quinta-feira, março 13, 2008

A boa fase da economia


editorial
O Estado de S. Paulo
13/3/2008

A economia brasileira poderá repetir em 2008 o desempenho do ano passado, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao comentar os bons números de 2007, sintetizados no crescimento de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB). O otimismo é justificável, embora seja preciso levar em conta, em qualquer previsão, as incertezas do cenário internacional. O aumento do PIB é o dado mais vistoso das contas nacionais divulgadas nessa quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas o quadro contém outros detalhes indicadores de importantes mudanças na economia nacional.

O aspecto mais animador é a combinação do investimento em alta com a expansão do consumo privado. Os brasileiros estão conseguindo ao mesmo tempo ampliar a capacidade produtiva do País, por meio da modernização e ampliação do parque de máquinas, equipamentos e instalações, e elevar o padrão de vida de muitos milhões de pessoas. O bolo salarial cresceu 3,6%, graças à criação de empregos, e, além disso, o poder de consumo foi reforçado pelo crédito pessoal e pela transferência de renda às famílias pobres.

Há uma evidente melhora das condições sociais. Pesquisas do IBGE e de entidades privadas sobre o desempenho do comércio varejista já haviam mostrado essa evolução. Não basta, no entanto, ampliar a oferta de vagas. É preciso - e este detalhe não cabe nas contas da macroeconomia - cuidar da qualificação dos brasileiros para as ocupações típicas de uma economia em processo de modernização. A preparação do capital humano, pela educação e pela apuração do estado da saúde, é um dos desafios mais importantes na agenda governamental. A escassez de mão-de-obra qualificada pode ser um obstáculo à continuidade do crescimento e empresários de vários setores já se queixam da falta de pessoal qualificado até para receber treinamento no trabalho.

A expansão do investimento, o outro dado altamente animador, tem resultado principalmente da ação das empresas. Apesar dos juros altos e de outras dificuldades, o empresariado tem conseguido poupar e investir em meios de produção, ampliando e modernizando a capacidade instalada nas indústrias de transformação, nas empresas mineradoras e na agropecuária. Por esse lado, a produtividade e a competitividade continuam aumentando. Essa evolução tem ampliado o espaço para o crescimento econômico sem risco imediato de grandes pressões inflacionárias. Esse dado foi reconhecido e sublinhado no último Relatório de Inflação do Banco Central, divulgado no fim do ano.

Mas, apesar da expansão do investimento - 10% em 2006 e 13,4% no ano passado -, a formação bruta de capital fixo permanece baixa para as necessidades de longo prazo. A relação entre investimento e PIB, 17,6%, continua insatisfatória e praticamente não variou de um ano para outro. Para se manter a economia crescendo em torno de 5% ao ano, durante um longo período, será preciso, segundo as estimativas correntes, elevar aquela relação para mais de 20%. Em países de crescimento muito mais rápido, como a China, a relação investimento/PIB supera 40%.

As condições necessárias para se elevar essa relação, no Brasil, são conhecidas e dependem essencialmente de fatores políticos. É preciso aumentar a capacidade de poupança do governo, por meio de uma política fiscal mais severa e de uma aplicação mais eficiente do dinheiro público. É indispensável, também, apressar a mobilização de capitais privados para investimentos na infra-estrutura e reduzir os encargos tributários sobre as compras de bens de produção pelas empresas. A desoneração dessas compras, tal como prevista na proposta de reforma tributária enviada ao Congresso, ocorrerá muito lentamente nos próximos anos. O governo deveria rever este detalhe da proposta.

Os dados trimestrais do PIB mostram uma clara aceleração do crescimento ao longo de 2007. Essa tendência, segundo os últimos números da indústria, parece manter-se em 2008 e esse é um dos fundamentos do otimismo exibido pelo ministro da Fazenda. Mas é preciso, também, levar em conta o crescente descompasso entre o avanço das importações e o das exportações. Não há crise à vista neste ano, mas convém pensar logo em medidas - especialmente a redução do custo Brasil - para manter a robustez do balanço de pagamentos.


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