domingo, março 23, 2008

Daniel Piza

Políticas cruzadas

sinopse

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, Site: www.danielpiza.com.br

Na segunda-feira, na TV francesa, em uma dessas mesas-redondas sobre política (os franceses ainda discutem política como os brasileiros discutem futebol), Palavras Cruzadas, um dos participantes desancava o presidente Nicolas Sarkozy, grande derrotado das eleições municipais do dia anterior. Depois de alguns argumentos mais técnicos, no calor da situação, ele não se conteve e passou a falar de sua relação com a cantora e modelo (mas nenhum modelo de cantora) Carla Bruni, com quem o presidente vive desfilando, sem respeito nenhum à 'liturgia do cargo', etc. e tal. Para quem assistia, parecia mais uma reação pessoal, de moralismo ou inveja, do que uma observação crítica. Sarkozy ou qualquer político, afinal, pode namorar quem quiser e como quiser.

Outra discussão é quanto ele fez uso dessa relação para atrair a mídia em momento difícil, criando factóides ou 'photo opportunities' como as de sua lua-de-mel no Egito. Sarkozy, já escrevi, lembra um Collor francês, alguém que quer fabricar uma imagem de dinamismo e modernidade divulgando seu cooper e suas roupas, suas viagens e suas leituras, e 'esquece' de dinamizar e modernizar o país. (No caso de Collor, para ficar num só exemplo, aquele confisco da poupança ia diretamente contra qualquer idéia de sociedade moderna, mas houve quem aprovasse.) Nove meses depois de eleito, 'Sarkô' ainda não conseguiu apontar para horizonte nenhum.

A separação entre público e privado é fundamental, mas nunca é total. Lembro o livro de Seymour Hersh, O Lado Negro de Camelot, em que mostrou como o presidente americano JFK era beneficiado pela imagem de homem conquistador, o político jovem e bonito que levaria a nação a se rejuvenescer. E como isso até pôs a segurança nacional em risco em algumas situações. No entanto, cabe também à sociedade deixar um pouco a fofoca de lado e fazer menos confusão. Veja o caso do governador de Nova York, Eliot Spitzer. No Brasil e em muitos países, o que se diz é que ele foi derrubado por um escândalo 'sexual', como se seu problema fosse o fato de ter traído a mulher com prostitutas, daí o 'puritanismo americano', etc. Não, o que pegou foi o fato de que ele montou um esquema fraudulento - talvez até com dinheiro público.

Cidadãos não podem fraudar; governadores, menos ainda. O que não se compreende no Brasil é isso: um funcionário público, por mais poderoso, não pode seguir num cargo quando está sob fortes suspeitas, baseadas em provas concretas (testemunhos e/ou documentos), para as quais não tem uma explicação clara e imediata. Renan Calheiros até hoje não só não explicou a origem do dinheiro com que pagava pensão a Monica Veloso, mas tampouco foi punido por brandir documentos comprovadamente falsos (notas fiscais de empresas inexistentes) à mesa da presidência do Senado desta República.

É diferente do caso da outra Monica, a Lewinsky, no qual Bill Clinton se complicou pela mentira dita em público (sobre não ter tido relação sexual com ela na Casa Branca) e explorada pelo reacionário procurador Kenneth Clark. Clinton não cometeu crime nenhum, ao menos nesse episódio; apenas fez papel de bobo. Não se trata, portanto, do velho provérbio de Pompeu, 'Não basta à mulher de César ser honesta, é preciso parecer honesta'. A questão com Spitzer é que ele não foi honesto. Como a referência demonstra, a relação entre poder e sexo é tão antiga quanto a mais antiga das profissões. O 'Estado espetáculo', por sinal, não é invenção do século 20, mas foi amplificado por ele, com tantos meios de comunicação. Só que ainda é possível distinguir o bom do mau espetáculo e, nas democracias adultas, exigir o dinheiro de volta.

A ARTE DE EXPOR

Estive por três dias em Paris, por causa do Salão do Livro, e aproveitei para visitar algumas exposições. No Louvre, vi Babylone, monumental, e também a grande pintura de Anselm Kiefer, Athanor. Recentemente recebi o livro de William Feaver sobre Lucian Freud, outro grande pintor vivo, cujas gravuras estão em exposição no MoMA, em Nova York. Então é isso: a pintura não morreu, tampouco a figura. Os críticos bem que tentaram. Não conseguiram.

RODAPÉ

Li durante o vôo, com grande expectativa e saudade, o romance póstumo de Paulo Francis, Carne Viva. Ele morreu sem rever o texto, que era sua última tentativa de fazer sucesso como ficcionista, inspirada em autores como Rubem Fonseca, e que sua viúva Sonia Nolasco decidiu publicá-lo agora, 11 anos depois de sua morte. Francis tentou abandonar o estilo de seus romances dos anos 70, Cabeça de Papel e Cabeça de Negro (que dizia influenciados por Joyce, mas que mais lembravam tentativas de um fã de Aldous Huxley e D.H. Lawrence), e escrever com mais brevidade e simplicidade. Infelizmente, não conseguiu.

Não há página que não tenha uma observação e uma citação que não sejam a cara do autor. Como aquele músico de Machado de Assis, Francis se sentava para escrever uma coisa diferente e... só saía o de sempre. O distanciamento, os silêncios do grande ficcionista não existem nessa história de um banqueiro, Francisco Guerra, que presencia o Maio de 1968 em Paris. Guerra é uma caricatura do próprio Francis, Paris mal se vê no romance, e as cenas de sexo são quase risíveis. Ele foi o maior jornalista de opinião do Brasil, e não é por este livro que o leitor saberá disso.

LÁGRIMAS

Morreram Arthur C. Clarke, Anthony Minghella e Paul Scofield. Não acho que Clarke será lido daqui a muito tempo como lemos, por exemplo, Jules Verne e H.G. Wells; mas ao homem que possibilitou 2001, o filme de Stanley Kubrick, só temos a agradecer. Minghella tinha uma queda pela pompa e jamais atingiu o patamar de um David Lean, mas fez filmes interessantes e com bons atores como o premiado O Paciente Inglês, baseado no romance de Michael Ondaatje, que revi recentemente em DVD. Scofield foi um dos maiores atores britânicos de sua geração, e olhe que a concorrência era extraordinária. Pelos relatos, é dar inveja de quem o viu no palco. Mas o temos em filmes como O Homem Que Não Vendeu Sua Alma e Henrique V, com seu enorme brio e técnica.

POR QUE NÃO ME UFANO

O PSDB nunca teve um rumo muito claro, apesar do nome de social-democrata, bastando lembrar a briga entre 'monetaristas' e 'desenvolvimentistas' ao longo dos dois governos FHC. Mas o governo Lula parece ter paralisado os tucanos. Em parte, porque seguiu e aprimorou sua política econômica e social, embora o PT tanto tenha criticado ambas. Em outra parte, porque vários políticos tucanos se viram de rabo preso nos escândalos de corrupção do duplo mandato lulista. O PSDB simplesmente não sabe o Brasil que quer, nem mesmo o que não quer. Um exemplo disso é o 'café com leite' que Aécio Neves e Ciro Gomes já começam a propor, a aproximação entre tucanos e petistas.

Outro exemplo é a bobagem de Geraldo Alckmin sair candidato a prefeito de São Paulo contra Gilberto Kassab e Marta Suplicy. Não que ambos sejam bons nomes. Kassab, como escrevi aqui, não tem cuidado da manutenção da cidade, o que foi preciso o caos do trânsito neste março para que as pessoas percebessem direito. (Congestionamentos, claro, se devem ao aumento inadministrável do número de carros, mas a frota irregular, o problema dos semáforos e a insuficiência de transporte público são culpas do poder público.)

Marta, além de ministra do Turismo que ficou na história por gafes e ausências, preferiu gastar em túneis inúteis à maneira de Maluf. Além disso, recentemente saiu uma informação sobre os CEUs que, para variar, a imprensa não parou para discutir por ser assunto 'velho'. Mas que os alunos de CEUs custem seis vezes mais do que os demais e tenham rendimento escolar tão ruim quanto o deles é absurdo. Escola não serve apenas para socializar; serve, antes, para ensinar.

A bobagem é Alckmin sair contra o ex-vice-prefeito de um colega de seu partido. Supostamente a linha de programa já está atendida. Mas que digo eu? 'Linha de programa'? Os tucanos não a têm, assim como já não têm bons resultados. A educação em São Paulo tem sido desastrosa, como provou a avaliação recente de matemática e leitura, e a atitude em situações como a da cratera do metrô Pinheiros, como demonstrou laudo prévio do IPT (alterações no projeto e pressa na execução aparecem em diversos indícios), foi lamentável ao querer jogar a culpa na 'fatalidade'. O PSDB está perdido.


Aforismos sem juízo
A primeira impressão é a que danifica.


'Não há uma página que não tenha uma citação e uma opinião que não sejam a cara de Paulo Francis'

'Separação entre público e privado é fundamental, mas nunca é total nos
escândalos políticos'

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