domingo, março 09, 2008

AUGUSTO NUNES- SETE DIAS

Os bandidos são os outros

O xerife da cidade americana infernizada diariamente por uma grande quadrilha descobre que, à noitinha, alguns bandidos cruzavam a fronteira para dormir em sossego no lado mexicano, protegidos pelo delegado local. Depois de identificar o esconderijo dos vilões, o xerife ordena a um grupo de auxiliares que, sem pedir licença ao dono do lugar, atravesse a divisa e liqüide o problema a bala. Por ter violado a soberania territorial do vizinho, o xerife cometeu uma ilegalidade. Mas continua xerife. Vilões eram os outros. E vilões continuam os quadrilheiros sobreviventes.

Como o xerife do faroeste, o presidente Álvaro Uribe descobriu que narcoguerrilheiros das Farc, exauridos pelas ações terroristas praticadas na Colômbia durante o dia, atravessavam a fronteira para descansar no Equador. Com a cumplicidade do presidente Rafael Correa (e o patrocínio financeiro do venezuelano Hugo Chávez), a organização criminosa transformara a região em esconderijo, dormitório e campo de treinamento para a luta contra o governo democrático. Até uma base permanente, equipada para assegurar o repouso dos guerreiros da selva, fora instalada a apenas 1.800 metros da fronteira.

A idéia de atacá-la nasceu com a descoberta de que a base era a estalagem predileta de Raúl Reyes, nº 2 no organograma das Farc e nº 1 no setor de venda de prisioneiros. E tomou forma em 27 de fevereiro, quando o serviço de inteligência colombiano grampeou uma conversa telefônica entre Chávez e Reyes.

A escuta revelou que a dupla estava feliz com a barganha consumada dias antes: em troca de outra montanha de petrodólares, as Farc entregaram a Chávez quatro reféns. Também revelou que Reyes estava hospedado na base, acompanhado por 40 combatentes. Uribe decidiu que a hora do ataque chegara.

Na madrugada deste 1º de março, o ressonar dos terroristas lembrava o abandono de criança dormindo quando começou a operação que matou 22 delinqüentes, entre os quais Raúl Reyes. Uribe violou regras que regem as relações entre países. Mas vilões são os outros: os que morreram e os que ficaram.

Reyes, por exemplo, foi um bandido exemplar. E bandidos continuam todos os combatentes vivos, como confirmou nesta quinta-feira a destruição de vários trechos do oleoduto que atravessa terras da Colômbia e do Equador. Os atentados a bomba se somaram a um prontuário, inaugurado em 1964, que inclui milhares de assassinatos e, só nos últimos 10 anos, mais de 6 mil seqüestros. Quase 800 reféns, entre eles a ex-senadora Ingrid Betancourt, seguem submetidos a crueldades inverossímeis.

Está claro quem é quem no faroeste sul-americano, mas os pais da pátria fingem ver as coisas pelo avesso. Chávez, Correa e Evo Morales promoveram a "exército insurgente" uma fantasia comunista hoje dedicada à exploração do narcotráfico. Os demais presidentes se recusam a incluir as Farc na lista das organizações terroristas.

Nenhum deles atreveu-se a comentar as provas, apresentadas por Uribe, de que a irmandade bolivariana apóia e financia as Farc. Todos preferiram recomendar ao xerife que pedisse desculpas ao sócio do bandido. Mas Uribe não está só: o ataque aos fora-da-lei foi aprovado por 90% dos colombianos.

Cabôco Perguntadô

Indignado com a enxurrada de reportagens sobre convênios mais que suspeitos celebrados entre o Ministério do Trabalho e a Força Sindical, entidade que preside, o deputado Paulo Pereira da Silva prometeu revidar com a fórmula usada recentemente pela Igreja Universal: vai acionar judicialmente jornalistas em pelo menos 20 Estados brasileiros. "Pode perder, não tem problema", assassinou o idioma Paulinho da Força. "Meu negócio não é nem ganhar. Meu negócio é dar trabalho para eles". O Cabôco sugere às entidades jornalísticas que revidem com ações judiciais contra o companheiro. Dar trabalho para gente honesta não é o único negócio do companheiro. Há outros. E alguns podem dar cadeia.

Está faltando esse retrato na parede

A galeria dos retratos dos prefeitos do Rio sugere que, nos últimos 50 anos, a cidade mais bela do mundo foi comandada por representantes de todos os subgrupos da grande tribo dos governantes de quinta categoria. A turma que sorri (ou faz cara feia) na parede inclui o corrupto, o inepto, o indolente, o trapalhão, o incompetente, o imbecil, o insensível, o descerebrado - não falta ninguém nessa coleção de monumentos ao fracasso.

Para redimir-se de tantos equívocos, os cariocas poderiam eleger neste ano alguém honesto, inteligente, talentoso, criativo, sensato, corajoso e, diferentemente dos antecessores, apaixonado pelo Rio. Essa figura existe. Chama-se Fernando Gabeira.

Um monumento à sensatez

Durou 111 minutos a leitura do voto do ministro Carlos Ayres Britto na sessão do Supremo Tribunal Federal que deveria ter aprovado (ou não) a Lei de Biossegurança, que autoriza a realização de pesquisas com células-tronco embrionárias. Ninguém na platéia teria reclamado se durasse mais algumas horas.

Admirável na forma, ancorada em argumentos que tornam o conteúdo incontestável, essa preciosidade jurídica é uma seqüência de trechos que valem replay. Um deles: "Vida humana já revestida do atributo da personalidade civil é o fenômeno que transcorre entre o nascimento com vida e a morte". Outro: "Não há uma pessoa humana embrionária, mas um embrião de pessoa humana".

Por entender que "a vida começa desde a fecundação", a CNBB considera inconstitucional a Lei de Biossegurança. "A Constituição faz expresso uso do adjetivo 'residentes' no país, não em útero materno e menos ainda em tubos de ensaio", ensinou Britto. O monumento à sensatez já ganhara o endosso dos ministros Celso de Mello e Ellen Gracie quando a sessão foi interrompida pelo ministro Carlos Alberto Direito.

Ele queria examinar melhor o caso, dissimulou. Católico de missa e procissão, cumpridor disciplinado de tudo o que manda a Igreja, Direito decidiu ainda criancinha votar contra a lei. Fingiu estar em dúvida só para adiar a decisão. Alguém precisa contar-lhe que toga não é batina.

Yolhesman Crisbelles

Criado para premiar também declarações delirantes, o troféu vai nesta semana para o presidente do Equador, Rafael Correa, pela ameaça endereçada à vizinha Colômbia:

Minha pátria foi agredida por um governo canalha. Fomos vítimas de um ato bélico. O Equador irá às últimas conseqüências em defesa de sua soberania. Se for necessário, faremos a guerra.

É bom que, antes de ordenar o bombardeio aéreo da Colômbia, Correa alugue pilotos russos e instale a turma nas cabines dos caças emprestados pelo companheiro bolivariano Hugo Chávez. Se resolver atacar com aviadores equatorianos, a guerra vai acabar já na pista de decolagem.

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