sexta-feira, março 21, 2008

Gustave Courbet e o espetáculo do realismo

Um show realista

A esplêndida exposição de Courbet, com seus
auto-retratos sombrios e nus magníficos, joga
luz sobre a arte contemporânea americana


André Petry, de Nova York

Gagosian Gallery/Divulgação
O sono ambíguo, de Courbet, que vai reaparecer em Currin (à dir.), o mais curioso americano da atualidade

Os brasileiros que têm invadido Nova York nos últimos tempos, no embalo do derretimento do dólar, podem juntar-se às 50 000 pessoas que, ao preço de 20 dólares, visitaram a monumental retrospectiva do pintor francês Gustave Courbet (1819-1877) em exibição no Metropolitan Museum. Com mais de 130 trabalhos, a exposição promove uma cascata de sensações. Perturba, diante de seus auto-retratos fabulosos e às vezes sombrios, com destaque para o famoso O Homem Desesperado, provavelmente de 1845. Diverte, em função das sátiras e zombarias que o autor lança às convenções sociais da França de sua época. Comove, pela delicadeza com que o pintor retrata suas irmãs e as montanhas de Ornans, sua cidade natal. E, por fim, derruba o queixo do visitante, com uma coleção de nus magníficos, incluindo A Origem do Mundo, de 1866, que ficou décadas longe dos olhos do público em decorrência do seu incandescente apelo erótico. O sucesso da exposição, aplaudida pelos críticos, pode ser interpretado como um sinal de revalorização do realismo, movimento do qual Courbet foi criador e propagandista, e talvez ajude a entender um pouco melhor a arte contemporânea nos Estados Unidos.

Com uma personalidade exorbitante, Courbet foi um homem arrogante e ambicioso, mas também generoso e amável. Era revolucionário e pacifista. Era provocador e melancólico. Sua ambigüidade pessoal aparece na sua obra de modo tão explícito que não há pintura que seja tipicamente de Courbet. Com seu pincel camaleônico, ele às vezes trabalha com o intenso contraste de claro e escuro de Rembrandt. Outras vezes, revela o esplendor que influenciaria uma respeitável geração de franceses, como Monet, Manet e Cézanne. Realista radical, Courbet não pinta deuses, reis, heróis. Pinta o que entende ser a vida real, mundana. Em seus quadros de nus femininos, nada de ninfas gregas. Mas sua ambigüidade reaparece. Em O Sono, também de 1866, exemplo do seu talento para pintar a pele humana, Courbet retrata uma cena de amor entre duas mulheres – uma de cabelos escuros, aparência remotamente masculina, e a outra de cabelos louros, inequivocamente feminina. Mais de um século depois, o fotógrafo italiano Mario Sorrenti, em trabalho para Yves Saint Laurent, fez uma paródia do quadro, colocando uma mulher no lugar da morena e um homem no lugar da loira. Cristalizou a ambigüidade da cena.

A modernidade de Courbet, porém, não precisava ser reafirmada por uma paródia numa propaganda de moda. Pode ser curioso, mas o pintor americano mais surpreendente da atualidade, John Currin, evoca a obra de Courbet, com um realismo contemporâneo. Nascido no Colorado e criado em Connecticut, Currin, de 45 anos, também exibe as técnicas dos velhos mestres, que aprendeu com um pintor russo. Coubert e Currin são satíricos, homens, brancos e camaleônicos. Os dois pintam nus que podem beirar a pornografia (mais Currin do que Courbet) e os dois chocam o público de seu tempo (mais Courbet do que Currin). Courbet desafiava as convenções da França convulsionada do século XIX. Currin debutou em 1992, a década do politicamente correto, sendo acusado de sexista e misógino. "Currin rea-bilitou antigas práticas de contar uma história visualmente, devolvendo à pintura seu velho papel de ilustração e de persuasão retórica", interpreta Peter Schjeldahl, crítico de arte da revista New Yorker e admirador entusiasmado do americano.

Os aplausos à retrospectiva de Gustave Courbet, somados ao crescente reconhecimento do trabalho de John Currin na cena americana, podem ser mensagens positivas. Num mundo em que o vídeo e a fotografia parecem ser a última palavra em termos de artes contemporâneas, com prejuízo notável da pintura, é interessante que Courbet reapareça e Currin aconteça. O francês sempre esteve aberto à fotografia, cujo surgimento se deu na década de 1850. Ao contrário da maioria dos pintores da época, Courbet não desprezou a fotografia. Incorporou-a ao seu trabalho. Aos nus, sobretudo. Mas também às paisagens do mar, às ondas, a linha do horizonte entre a água e o céu. Até hoje, os críticos ficam intrigados com as semelhanças entre as fotografias do mar de Gustave Le Gray (1820-1884) e as pinturas de Courbet. O que um fazia com a lente, o outro fazia com o pincel. No seu famoso Manifesto Realista, de 1855, Courbet afirma seu desejo de chegar a uma posição em que pudesse traduzir os costumes de sua época, ser um intérprete do seu tempo. Suas pinturas reunidas no Metropolitan, onde ficarão expostas até 18 de maio, são como as cartas que mandou para o futuro. John Currin, o intrigante, o pintor que viaja do clássico ao cru, do belo ao grotesco, certamente as recebeu. Será ótimo se tudo isso, se esse aparente revival do realismo, for o prenúncio de tempos mais humanos pela frente.

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