domingo, março 02, 2008

Estado entrevista osé Roberto Mendonça de Barros

''''É hora da estratégia, não da tática''''

Para o economista, o Brasil entrou em uma fase de ajuste fino, na qual o planejamento tem um papel crucial

Leandro Modé


O economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário da Câmara de Comércio Exterior, não tem dúvidas: o Brasil está diante de uma oportunidade histórica, que advém da emergência da Ásia, em especial da China. Aproveitá-la ou desperdiçá-la dependerá, na opinião dele, de uma mudança de mentalidade. Do setor privado e, especialmente, do governo. Para o economista, o primeiro passo - a estabilização macroeconômica - já foi dado. Agora, é preciso ir além.

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''''No mundo conturbado, ganha-se na tática. No mundo estabilizado, na estratégia. Isso é assim na vida das pessoas, na vida das empresas e na vida dos países'''', diz. O princípio, observa, aplica-se hoje à polêmica em torno da taxa de câmbio. ''''Tudo isso que vem dos suspeitos de sempre, de que o governo precisa fazer alguma coisa, é uma resposta defensiva e tática'''', diz.

Na semana passada, o Banco Central informou que o déficit em conta corrente em janeiro foi o maior desde que o País adotou o câmbio flutuante, em 1999. Mesmo assim, o dólar caiu abaixo de R$ 1,70 pela primeira vez em quase nove anos. Mendonça de Barros conversou com o Estado no escritório de sua consultoria, a MB Associados, localizado na Avenida Paulista, em São Paulo.

O aumento do déficit em conta corrente preocupa?

Por ora, não. Era esperado, em decorrência de um crescimento mais acelerado e de uma economia mais aberta. A questão, aqui, diz respeito à proporção. Algum déficit em conta corrente é razoável, pois é uma contribuição da poupança externa para o crescimento. Mas recriar o ciclo de endividamento é um filme que já vimos e não gostei do final.

Corremos esse risco?

Estamos longe. Está tudo muito no começo e há uma diferença fundamental que as pessoas estão esquecendo: o câmbio flutuante. O que está no nosso cenário é que, à medida que o déficit em conta corrente aumentar, vai ocorrer um movimento contrário ao que vemos hoje. Ou seja, a taxa de câmbio atingirá um piso, o que acho muito positivo para a economia como um todo. O que aconteceu neste ano em relação ao dólar é uma surpresa: essa ''''perna'''' adicional de aumento de preços das commodities num contexto de crise financeira nos EUA. Mesmo quem estava relativamente otimista com o descolamento da economia mundial em relação aos EUA - que não é financeiro, mas da economia real - não esperava essa arrancada das commodities. O cenário que projetávamos, de que o piso do dólar seria atingido no segundo semestre, foi postergado para 2009. Lá na frente isso eventualmente vai ser um problema, cuja magnitude dependerá da trajetória da taxa de juros. Quanto mais o juro cair, será menor a atração para operações de arbitragem. Vivemos um momento em que o ''''kit Brasil'''' voltou com todo vapor.

O que é o ''''kit Brasil''''?

É o estrangeiro que vende dólar e compra juro aqui dentro. É o famoso carry-trade ou carregamento. Isso havia sido desmontado no ano passado, em meio ao tumulto lá fora. O que consolidou esse movimento, que vale também para a bolsa, é a percepção do relativo descolamento do Brasil. Estamos menos colados na economia americana do que no passado. Hoje, 20% do que exportamos vai para os EUA. Há alguns anos, eram 30%. O exportador diversificou a direção do comércio. Isso tudo do ponto de vista real. Do ponto de vista financeiro, nossas relações crédito/PIB e crédito imobiliário/PIB são tão pequenininhas que não há contaminação.

Qual a projeção da MB Associados para o déficit em conta corrente e para o dólar no fim do ano?

Para o déficit em conta corrente, US$ 8,7 bilhões ou 0,6% do PIB. Antes dessa nova ''''pernada'''' do dólar, projetávamos R$ 1,80 no fim do ano. Estamos olhando e, se tivermos de fazer algum ajuste, será para baixo.

O dólar abaixo de R$ 1,70 provocou nova gritaria. O governo pode - e deve - fazer algo para impedir a valorização do real?

No arranjo de política econômica de hoje, é muito pouca coisa que o governo pode ou deveria fazer. Exceto baixar a taxa de juros o mais rapidamente possível. O drama é que, ao mesmo tempo, temos alguma pressão inflacionária. O governo pode tomar alguma medida ou pode-se fazer do limão uma limonada. Prefiro a segunda hipótese. Há aí uma agenda governamental, que não é a de segurar o câmbio. É a agenda de entregar bens públicos, como suporte veterinário, questões de defesa da concorrência, etc. Aqueles que acham que se deve fazer algo têm como foco a indústria tradicional. Essas pessoas olham as commodities e dizem: ''''Isso é minério e agricultura.'''' É um equívoco, uma análise quase inaceitável nos dias de hoje. Se você pega a cadeia inteira de commodities, verá que são muito mais longas do que a gente pensa, muito mais tecnificadas do que a gente pensa e muito mais geradoras de emprego do que a gente pensa. Eles têm uma agenda muito mais ofensiva em termos de crescimento de longo prazo. Estamos chegando a coisas mais centrais. Somos bons em carne vermelha? Somos, mas, se não resolver o problema sanitário, estamos fora. É aquela história de ameaça e oportunidade.

É uma mudança de mentalidade que deve atingir todos os setores?

Exato. Temos setores exportadores tradicionais, como móveis e barras e granitos, que sofrem da mesma maneira com o dólar barato. Mas saem a campo e percebem que o dólar está se desvalorizando também ante outras moedas.

O Brasil, em geral, vê mais a ameaça ou a oportunidade?

O lado real do sistema vê muito mais a oportunidade. Quando falamos em consolidação da estabilização significa a prevalência da estratégia sobre a tática. No mundo estabilizado, ganha-se na estratégia. No mundo conturbado, na tática. Isso é assim na vida das pessoas, na vida das empresas e na vida dos países. O que ganha a guerra é a estratégia. Tudo isso que vem dos suspeitos de sempre, de que o governo precisa fazer alguma coisa, é uma resposta defensiva e tática. Não é a resposta adequada para uma situação de estabilização, onde o que vai ganhar é a estratégia. Só que isso dá um trabalho enorme, pois o mundo globalizado não pára de mudar. O que era uma boa estratégia lá atrás, de repente, vira.

A nata empresarial entendeu isso?

Sim. Esforços de setores que eram tipicamente informais para se formalizar são exatamente isso. Perceberam que o modelo antigo não dá mais. Para entrar nessa nata, têm de ir nessa direção. A Vale está aí não só porque o preço do minério disparou. É porque ela foi capaz de perceber que não podia ser um risco só brasileiro. Por isso foi para a Inco. Por que isso? Porque suas principais concorrentes têm um custo de capital muito menor. Isso é 100% estratégia. Foi definido em 2001, 2002. É claro que o boom chinês ajudou muito, mas há a estratégia.

Estamos em um momento econômico histórico?

Não tenho dúvidas. Mas nem tudo é cenário róseo. Há uma coisa claramente na contramão: o Estado. Olho com muita apreensão e tristeza essa prevalência cada vez maior de uma visão velha, antiga do Estado, que faz, controla, regula e se mete em tudo. Isso custará muito caro ao País. Por isso, não tenho certeza se essa oportunidade será aproveitada para darmos um salto. Complicações de infra-estrutura, por exemplo, decorrem diretamente dessa percepção de que não deve haver agência reguladora. Alguns otimistas dizem que está mudando, mas é muito marginal. O que há? Meia dúzia de estradas? A Infraero será privatizada? Ao mesmo tempo, há 200 mil funcionários a mais, uma estatal por dia sendo criada. Vamos pagar caro quando os atuais governantes perceberem - o presidente é muito perceptivo. Será tarde para mudar.

Nesse contexto, como analisa a proposta de reforma tributária?

Do ponto de vista político, é zero de chance de ir adiante em um ano eleitoral. Alguns princípios são louváveis. O destino em vez da origem no ICMS, fazer a fusão dos impostos de valor adicionado, o ''''IVÃO''''. Mas é difícil pôr em pé porque a Lei Kandir desmoralizou a idéia de fundo de compensação. Alguns Estados até hoje se sentem tungados, pois não receberam o que deveriam. Como não se faz a transição de um sistema para outro sem esses esquemas para apoiar, fica difícil. O que é francamente positivo é o fato de a CPMF não ter sido renovada. A formalização que ocorre no Brasil faz com que a coleta de impostos aumente. Deveríamos aproveitar essa chance para fazer um sistema tributário mais razoável, mas sou cético. O Estado grandão precisa de dinheiro.

Sem entrar no mérito de nomes e partidos, o próximo presidente deverá, talvez mais do que nunca, ter uma visão estratégica?

Sim. Uma visão estratégica não quer dizer que o Estado deve ficar maior, pode até levar ao inverso. Não temos hoje uma visão estratégica. Temos muito mais tática do que estratégia. Apesar dessa estatização que se consolidou e de um cenário externo mais difícil, vamos bem por causa da emergência da Ásia.

Qual o papel da China nisso tudo?

É o epicentro dessa grande mudança. É o equivalente ao que ocorreu nos EUA entre 1880 e 1920. A diferença é que os EUA são mais ricos em recursos naturais, enquanto a China tem mais determinação e poupança. É uma mudança de agrário-rural para urbano-industrial. Para isso, tem de fazer uma construção gigantesca de infra-estrutura, que origina uma alta demanda por recursos naturais por um longo tempo. Lentamente, o centro econômico sai da Bacia do Atlântico e vai para a Bacia do Pacífico. Não se trata de excluir os EUA, até porque eles têm um lado voltado ao Pacífico. A China tem um papel claro na demanda de matérias-primas, que nos beneficia, e capacidade de fabricar produtos de massa baratíssimos, o que nos afeta também. Mas tem uma oportunidade: o mercado interno enorme. É inevitável que o Brasil acabará exportando produtos mais elaborados para a China porque eles não têm água para isso. Em vez de exportarmos soja em grão, venderemos carne pronta embalada. É a visão estratégica que tem de ser construída.

Os mercados tiveram uma melhora considerável nas últimas semanas. Como o sr. vê os EUA hoje?

Do ponto de vista financeiro, ainda tem muita tristeza para acontecer. As estimativas do próprio presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, apontam para um prejuízo de US$ 500 bilhões em decorrência dos empréstimos subprime e suas ramificações. Metade disso estaria no sistema bancário comercial. Se pegar tudo o que já foi ajustado, dá US$ 160 bilhões. A discussão, hoje, é se os EUA terão recessão pequena ou grande. Acho que é pequena. Os EUA vão crescer cerca de 1%, com o primeiro semestre ruim. Em resumo, a economia ainda está descendo o morro, mas, como os mercados têm como função antecipar o futuro, alguma melhora em relação aos vales profundos faz sentido.

Qual o cenário para o juro interno?

O cenário básico é de que o BC não mexerá no juro este ano. Com a valorização do real, menos ainda. De outro lado, temos duas coisas muito preocupantes. Uma é que a economia está muito aquecida e os preços dos serviços vão subir. O outro fator, em parte mitigado pelo dólar, é esse choque de commodities, cuja origem recente é o inverno na China.

Será que o BC terá paciência para ver a inflação rodando um pouco acima de 4,5% (no acumulado em 12 meses) sem subir o juro?

Em março o BC não muda o juro, mas você tem razão. Vai precisar ter paciência chinesa. Ainda há um tarifão (de energia elétrica) por vir. Isso tudo quer dizer que estamos sujeitos a ''''choquinhos'''', de um lado e de outro.

No meio da forte turbulência dos mercados em janeiro, muitos analistas chegaram a prever um crescimento menor para o Brasil este ano. Qual o cenário do sr. ?

Nunca baixamos a projeção. Há muito tempo estamos com 4,7%, ante 5,5% no ano passado. O raciocínio é simples e defensável. O carregamento do ano passado é de 2,5%. Em segundo lugar, o PIB está crescendo por investimentos e consumo de bens duráveis. Não há morte súbita no investimento nem no consumo. Complicado será projetar 2009.

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