesmo a brutalidade com que autoridades espanholas de hoje tratam os recém-chegados de países como o Brasil.

Não se discute o direito e a necessidade de combater a imigração ilegal. Interessa a todos os países fechar a porta a indesejáveis; principalmente, deter a importação de prostitutas - voluntárias ou iludidas. Mas o que está acontecendo na Espanha com brasileiros que lá aportam, alguns apenas de passagem, é a aplicação de normas excessivamente drásticas; pior ainda, pouco inteligentes.

Não há exagero. Viajantes realmente indesejados têm perfil facilmente detectável. Em geral, são trabalhadores não qualificados e quase sem recursos. E jovens importadas para prostituição. É fácil identificar uns e outras. Infelizmente, os espanhóis estão usando o critério da falta de critério. Parece que desconfiam de todos os viajantes jovens, mesmo aqueles com recursos. Inevitavelmente, diversos passageiros são separados de suas bagagens. Em alguns casos, para sempre.

É frágil demais a desculpa de que ninguém é espancado e jogado em masmorras. Ficamos satisfeitos em confirmar que a Espanha não é uma sinistra ditadura africana ou asiática - mas isso não justifica os abusos.

O governo brasileiro protestou e a Polícia Federal deu uma mãozinha, descobrindo - num passe de mágica, como se dizia antigamente - uns espanhóis merecedores de terem as portas do Brasil batidas em seus narizes. É uma desforra que nada resolve. Há outros tipos possíveis de ação.

A Espanha tem fortes laços empresariais com o Brasil. Seus homens de negócios gostam muito de nosso mercado, e temos considerável interesse nos seus euros.

Será que não há alguma coisa que possam fazer, informalmente que seja, os empresários espanhóis com negócios no Brasil? É de seu interesse manter azeitadas as relações entre os dois países e os dois povos.

Basta convencer Madri de que o combate à imigração ilegal precisa ser mais inteligente - inclusive para dar certo. Não deve ser difícil estabelecer critérios que digam "no pasarán" apenas a quem não deve mesmo passar.

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