sábado, março 01, 2008

Colômbia Terroristas das Farc libertam alguns reféns

Notícias do terror

O relato de quatro seqüestrados libertados expõe 
as torturas a que são submetidos os reféns das Farc


Alexandre SalvadorSEÇÕES ON-LINE

Perguntas & Respostas
Fevereiro de 2008
Farc



Um pesadelo de mais de seis anos terminou para as colombianas Clara Rojas e Consuelo González em janeiro de 2008, quando foram libertadas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o grupo narcoterrorista que as mantinha aprisionadas. Privadas de direitos básicos e vivendo em campos de concentração no meio da selva colombiana, seus relatos mostraram ao mundo como age a organização de facínoras que pretende ser reconhecido pelo mundo como um agente político legítimo. Entenda as origens do conflito na Colômbia, e porque tal classificação jamais poderá ser aplicada às Farc. 


1. Quem são e o que querem as Farc?
2. Elas atuam desde quando?
3. Que métodos utilizam na busca por seus objetivos? 
4. Por que são terroristas? 
5. Qual é a relação da facção com o tráfico de drogas? 
6. Quantos reféns estão em poder das Farc?
7. O que significou a recente libertação de duas reféns?
8. Qual é a posição do governo colombiano sobre o grupo?
9. Quem se alia ao governo no combate às Farc? 
10. E quem as apóia? 
11. O que a população colombiana pensa das Farc? 
12. Existem outros grupos políticos criminosos na Colômbia?

1. Quem são e o que querem as Farc?

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são um grupo de rebeldes de ideologia comunista cujo objetivo declarado é tomar o poder no país pela força. Gostam de se autodenominar "guerrilheiros marxistas", dada a inspiração esquerdista que tiveram quando da sua criação, em meio a uma guerra civil ocorrida na Colômbia nos anos 60. Há muito tempo, entretanto, degeneraram em uma espécie de seita de fanáticos que vive à custa do tráfico de cocaína e de toda sorte de barbaridades. Contam atualmente com 16.000 homens.

 
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2. Elas atuam desde quando?

As Farc surgiram precisamente em 1964. Desde então, 45.000 colombianos morreram pelas mãos de seus integrantes. Só nos últimos cinco anos, mais de 5.000 pessoas foram assassinadas em 930 chacinas.

 
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3. Que métodos utilizam na busca
por seus objetivos?

Seqüestros, tráfico de drogas, extorsão e assassinatos são as principais técnicas que constam na cartilha das Farc. Estupros de reféns e tortura vêm a reboque, como descreveu Consuelo González, uma das cativas libertadas em janeiro. Suas vítimas são acorrentadas pelo pescoço, obrigadas a marchas forçadas no meio do mato e submetidas a cirurgias improvisadas com facas de cozinha. Não satisfeitas, as Farc transformaram a Colômbia na líder do ranking mundial das vítimas de minas terrestres – em sete anos, 9.500 pessoas foram atingidas pelos artefatos. No mais, recrutam boa parte de seus novos membros entre garotos de 10 a 14 anos de idade. Após se embrenharem na selva, os jovens são isolados do mundo exterior, da família e perdem o próprio nome, substituído por um "nome de guerra".

 
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4. Por que são terroristas?

Que qualificação se dá a uma organização de seqüestradores e narcotraficantes que comete todos os crimes descritos acima? Conforme estabelece o conceito da ONU, as Farc não podem ser consideradas outra coisa que não uma organização terrorista. Não lutam contra um governo totalitário ou ocupação estrangeira. É como terroristas que as vêem os Estados Unidos e a União Européia. Delinqüentes comuns, eles vivem de seqüestros, tráfico de drogas e extorsão. Terroristas, eles torturam os seqüestrados, cometem atentados a bomba e executam a sangue-frio militares e civis. O debate semântico só existe hoje devido ao apelo feito pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, para "o reconhecimento da guerrilha colombiana como forças insurgentes".

 
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5. Qual é a relação da facção com
o tráfico de drogas?

As Farc dominam hoje todas as fases para a obtenção da cocaína na Colômbia, a maior produtora mundial da droga. O envolvimento do grupo com o narcotráfico começou no início da década de 90, quando uma ofensiva para erradicar as plantações de folha de coca na Bolívia e no Peru levou os cartéis colombianos a se associar com a guerrilha para o plantio nas áreas rurais sob controle dos esquerdistas. O negócio fez uma tremenda diferença. De guerrilheiros pobres, que tinham perdido a mesada de Cuba, as Farc se tornaram milionárias. Segundo as estimativas oficiais, a atividade rende aos narcoguerrilheiros 590 milhões de dólares por ano.

 
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6. Quantos reféns estão em poder das Farc?

É difícil obter um número preciso. Nos últimos doze anos, cerca de 7.000 seqüestrados passaram pelos cativeiros das Farc. Hoje, há mais de 700 reféns em poder dos guerrilheiros, que aguardam o pagamento de resgate em dinheiro. Destes, 44 reféns são considerados prisioneiros políticos, que as Farc querem trocar por terroristas presos. Não há mais muito sentido econômico nos seqüestros, já que os terroristas têm no narcotráfico uma fonte rentável de financiamento.

 
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7. O que significou a recente libertação
de duas reféns?

Para a resolução do conflito, quase nada. A soltura de Clara Rojas e Consuelo González é uma gota d’água num oceano de horror. Serviu principalmente para fortalecer a imagem internacional de Hugo Chávez. Mesmo sendo aliado das Farc, entretanto, o coronel foi enganado por elas mais de uma vez até a libertação. No máximo o gesto pode ter aumentado a pressão sobre o presidente colombiano Álvaro Uribe, para que seu governo reduza as operações militares contra a guerrilha, sob ameaça de não ocorrerem novas libertações.

 
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8. Qual é a posição do governo colombiano sobre o grupo?

Desde o primeiro dia na Presidência da Colômbia, Uribe investiu com firmeza – e tropas especiais treinadas com a ajuda dos Estados unidos – na tarefa de recuperar o controle de seu país não apenas dos comunistas, mas também dos narcotraficantes e das milícias paramilitares de direita. Quando assumiu o cargo, em 2002, estimava-se que a guerrilha comunista circulasse à vontade ou tivesse o controle efetivo de 40% do território colombiano. Essa área era basicamente de florestas e montanhas de difícil acesso. Seu governo empurrou os terroristas aos grotões e conseguiu diminuir o número de seqüestros aumentando o contingente policial e criando unidades especializadas em combater especificamente esse tipo de crime. Graças a Uribe, os índices de criminalidade colombianos atingiram em 2005 os níveis mais baixos em 20 anos. Há nele uma motivação pessoal nesta luta: seu pai foi assassinado pelas Farc em 1983.

 
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9. Quem se alia ao governo no combate às Farc?

O governo colombiano tem na maior potência do mundo o seu principal aliado na luta contra os narcoguerrilheiros: os Estados Unidos. Uribe é o melhor amigo da Casa Branca na América do Sul, o que lhe permitiu implementar uma cooperação militar com Washington que tem rendido bons frutos. Apesar de ele ser um dos raros presidentes que podem ser levados a sério nos países fronteiriços com o Brasil, o governo Lula é daqueles que tratam Uribe com frieza. O presidente brasileiro não deixou de classificar, porém, os atos das Farc como “abomináveis” no início de 2008.

 
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10. E quem as apóia?

Na linha de frente do cenário internacional, as Farc têm o apoio de Hugo Chávez. O caudilho venezuelano sustenta que a organização tem um projeto político legítimo, que ele associa ao seu próprio socialismo bolivariano. Sua proposta de retirar o nome das Farc da lista de grupos terroristas internacionais recebeu um único apoio – o do presidente Daniel Ortega, da Nicarágua, cujo passado inclui a tomada do poder pela força das armas. Fora isso, há em lugares da Europa uma visão romântica da guerrilha, especialmente por parte dos governos da França e da Espanha, que pressionam Uribe para negociar um acordo que liberte os reféns mais conhecidos. Passam longe de apoiar os criminosos, contudo.

 
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11. O que a população colombiana
pensa das Farc?

Os colombianos também não têm dúvida sobre o assunto: as mais recentes pesquisas de opinião realizadas no país mostram que 93% da população se opõe às Farc. Desde 2000, quando o Instituto Gallup começou a monitorar o conceito do grupo terrorista entre os colombianos, a rejeição se mantém acima dos 87%.

 
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12. Existem outros grupos políticos
criminosos na Colômbia?

Além das Farc, os colombianos ainda são obrigados a conviver com outros dois grupos igualmente violentos, embora não tão poderosos. O primeiro é o Exército de Libertação Nacional, o ELN, criado em 1962 por um grupo de jovens colombianos que foram a Cuba aprender técnicas de guerrilha. O ELN já foi o principal movimento da Colômbia, mas perdeu seu poder com a derrocada do regime cubano, e hoje conta com apenas 3.000 homens. Mais numerosas que eles são as tenebrosas organizações paramilitares que, a pretexto de combater os dois grupos guerrilheiros, adotaram os métodos dos rivais e aplicaram-nos contra a mesma população que já sofria nas mãos de Farc e ELN. Estima-se que as Autodefensas Unidas de Colômbia (AUC), o maior grupo paramilitar, conte hoje com até 30.000 homens.

 
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• Perguntas e respostas: Farc
"Aproveite cada minuto da sua liberdade" foram as últimas palavras que o ex-senador colombiano Luis Eladio Pérez ouviu de Ingrid Betancourt, antes de ser levado para o local onde foi libertado, na semana passada, com outros três ex-parlamentares: Jorge Eduardo Géchem, Orlando Beltrán e Gloria Polanco. Ingrid, seqüestrada quando fazia campanha pela Presidência da Colômbia em 2002, e outras sete centenas de pessoas permanecem nas mãos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A libertação dos quatro seqüestrados, depois de seis anos de pesadelo nas mãos do narcoterrorismo, teve ingredientes similares aos da soltura de duas ex-parlamentares em janeiro. Primeiro, as Farc apresentaram sua decisão como um presente ao presidente Hugo Chávez, da Venezuela. A pretexto de negociar a libertação dos cativos, Chávez tornou-se uma espécie de embaixador dos narcoterroristas e porta-voz da duvidosa tese de que esses devem ser reconhecidos como legítimos beligerantes numa guerra civil. Segundo, por terem os libertados fornecido novas e dolorosas informações sobre a vida nos campos de concentração mantidos pelas Farc nas florestas da Colômbia.

Ingrid Betancourt, a mais conhecida das seqüestradas, corre risco de morte, segundo contou Pérez. Ela sofre de hepatite B e de problemas renais graves. Como represália por suas tentativas de fuga e pela coragem com que enfrenta os terroristas, Ingrid é maltratada diariamente. Vive acorrentada a uma árvore ou a uma estaca e é forçada a caminhar descalça quando o grupo se desloca pela mata. Apesar de doentes, os quatro libertados na semana passada eram privados de assistência médica no cativeiro. Gloria Polanco tinha sido seqüestrada em 2001 na companhia de dois filhos. Três anos depois, seu marido, o ex-governador Jaime Losada, pagou resgate pela libertação dos jovens – mas acabou assassinado pelas Farc por ter atrasado a última prestação.

A narcoguerrilha anunciou que não pretende libertar mais nenhum seqüestrado até que o governo do presidente Álvaro Uribe aceite uma série de exigências. A principal é a criação, pelo período de 45 dias, de uma zona desmilitarizada de 800 quilômetros quadrados. Ela serviria de local para as negociações envolvendo a troca de quarenta políticos e policiais seqüestrados por 500 terroristas presos pelo governo. A libertação de uns poucos seqüestrados é parte da estratégia de passar ao mundo a impressão de que o destino dos reféns depende de Uribe, não dos seqüestradores. Trata-se de um blefe. "A criação da zona desmilitarizada servirá para as Farc se apossarem de uma vasta faixa do território colombiano, sem dar nada em troca, como já ocorreu no passado", disse a VEJA Olga Lucía Gómez, diretora da Fundação País Libre, de Bogotá.

 

"Ingrid está com problemas físicos e é muito maltratada pela guerrilha. Está acorrentada e rodeada de pessoas que tornam sua vida nada agradável."
Luis Eladio Pérez, ex-senador libertado na semana passada pelas Farc

AFP

Ingrid Betancourt fotografada no cativeiro: seis anos em poder dos criminosos

 


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