Entrevista:O Estado inteligente

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domingo, dezembro 20, 2009

JB Entrevista : Fernando Henrique Cardoso



Joana Duarte


Da Redação - Os candidatos ao governo chileno, Sebastián Piñera e Eduardo Frei, já começaram a montar suas estratégias para conseguir apoio majoritário dos chilenos no segundo turno das eleições presidenciais, no próximo 17 de janeiro. Do alto de sua experiência, o sociólogo e ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso acredita que renovações são sempre saudáveis, apesar de admitir que, se estivesse no Chile, onde viveu exilado por quase cinco anos, votaria em Eduardo Frei, candidato governista de centro-esquerda da coalizão Concertación – no poder há 20 anos: “As pessoas, de vez em quando, querem renovar, mesmo sem um motivo maior do que a simples renovação em si”, afirma.

No Chile de hoje, o preço do desgaste da coalizão governista está sendo posto na conta de Frei.
Apesar dos altos índices de aprovação do governo de Michelle Bachelet, que chegou a 80% em outubro – a maior popularidade de um presidente chileno desde a redemocratização – Bachelet não consegue converter seu carisma em votos para seu candidato. Em um paralelo com as eleições brasileiras de 2010, Fernando Henrique, do PSDB, sugere que seria a hora de o PT também ceder a vez. Apesar da popularidade de Lula, o resultado das últimas pesquisas de intenção de voto mostram sua pré-candidata, a ministra Dilma Rousseff (PT), bem atrás do governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Para FHC, isso mostra que não há transferência automática de votos, seja no Chile ou no Brasil. Dilma, assim como os outros candidatos, afirma, terá que demonstrar desempenho pessoal acima de tudo, pois na hora das eleições, “as pessoas não vão votar apenas em função de quem apoia quem. Vão olhar quem está sintonizado com o sentimento do momento e quem abre o horizonte de esperança e de confiança, para que diga:
"Com esse eu vou. Esse é fundamental"”.

JB - O candidato da oposição chilena, Sebastián Piñera, é favorito para vencer as eleições chilenas no segundo turno, em janeiro. Como se explica sua liderança nas pesquisas de intenção de votos, apesar da popularidade da presidente Michelle Bachelet, que apoia o governista Eduardo Frei?

Não é a primeira vez que Sebastián Piñera é candidato. Ele já é um nome conhecido. Além disso, embora a presidente Bachelet esteja muito bem avaliada, e eu gosto dela e do governo dela, não é fácil transferir votos. Isso não acontece automaticamente, não é um processo mecânico. Lá no Chile, a coalizão de centro-esquerda Concertación já está governando há muito tempo. Chega um momento em que há uma espécie de cansaço material e é mais fácil renovar. Mas é cedo para saber quem vai ser o vencedor no segundo turno.

JB - O senhor considera que a aprovação de Bachelet está bastante vinculada a características pessoais da presidente?

Eu não tenho dúvida. Em nossos sistemas políticos, não só aqui, mas nas sociedades de massa de um modo geral, que dependem muito de televisão, de rádio, disso tudo, o desempenho pessoal conta muito. Uma candidatura é julgada através de comparação. Por razões que desconheço, é provável que na comparação entre Sebastián Piñera e Eduardo Frei, Piñera tenha se saído melhor no primeiro turno. O Frei já foi presidente e isso sempre tem o efeito de causar um certo cansaço.

JB - Dá para fazer um paralelo com o Brasil, no sentido de que o presidente Lula, apesar de sua grande popularidade, também não tem conseguido transferir sua aprovação para a ministra Dilma Rousseff, sua candidata à Presidência em 2010?

Eu não acho que ele não tenha transferido seus votos. Todos os votos que a candidata Dilma Rousseff tem até agora vieram do Lula. O problema é outro: até que ponto vai haver essa transferência. No caso do Chile é diferente, porque Eduardo Frei já foi presidente, é bastante conhecido, seu partido Concertación tem tradição, e por isso não se contava tanto com a transferência de votos da atual presidente. No caso do Brasil, a candidata do PT não é uma pessoa conhecida, nunca foi às urnas, então, aí sim, se espera muito que haja transferência de votos. Eu acho que, provavelmente, vai haver essa transferência, mas isso tudo, a meu ver, vai depender do desempenho dos candidatos. O eleitorado não vota automaticamente só porque fulano apoiou ou deixou de apoiar. Na hora do voto, as pessoas não vão principalmente por aí. Vão olhar quem está sintonizado com o sentimento do momento e quem abre o horizonte de esperança e confiança, para que digam: “Com esse eu vou. Esse é o candidato que é fundamental”.

JB - É a primeira vez em vinte anos que a Concertación corre o risco de ser derrotada. O que explica essa mudança na direção política do Chile?

Eu acho que o Chile é um país onde as instituições são muito consolidadas, depois do Pinochet, naturalmente. E lá, elegendo-se um ou outro, as mudanças não serão dramáticas. Eu acho que existe o fenômeno que as pessoas precisam renovar de vez em quando, mesmo sem que haja um motivo muito mais forte. Eu não sei ainda se Frei vai perder, pois o candidato independente Ominami teve muitos votos e o partido comunista também. Então, não sabemos se estes votos serão transferidos para Frei. Não sei se ele vai perder, mas que está mais difícil, está. E vou dizer mais: isso é bom para a democracia. Pode ser ruim para quem está no poder, para o partido que vai sair do governo, mas para o país é saudável renovar de vez em quando. E olha que lá no Chile eu estaria ao lado da Bachelet. Não votaria em Piñera. Mas acho que, independentemente da minha opinião pessoal e da opinião que eu acho que muitos têm no Chile, arejar, de vez em quando, é útil para as instituições.

JB - Como o PSDB deve se colocar no debate eleitoral do Brasil? No Chile, Piñera tem sido apresentado como um candidato que vai fazer um governo de continuidade, e ao mesmo tempo propor avanços. O senhor acha que essa é uma estratégia que pode ser adotada pelo PSDB nas eleições?

Eu não sei se o PSDB deve fazer uso dessa ou daquela estratégia, mas eu sei o seguinte: o quê foi que Lula fez? Apesar de negar, não deu continuidade ao que eu tinha feito? Então, quando os países vão avançando e amadurecendo, certas questões vão indo para um lado mais consensual. Evidentemente que muita coisa no Brasil vem se abrindo e se consolidando, coisas que vieram do meu governo, e até mesmo do governo anterior ao meu, continuaram com Lula, que melhorou algumas e regrediu outras. Na hora da campanha, as pessoas vão apresentar isso de outra maneira, dizendo; “Eu fui contra tudo”. Bom, eu não acho que o Brasil esteja num momento em que se você disser “eu sou contra tudo”, isso dê certo, porque não precisa. O Brasil não está indo para o buraco, está indo bem. O que for bom tem que continuar e é preciso poder dizer, tranquilamente: “Vou continuar e vou melhorar ainda mais”. Eu não creio numa tática de um para um lado, outro para o outro, ou um contra o outro. Isso não vai funcionar. Nem de um lado, nem de outro.

JB - O PT promete insistir na comparação entre a sua gestão e a de Lula. O que acha disso?


Eles estão comparando com o passado e distorcendo o passado. É tática política. Ma, de qualquer maneira, eu não acho que as pessoas julguem desta forma. Ninguém vai votar em alguém pelo passado. Vai votar pelo futuro.

JB - Caso Piñera se eleja, podemos dizer que haverá um realinhamento do Chile na América Latina, como, por exemplo, uma aproximação com a Colômbia?

Não acredito em um maior alinhamento com a Colômbia. Cada país tem sua história, suas ligações. O Chile é um país democrático. Tanto o ex-presidente Frei quanto o ex-presidente Lagos, e a presidente Bachelet, embora distintos, têm um comprometimento fundamental com a democracia e com as boas regras de convivência no hemisfério. Nenhum deles endossou, digamos, a posição venezuelana. Nem mesmo o Uruguai, que é um país de democracia estabilizada. Foi eleito lá agora o José Mujica, antes foi o Tabaré Vázquez. Como é que o Vázquez governou? Muito bem, com muita propriedade. Não embarcou em nenhuma destas bandeiras demagógicas. Eu acho que nem Piñera nem Frei vão mudar sensivelmente o comportamento do Chile, porque nessa matéria, sobretudo em política externa, um país como o Chile tem um comportamento de longo prazo mais ou menos definido .

JB - Quais seriam os maiores desafios de Piñera na Presidência?

Eu acho que o maior desafio de um governo liderado por Piñera, como em qualquer outro lugar no mundo de hoje, é decidir o que vai ser o país no futuro. Como é que vamos enfrentar a competição da China, que vai ser grande. Como é que vamos nos colocar diante de uma economia baseada em energia de baixas emissões de CO2. Que outro tipo de matriz energética deve haver. Como é que nós vamos aumentar e aperfeiçoar os processo de integração social. Esses são os desafios que estão aí. O Chile conseguiu não só fortalecer a democracia, como se integrar razoavelmente bem na economia global. Mas a economia global está balançando, e não se sabe que rumo irá tomar. O Chile vai ter que se posicionar diante destes problemas. No caso da América Latina, eu acho que a relação do Chile com o Brasil vai continuar boa. É do nosso interesse haver uma convergência de posições na América Latina. Nós não temos nenhum choque maior. O meu governo não teve e o do Lula tampouco. O Chile nunca teve uma tendência de gerência estatal muito forte, embora tenha um estado muito organizado. E o Piñera, seguramente, vai seguir na mesma linha. O Chile teve um avanço social enorme, foi o país que mais progrediu com um sistema de bolsas, foi o que conseguiu fazer com que mais famílias fossem beneficiadas com acesso a educação e saúde, e isso deve continuar. Eu duvido que o Piñera vá mudar isso.

JB - Como seria a convivência de Piñera com seus aliados da União Democrata Independente (UDI), da extrema direita – inclusive vários que colaboraram com a ditadura de Pinochet e têm posições ideológicas muito conservadoras?

Aqui no Brasil está cheio de gente que colaborou com a ditadura e que está no governo do Lula. Tem ministros que foram sustentáculos ativos da ditadura militar, não é?

JB - O deputado Marco Enríquez-Ominami, a grande novidade eleitoral, escolhido por 20,1% dos eleitores chilenos, decidiu não apoiar nenhum dos candidatos no segundo turno. O senhor acha que esse eleitorado apoiará Eduardo Frei, ou pode haver alguma surpresa?

Ominami disse que não apoiaria ninguém, mas eu acho que o eleitorado dele penderá para o Frei porque ele é uma divergência da esquerda. Então, é difícil o eleitorado apoiar o Piñera, de centro-direita.

JB - Como o senhor vê a postura do novo governo americano com relação à América Latina? Muitos analistas sugerem que, nesse quesito, Obama não difere muito de Bush.

Eu não acho que ele seja a mesma coisa. Acho que Obama tem dado sinais de querer mudar. Ele tem tido dificuldades internas, ele pegou o governo no pior momento possível. Mas não é a mesma coisa. O novo secretário de Estado adjunto dos EUA para a região, Arturo Valenzuela, meu amigo, não tem uma posição iracunda. Na questão de Honduras por exemplo, concordo com ele, de que deve haver um jeito de pacificação. Com relação ao uso das bases na Colômbia, acho que quanto menos bases aqui melhor. Entendo a luta do presidente Álvaro Uribe com o narcotráfico, mas quanto mais paz, melhor.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Uma breve teoria do poder Ives Gandra Martins

Jornal do Brasil - 09/11/2009

Recentemente, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, declarou que se o governo brasileiro não cortar suas despesas de custeio, o crescimento do Brasil estará sacrificado nos próximos anos.

Em meu recente livro Uma breve teoria do poder (Ed. Revista dos Tribunais, 2009), na mesma linha alerto que o Brasil tem exagerado nas benesses auto-outorgadas aos governantes em detrimento da sociedade, logo o que sobra para investimento é muito pouco em relação ao que é destinado a uma burocracia inchada e esclerosada.

Basta verificar o que está destinado para pagamento exclusivo à mão-de-obra oficial ativa e inativa no orçamento de 2010 (em torno de R$ 160 bilhões) contra pouco mais de R$ 10 bilhões para a Bolsa Família. Ao próprio PAC é destinado R$ 23 bilhões.

No livro supra mencionado, fixo mais a figura dos detentores do poder do que a das correntes filosóficas – que cuidam do Estado, das leis e das formas de governo – e procuro demonstrar que, em todos os períodos históricos e espaços geográficos, a busca do poder por aqueles que o desejam raramente tem por objetivo o servir ao povo, mas, sim, o de usufruto das regalias que o poder oferta. Não sem razão, Racine, na sua peça Tebaida, quando Creonte mata seus dois filhos para ser o rei, põe em sua boca a frase de que a felicidade de ser pai não torna ninguém invejoso, por ser comum, mas o trono é um bem do qual os céus é avaro. À mesma conclusão chega Rotrou, na Inocente fidelidade, quando diz que “todos os crimes são belos quando o trono é o preço”.

Na ditaduras o detentor do poder não precisa justificar a apropriação do que bem entender, porque não tem oposição. Nas democracias, entretanto, o que as difere das ditaduras é que têm oposição e a elaboração da lei tem que ser negociada, servindo de autorização para o comando, mas também de limite ao exercício do poder.

As críticas de abuso que a oposição sempre faz mudam quando esta assume o poder, passando a situação anterior à crítica, com a mesma virulência antes lhe dirigida, visto que a busca do poder é o único objetivo e não aquele de servir, que quando ocorre e dá como um mero efeito colateral da detenção do poder.

Carl Schmitt ao entender, por sua teoria das oposições, que a economia opõe o útil ao inútil, a moral, o bem ao mal, a estética, o belo ao feio, mas a política apenas opõe o amigo ao inimigo, dá bem a dimensão do que é a essência do poder.

É algo para ser usufruído por quem o detém. Por esta razão, nas democracias, as campanhas são de baixíssimo nível no mundo inteiro. Maquiavel, no Príncipe, pode ter sua teoria sobre o poder resumida ao seguinte: “É bom o governante, se mantiver o poder, mesmo que mal. É mau o governante que o perder, mesmo que bom”.

Por esta razão, é que a história vem demonstrando uma constante busca de limitação dos poderes de seus detentores pelos textos supremos, que, todavia, sempre que seu detentor tenha força não a respeita. Mesmo culturas tradicionais, no século 20, tiveram ditaduras como a Alemanha e a Itália, pois quem tem o poder procura apenas perpetuar-se nele.

Em plena campanha para a presidência em 2010, o presidente Lula, na luta por eleger sua candidata, não tem poupado críticas aos que exercem funções de controle como Tribunal de Contas, Ministério Público, Poder Judiciário e órgãos de fiscalização, os quais, no exercício do seu dever, detectam irregularidades, superfaturamentos e sobrepreços em muitas de suas obras. À evidência, o presidente Lula não tem razão.

Embora seja difícil mudar a natureza humana na luta pelo poder, temos muito pouco tempo de vida humana sobre o planeta para chegarmos ao ponto de perder a esperança de que um dia os políticos terão como único objetivo servir à sociedade e não dela se servir.

Ives Gandra Martins é professor de direito e escritor.

sábado, outubro 31, 2009

Villas-Bôas Corrêa Catadores de papel e formadores de opinião

JORNAL DO BRASIL

Passei algumas horas no Palácio Tiradentes, antiga sede da Câmara dos Deputados até a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, e ocupada pela Assembleia Legislativa, para prestar um depoimento para a TV Câmara sobre a reportagem política do meu tempo e os hábitos e costumes dos deputados federais.

Por uma hora e meia, esperamos que fosse encontrada a chave para abrir a porta para o plenário. E cutucado pela saudade perambulei pelos corredores e gabinetes, com as muitas modificações de meio século, em que o mundo parece que virou de cabeça para baixo.

No texto impecável do saudoso e brilhante deputado Oscar Dias Corrêa, aqui relembrado no dia 18, a diferença entre o velho Congresso e o da mudança para Brasília deve ter surpreendido e vexado os senadores atolados na série de escândalos e os deputados de uma Câmara que gira em torno de vantagens, regalias, passagens para os fins de semana nas bases eleitorais e assessores de gabinetes individuais para coisa nenhuma.

A cobertura do Congresso acompanhou a mudança para o Legislativo da bagunça. Da reabertura do Congresso, depois da ditadura do Estado Novo, até a recaída na ditadura militar dos 21 anos do rodízio dos cinco generais-presidentes, a democracia viveu a época de ouro, acompanhada pelo interesse da população, que estava farta de ditadura. As galerias lotavam todos os dias da semana de sessões de segunda a sexta-feira, e às vezes aos sábados, atraídas pelos debates entre os grandes oradores de todos os partidos: Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Gustavo Capanema, Flores da Cunha, Milton Campos, Bilac Pinto, Aliomar Baleeiro, Oscar Dias Corrêa, Vieira de Melo, Nereu Ramos, Leonel Brizola, para ficar em alguns exemplos.

E a reportagem política ajustou-se ao novo tempo e à cobrança da população, que tinha à escolha os matutinos Correio da Manhã, Diário de Notícias, O Jornal, Diário Carioca, Jornal do Brasil, Jornal do Commercio, além dos vespertinos, para leitura no bonde e no ônibus na volta para casa, Globo, Notícia, Diário da Noite.

A cobertura do plenário da Câmara e do Senado tinha seu espaço cativo nos matutinos, com repórteres que acompanhavam as sessões da tribuna de imprensa da Câmara, localizada abaixo da Mesa Diretora e com acesso à terra de ninguém, espaço entre a mesa e as bancadas. Outra equipe cobria as comissões, com destaque para a de Constituição e Justiça e a de Finanças.

E, afinal, os repórteres políticos que acompanhavam o jogo do poder, com a cobertura de uma área sem fronteiras, dos plenários, gabinetes do Senado e da Câmara, os gabinetes de ministros, especialmente o da Justiça, as reuniões partidárias, as crises, intrigas e acertos. A turma que me acolheu, repórter deslumbrado e chucro, com seis meses de aprendizado na escola de A Notícia, de Silva Ramos, tinha o seu líder natural no maior repórter político de todos os tempos, o Castelinho, Carlos Castelo Branco, além de Odylo Costa Filho, Heráclio Salles, Benedito Coutinho, Murilo Marroquim, Doutel de Andrade, Otacílio Lopes, o Cara de Onça, Osvaldo Costa, Murilo Mello Filho, Haroldo e Tarcísio Holanda, Carlos Chagas, Fernando Pedreira.

Muitos mudaram para Brasília, e uma nova geração tenta remontar um modelo para a cobertura de um Congresso caricato e desmoralizado.

Sem conhecer nada deste enredo resumido, o presidente Lula, entre as muitas atividades e viagens da campanha antecipada da candidatura da ministra Dilma Rousseff, sem outro assunto para o improviso para 1.500 catadores de papel reciclável, que confundiu com papel de jornal, na abertura do Expocatador pediu aos repórteres presentes que esquecessem “a pauta dos seus editores” e entrevistassem os catadores de papel. E deu a sua aula de leitor bissexto aos embasbacados repórteres: “Vocês vão compreender por que a figura do formador de opinião pública, que antes decidia as coisas neste país, já não decide mais. É que o povo não quer mais intermediários”.

Lula embarcou à tarde para a Venezuela. E os que seguirem os sábios conselhos do presidente esqueçam os jornais e tratem de fazer amizade com um catador de papel.

domingo, outubro 18, 2009

Villas-Bôas Corrêa A velha Câmara antes de Brasília

JORNAL DO BRASIL

O deputado Oscar Dias Corrêa (1921-2005) tocou vários instrumentos na vida. Foi magistrado, ensaísta, romancista. E mais, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal. E um erudito e poliglota, que aprendeu a falar um italiano para ler no original A Divina Comédia , de Dante Alighieri, que sabia quase todo de cor.

Um excelente deputado federal pela UDN mineira, dos mais moços da brilhante bancada integrada por Milton Campos, Afonso Arinos, Alberto Deodato, Bilac Pinto, da Câmara dos Deputados nos tempos da capital no Rio, antes da mudança para Brasília, em 21 de abril de 1960. Uma seleção dos seus trabalhos foi editada pelo Senado Federal (volume 117), e eu recebi um exemplar do seu filho Oscar, que li de um fôlego, com os olhos míopes da saudade.

Na página 353, no artigo que traça o perfil do deputado Odilon Braga, garimpei a pepita de um dos melhores resumos de evocação da fase de ouro da eloquência, da modéstia e da compostura da antiga Câmara, que ofereço aos senadores e deputados do pior Congresso de todos os tempos.

Jovem, “de todos os privilégios que a vida me concedeu, de um, pelo menos, não me esquecerei nunca, pelo significado moral e intelectual da realização pessoal, de consciência do dever cumprido para com a nação: o de ter ingressado na vida pública na época em que floresceu uma das mais nobres, altivas, competentes e dignas gerações de homens públicos do país, que no Parlamento encontrei, com quem aprendi, no exemplo e no convívio, a amar, ainda mais, o Brasil”.

“Àquela época, no Rio tranquilo dos meados do século, ia para a Câmara de ônibus, que a família crescia e os subsídios de deputado não autorizavam exageros. Não tinha automóvel e, na volta, quase sempre, Odilon Braga, morando na Rua Joaquim Nabuco e eu na Figueiredo Magalhães, vizinho de Aliomar Baleeiro, Afonso Arinos, Adauto Cardoso, Guilherme Machado e Rondon Pacheco – me convidava para o retorno no seu Pachkard já bem usado, mas em bom estado de conservação”.

“Vivíamos todos modestamente numa Câmara que funcionava com todas as comissões instaladas, sessões todos os dias, quorum folgado de presença maciça, salvo quando, no uso do direito sagrado de obstrução das minorias, em defesa do país, estávamos na Câmara, mas negávamos número, forçando a maioria a reexaminar as teses que nos pareciam contrárias aos superiores interesses do país; não tínhamos gabinetes nem assessores, mas os pareceres e votos saíam a tempo e a hora, e ainda tínhamos tempo, e ainda encontrávamos vagar para os estudos e a publicação dos ensaios, como os de Odilon sobre O Estado no direito constitucional moderno, Teoria da composição do Poder Legislativo ; e A opinião pública no momento atual”.

Cita o trecho da análise de Odilon Braga, sobre os problemas produzidos pela 2ª Grande Guerra, em face da democracia, tema difícil àquela hora, em face do governo autoritário que imperava: “Se o Brasil está de armas em punho, ombro a ombro com os cruzados da democracia, prestemos sem subsídios, sem privilégios, sem publicidade, sem condições, aos que arcam com os agora severos e inquietantes encargos dos seus postos de governo e de administração, o apoio e os serviços que lhes prestaríamos”.

Voltamos ao texto e às saudades de Oscar Dias Corrêa: “Tempo de modéstia, trabalho permanente, sacrifício abençoado, pelo bem do povo, nossa única preocupação, nossa ânsia permanente, no qual floresceram estadistas que honram nossa História pelo zelo cívico, pela lealdade democrática, pelo fulgor intelectual, pelo amor ao Brasil”.

Muitas páginas adiante, no perfil do mineiro Milton Campos, que foi deputado federal pela UDN, governador de Minas, candidato a vice-presidente, traído pela manobra do Jan-Jan do conchavo de Jânio Quadros com Jango Goulart, Oscar Dias Corrêa invoca o depoimento de Carlos Drummond de Andrade: “Ele foi o homem que a gente gostaria de ser” e lembra que Carlos Castelo Branco, que o viu de perto desde os tempos em que, estudando em nossa Faculdade de Direito, o seguiu e admirou, afirma que ele foi “a maior figura de homem público e de cidadão que conheci”.

sábado, outubro 17, 2009

: Villas-Bôas Corrêa Previsão de Sarney desequilibra Dilma

JORNAL DO BRASIL

A mobilização de mais da metade do governo para a excursão às obras de transposição das águas do rio São Francisco para socorrer o Nordeste, nos tempos de seca, e a irrigação das plantações nas fases de bonança das chuvas abundantes foi atingida por um raio mortal: a previsão do senador José Sarney, presidente do Senado, de que a candidatura da ministra Dilma Rousseff deve ir para segundo turno.

Não é o simples palpite de um leviano nem a seta venenosa de um acerto de contas. Sarney e o presidente Lula entendem-se como aliados nas horas de tempo ameno ou nas inundações das desavenças. E o ex-presidente, que herdou o mandato espichado para seis anos do presidente Tancredo Neves, tem longa experiência de sucessos e derrotas. Saca o argumento de singela objetividade: com cinco candidatos no primeiro turno, com o horário de propaganda eleitoral em rede nacional de rádio e televisão e ainda os prováveis debates entre candidatos promovidos pelas TVs e cadeias de rádio além da internet, só um candidato que dispare e deixe os outros na poeira atingirá a maioria absoluta de metade mais um voto.

Sarney argumenta que não é o que até agora parece provável. Com a confirmação da campanha do deputado Ciro Gomes, correndo por fora e mais as candidaturas da ex-ministra, senadora Marina Silva, do Partido Verde, e a mística de uma defensora do meio ambiente e da proteção da Floresta Amazônica, a candidatura da senadora Heloísa Helena e o peso-pesado do candidato da oposição, provavelmente o governador paulista José Serra ou a possível alternativa do governador Aécio Neves, de Minas, só um fato novo levaria a candidata de Lula á eleição no primeiro turno. Daí em diante, o imprevisível. Mas, como entra pelos olhos, a popularidade de Lula seria arranhada, não tão gravemente como o da sua candidata Dilma Rousseff, que estrearia com um desempenho decepcionante.

E todo esforço de ética questionável, da maratona da caravana do presidente Lula, com a ministra Dilma Rousseff e uma alegre caravana para um giro a pretexto de acompanhar as várias frentes de obras do governo, pode errar o alvo e o tiro sair pela culatra. O prefeito de Pirapora, Warmilom Braga, do DEM, foi informado em cima da hora do cancelamento da visita da caravana do presidente Lula às obras do PAC em Pirapora, cidade vizinha a Buritizeiro, às margens do rio São Francisco. Para um prefeito de uma cidade do interior, o bolo presidencial é desmoralizante.

E para um presidente – que voa para todos os cantos do mundo, que nasceu em Garanhuns, PE, onde viveu até os 7 anos, quando migra para São Paulo, passa por necessidades até a matrícula no curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Indústria (Senai) e começa a vertiginosa ascensão como líder sindical, fundador do PT, deputado federal – não se compreende o desleixo ou a leviandade com que sua agenda de viagens é montada e quase sempre alterada.

A entrevista de José Sarney à Folha de S. Paulo e os percalços da excursão com a ministra Dilma e comitiva devem roubar algumas horas do seu sono na volta aos lençóis domésticos.

Mas Lula tem jogo de cintura e está apostando todas as fichas na tática da polarização entre a ministra Dilma e um candidato de oposição. A presença de Ciro Gomes na peregrinação pelo Nordeste em caravana eleitoral de luxo, com governadores, ministros, parlamentares, prefeitos e candidatos, é a pedra da vez para a tentativa de polarização, quando a popularidade recordista de Lula selaria a vitória. Ciro Gomes, pelo que não confirma nem desmente, pelo menos está examinando o convite de Lula para ser o candidato a vice-presidente na chapa de Dilma, arrastando sua votação, que é considerável não apenas no Ceará mas por todo o Norte e Nordeste.. Um político com carreira respeitável e que desequilibraria a oposição ainda sem a chapa fechada. De certo, apenas o governador de São Paulo, o tucano José Serra, para presidente.
Para vice, o governador mineiro Aécio Neves negaceia, com o forte argumento que seria a chapa que não somaria votos.

A viagem da maior caravana eleitoral antes do prazo constitucional para a propaganda eleitoral é uma parada de risco. Mas quem vai discutir com o presidente com 80% de aprovação e a popularidade blindada que tem resistido a todos os testes?

sábado, outubro 10, 2009

Villas-Bôas Corrêa A candidata oficial puxa a fila

JORNAL DO BRASIL

A queda de quatro pontos nas últimas pesquisas e a euforia com o fim do tratamento do câncer linfático, carimbado com os 90% pela equipe médica, cutucaram o temperamento de lutadora, sem papas na língua, da candidata oficial, a ministra Dilma Rousseff, lançada pelo presidente Lula e engolida pelo PT com arranhões no gogó que se lançou ao tudo ou nada, na arrancada que contorna os prazos legais no anunciado esquema da segunda fase da pré-campanha.

Com a docilidade de quem obedece a quem manda, o enquadrado comando do Partido dos Trabalhadores trocou a água salobra pelo vinho e passou a defender a conveniência da antecipação da saída do governo da candidata Dilma, em meados de fevereiro, para dedicação em tempo integral às visitas aos estados, comparecendo e discursando nos comícios apelidados de reuniões. Nada de muito diferente do que vem fazendo, a desculpa de acompanhar as obras nas diversas frentes, agora inflada com a escolha do Rio para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

O prazo legal para as campanhas no início de abril já foi antecipado, e nada impede que o truque continue a ser aplicado. O roteiro acompanhará as frentes de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Minha Casa Minha Vida para a construção de 1 milhão de residências populares em todos os municípios e capitais, a transposição das águas do Rio São Francisco para a irrigação das áreas secas do Nordeste.

É comovedora a adesão maciça do PT, sem uma voz discordante, ao esquema de campanha da ministra-candidata. O presidente do partido, Ricardo Berzoini (SP), com medo de chegar atrasado, comunicou aos repórteres que Dilma deixará o governo em fevereiro, 40 dias antes do prazo final para a desincompatibilização, para se dedicar à campanha, após o lançamento oficial da sua candidatura, no último dia do 4º Congresso Nacional do PT, em 21 de fevereiro.

O que o presidente do PT anuncia como novidade é exatamente o que a ministra Dilma já vem fazendo por conta própria, desde que os médicos que a trataram do linfoma anunciaram a cura. A peruca é uma das marcas da retomada da campanha. Com gana e urgência. Nos jantares com a bancada do PMDB e depois com a do PDT, as alianças foram celebradas com o tilintar das taças de champanhe. Os peemedebistas foram atendidos na reivindicação da Vice-Presidência, previamente acertada em muitos meses de articulação. E o candidato, como se sabe desde sempre, é o presidente da Câmara e do partido, o elegante e melífluo deputado Michel Temer (SP).

A única veneranda novidade é a oficialização do sabido. Com o ajuste às mudanças no cenário. A explosão de orgulho nacional com a escolha do Rio para sede da Olimpíada-2016, daqui a sete anos, vai ser um tema dominante na campanha de 2014 e não tem gás para a de 2018.

Dilma está fechando acertos para 2010. E aproveitando as hesitações da oposição, com outro tipo de embaraço. O candidato amplamente favorito para puxar a oposição, o governador paulista José Serra (PSDB), não deixará o cargo antes do prazo para a desincompatibilização. E até lá o presidente Lula tem muitos abacaxis para descascar. A gastança sem medida do governo, acelerada na pré-campanha eleitoral, cobra as contas que atazanam o ministro da Fazenda, Guido Mantega. E no corre-corre para garantir o quinhão no rateio do cofre da viúva não há limites à ganância. Os presidentes dos tribunais superiores, depois de garantirem o aumento de 9% em seus vencimentos, decidiram propor ao Congresso o aumento de 80% para os servidores do Judiciário. A proposta terá de ser aprovada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) antes de ser encaminhada ao Congresso.

Se aprovada na Câmara e no Senado, o festival terá o seu ponto alto na mudança do cálculo da Gratificação Judiciária (GAJ) para todos os servidores, no salto olímpico de 50% para 135% do salário-base. A classe média está avisada de que pagará a conta da desatinada expansão das contas do governo, apesar da queda na arrecadação, no delírio da campanha oficial para a eleição da ministra Dilma Rousseff.

É imprevisível o que virá por aí em 2010, na reta de chegada da eleição do sucessor ou sucessora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Villas-Bôas Corrêa A campanha é prioridade até 2010

JORNAL DO BRASIL

RIO - Na tradição festeira do Rio, a escolha para sede dos Jogos Olímpicos de 2016 assinala um recorde comparável, por exemplo, com a recepção da Força Expedicionária Brasileira (FEB), quando retornou da Itália, depois da derrota do Eixo, com centenas de medalhas por ato de bravura. A memória cutucada recupera as imagens da Avenida Rio Branco literalmente coberta pela multidão, que só deixou o espaço para uma única fila da Praça Mauá ao Monroe.

Carnaval não vale, porque é folguedo de todo o ano, com o Sambódromo e suas amplas arquibancadas para conforto dos fanáticos. A Olimpíada tem outra cadência. A multidão, que varou a madrugada lotando a Praia de Copacabana, no dia seguinte retomou a sua rotina. E não se deve imaginar que a obra monumental em todas as sedes de competições esportivas reúna dezenas, centenas de desocupados para acompanhar o baticum dos martelos e o empilhar de tijolos.

Na pausa, a pré-campanha retomou as articulações de bastidores, com algumas novidades dignas de registro. A ministra-candidata Dilma Rousseff, na euforia da cura atestada pela equipe médica do tumor cancerígeno, depois das sessões de quimioterapia, comemorou a retomada das transas para a montagem da chapa, com a escolha do candidato a vice-presidente. Na ausência do presidente Lula em giro pelo mundo, faturando a escolha do Rio para sede da Olimpíada de 1016, dona Dilma caprichou no vestuário e na peruca prestes a ser defenestrada e compareceu a uma reunião, em Brasília, com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, e do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT- SP) para consolidar a aliança com os pedetistas, que qualificou como fundamental para a estabilidade do governo e a campanha. No jantar oferecido aos pedetistas na residência da chefe da Casa Civil, a ministra Dilma sustentou que o governo terá apenas um candidato. E gabou o governo pelo êxito administrativo que mudou o Brasil. Como se constata, conversa de candidata e ênfase de quem manda e quer ser obedecida.

A desenvoltura com que a ministra colocou as coisas nos seus lugares foi como um esguicho de água gelada na jogada do deputado Ciro Gomes (PSB), que trocou seu domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo, por pressão do presidente Lula e como peça de uma jogada estratégica com ele combinada. E na contramão da ministra Dilma foi positivo: “Só estou executando o que combinei com o presidente. Reafirmo que sou candidato à Presidência da República”. No mesmo dia, a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, foi de uma aspereza que raspa na grosseria no veto ao apoio da candidatura de Ciro Gomes: “A candidatura do aliado do PSB não tem nada a ver com São Paulo”. São palavras que o vento leva com a chegada de Lula e alguns dias de permanência em Brasília. Poucos, que o presidente não quer se desgastar com as futricas dos ansiosos.

Enquanto a oposição não definir a sua chapa com a escolha do vice do governador paulista, tucano José Serra, a pré-campanha continuará a desafiar o calendário fixado pela Constituição, apelando para o pretexto de que Lula e a ministra Dilma viajam para acompanhar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Minha Casa Minha Vida, que promete construir 1 milhão de residências populares, e agora, além da arrancada pisando no acelerador para o início das obras para os Jogos Olímpicos de 2016, as emergências aflitivas para o socorro aos milhares de desabrigados pelas enchentes no Norte e no Nordeste e da seca em outras áreas imensas. E mais as enchentes e a seca no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

A crise ética da roubalheira no Senado e o repeteco na Câmara sumiram em meio à poeirada.

sábado, outubro 03, 2009

A Olimpíada-2016 e os votos de 2010 Villas-Bôas Corrêa

JORNAL DO BRASIL

A explosão de júbilo nacional – da Amazônia devastada ao Nordeste castigado pela ironia das enchentes e ao Sul clamando pelo socorro das vítimas das enchentes que derrubam casas, deixando milhares de famílias no desespero de não saber por onde recomeçar depois de enterrar os mortos, que tudo perderam até o gosto de viver – com o anúncio, às 13h51, da distante Copenhague, da escolha do Rio, com o feitiço da Cidade Maravilhosa e as manchas das favelas miseráveis, antro de gangues que assaltam, roubam, matam e exploram a venda de drogas, para sede dos Jogos Olímpicos de 2016 alerta não apenas para a evidência do desafio e da sua importância, que vai muito além do ouro das medalhas dos campeões.

O presidente Lula apostou todas as fichas, expôs a sua liderança ao risco de uma derrota e agora carrega a carga de abrir mais uma gigantesca frente de obras, que envolve governadores e prefeitos ao custo de alguns trilhões. E, no pêndulo das cobranças, a inevitável mistura de acertos e erros, na arrancada que enlouqueceu uma população que se irmana no orgulho de uma vitória que desperta a inveja do mundo.

É fácil celebrá-la e elogiar os vitoriosos. Com a imparcialidade de 60 anos de ininterrupto exercício do jornalismo político, que só assim pode ser respeitado, muito tenho criticado o atual governo nos seus notórios pecados. E pelo quinhão da sua responsabilidade pela crise moral que infecciona o pior Congresso desde a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Agora, acertou em todos os lances, alguns de ousado risco. O primoroso discurso que o presidente leu, com a ênfase de fazer inveja ao William Bonner, revelou a sua aplicação para brilhar para uma plateia que reunia as principais lideranças do mundo, não apenas nos esportes mas na política. Lula leu como se improvisasse, com voz firme e no tom exato, sem um erro e excelente jogo cênico nas voltas para todos os ângulos do auditório.

E agora? A dosagem da urgência, com as brechas para as imprevisíveis dificuldades, é da responsabilidade do presidente e do seu mastodôntico ministério, com as mudanças para substituir os que disputarão mandatos. Até 31 de dezembro de 2010, Lula é o responsável por mais da metade das obras para os Jogos Olímpicos de 2016, com o sucessor no segundo mandato da reeleição. Na berlinda, a candidata oficial, ministra Dilma Rousseff, colherá parte dos ganhos com o surto de euforia do país. E que a oposição terá de engolir sem fazer careta, forçando o riso tão espontâneo como esmola de sovina.

A Olimpíada será assunto nos cadernos esportivos, nos debates pelas redes de TV até o seu encerramento, em 2016. Desde o andamento das obras, seguindo os organogramas de cada uma. E para os jornalistas esportivos é um presente de rei. O treinamento dos atletas candidatos a uma vaga na representação brasileira será acompanhado por especialistas em cada uma das modalidades.

Para a campanha que começa com as convenções partidárias, em junho do próximo ano, os acordos e alianças são mais importantes que os Jogos Olímpicos de seis anos depois. Mas a estrutura publicitária do governo é a maior, a mais cara e a mais competente dos últimos anos.

Como a oposição não disse ao que veio, não definiu a sua chapa e atravessa uma fase caipora com a sucessão de derrotas nos confrontos no Congresso, a cada euforia do governo corresponde um amuo dos tucanos e do DEM.

O presidente passa a impressão que descobriu o segredo de Midas e transforma em ouro tudo que toca. Por mais algumas semanas, a vitória em Copenhague, a esperta brincadeira Nós podemos, plágio do We can do presidente Barack Obama, sustenta o sucesso olímpico.

E depois? Várias e imensas frentes de obras: do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Minha Casa Minha Vida, para a construção de 1 milhão de residências populares e, a cada dia, o apelo de ministros, governadores, prefeitos para o corre-corre da construção e reforma de estádios, vilas olímpicas, pistas para as provas de atletismo, prédios para o alojamento de dirigentes e atletas e todo uma conta de trilhões que se evaporam como a poça d’água em dias de calor.

sábado, setembro 26, 2009

As etapas da sucessão Villas-Bôas Corrêa

JORNAL DO BRASIL

Com a ausência do presidente Lula, entregue aos muitos compromissos de líder internacional e patrono de Honduras, a crise do escândalo do Congresso avança nos cofres da Viúva em estripulias como a decisão da Mesa Diretora do Senado que, com o descaro de legislar em causa própria, autorizou os seus ilustres e endinheirados membros e os 11 líderes partidários a designar três funcionários comissionados para os respectivos escritórios políticos, em suas bases eleitorais. Cada um, enriquecido com dois assessores técnicos de coisa nenhuma, com salários de R$ 9.900 e um secretário legislativo, com R$ 7.600 mensais para trabalhar na campanha, atendendo eleitores, cavando votos com a gana de quem também cuida dos próprios interesses, pois eleito o chefe terão a mamata garantida, com os reajustes da gratidão.

O miniescândalo foi justificado pela Mesa Diretora com a alegação de que todos os líderes partidários, sem exceção, haviam solicitado o pequeno obséquio para facilitar a reeleição de senadores, inclusive dos senadores de garupa, que nunca viram a cor de um voto e agora terão que correr atrás dos eleitores. E numa temporada em que a ousadia pode custar uma chuva de pedras.

Nem todos os líderes ficaram mudos. Poucos protestaram, alegando que não foram consultados nem concordam com uma decisão que não tem amparo legal. O senador José Agripino (RN), líder do DEM, estrilou: “Não fui consultado e não concordo”.

Um tom abaixo, o senador Aloizio Mercadante (SP), líder do PT, alegou que não foi consultado sobre o assunto.

E, para fechar a ciranda, cirandinha, o líder do PSB, senador Renato Casagrande (ES), ficou entre a malícia e a ingenuidade: “Acho que esse é um assunto que pode parecer que estamos dando passos atrás”. Acha, senador? O que preciso é para que acredite? Mas, vá lá. A campanha ainda não começou para valer, embora as preliminares sejam decisivas para a montagem das chapas, as alianças partidárias e as amiudadas pesquisas que sinalizam as tendências do eleitorado.

Junho é o mês das convenções. A propaganda eleitoral nas emissoras de rádio e nas redes de TV começa em 15 de agosto. E mais a intensa participação da internet. É quando a campanha incendeia até as eleições, em 3 de outubro.

E esta é uma campanha que reserva surpresas, pois nada está decidido. A referência para a especulação é o presidente Lula, que seria o favorito absoluto no caso do terceiro mandato que morreu na praia, com a sua coerente recusa. E daí em seguinte, com os muitos escândalos em que se enroscou como arame farpado enferrujado em esteio de cerca – do caixa 2 com dinheiro escuso para financiar a campanha de candidatos do partido ao mensalão - o Partido dos Trabalhadores perdeu pontos no respeito do presidente. Na hora de escolher candidato, o PT nem tinha um favorito destacado, e a lista dos possíveis era francamente decepcionante.

Lula foi para o tudo ou nada escolhendo, à revelia do PT, a ministra Dilma Rousseff, chefe do Gabinete Civil e com escassa experiência política. E a ministra caminha em sinuosa linha de contradições que, se adivinhadas por Lula, não correria o risco que ainda causa a apreensão do câncer linfático. Submetida com rigor espartano à quimioterapia, com a série de sessões que a obrigavam a viagens quinzenais a São Paulo, dona Dilma pode comemorar a cura com 90% de êxito absoluto e os 10% da cautela dos especialistas.

Mas a candidata e o seu patrono têm cometido erros primários e evitáveis, com a mistificação das viagens pelo país a pretexto de acompanhar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o apêndice do Minha Casa Minha Vida, com a promessa da construção de 1 milhão de moradias populares sem data para a inauguração da milionésima residência. Mas são duas poderosas alavancas de voto, ajudadas pelo Bolsa Escola, o Bolsa Família, o Bolsa Educação e outros programas que atendem às urgentes necessidades fundamentais da imensa mancha da extrema pobreza em todo o país, das favelas nas grandes cidades aos barracos pendurados nos morros do interior.

Não teremos que esperar muito. A campanha para valer não demora a separar o joio dos aventureiros do trigo que o diabo não amassou.

quinta-feira, setembro 17, 2009

villas-Bôas Corrêa -A reforma da caiação do escândalo

JORNAL DO BRASIL

Os senadores eleitos e os senadores de garupa, que nunca viram a cor de um voto, conseguiram concluir a votação da reforma eleitoral, uma promessa de todas as campanhas, mas que sempre morre na praia como afogado de curto fôlego, com a única novidade da derrubada da censura na internet na cobertura da campanha – uma bobagem que deveria sufocar de vergonha os seus autores – e manteve a doação oculta a partidos e candidatos, que sempre foi contornada com os truques de aceitação consensual.

O remendo terá que passar pela Câmara até o fim do mês para vigorar nas eleições do próximo ano e deve ser aprovado sem emendas. Resta à Câmara a responsabilidade disciplinar a exigência do convite a 2/3 dos candidatos dos partidos com no mínimo 10 deputados.

O Congresso não pode desperdiçar mais esta oportunidade de pedir desculpas ao distinto público do despudor do escândalo da roubalheira no Senado com qualquer condescendência com a censura.

É de surpreendente bom senso o acordo, aprovado pelo Senado depois de longos debates, que regulamenta a substituição de governadores e prefeitos no caso de cassação dos titulares, determinando nova eleição direta em qualquer momento da vacância. De eleitos sem votos estamos saturados. Não bastassem os quase 21 anos da ditadura militar dos cinco generais-presidentes quando todo o repertório de falcatruas e de desprezo pelo voto popular foi esgotado em patuscas invencionices como os senadores biônicos, eleitos pelas assembleias legislativas, presidentes eleitos pelos comandos militares e impostos ao Congresso, devidamente advertido pelas cassações de mandatos para acertar a conta dos confiáveis.

Mas nem tudo está decidido. O relator da reforma na Câmara, deputado Flávio Dino (PCdoB-MA), avisa que o entendimento na outra Casa do Congresso é que “a regulamentação sobre isso depende de mudança constitucional”. E que a Câmara de corrigir o engano do Senado.

Com mais ou menos emendas de tão tímida expressão, a reforma fica adiada para o Dia de São Nunca. Pois a crise do Congresso é ética, é moral, como o escândalo do Senado expôs com as mais escabrosas evidências. O nó que tem quer ser cortado, pelo visto na próxima crise ou na recaída de nova ditadura militar. O que a opinião pública não pode aceitar é a continuação cínica da farsa das mordomias, das vantagens e dos privilégios, gerados e multiplicados desde a mudança da capital do Rio para Brasília inacabada, em obras, em 21 de abril de 1960. Nada justifica que senadores e deputados, com apartamentos funcionais mobiliados à disposição, sejam mimados com passagens aéreas semanais, pagas pela Viúva, para o fim de semana de quatro dias úteis nas suas bases eleitorais. E a longa lista de mutretas de fazer inveja a um marajá, como a verba de gabinete para contratar assessores sem concurso, a verba para jornais, para compra de selos, os dois celulares com as contas pagas.

A mamata é tão sedutora que carimba com a veracidade a nota da coluna do Ancelmo Gois, em O Globo. Animado com o sucesso do comício em Boa Vista, capital de Roraima, quando escapou da vaia dos fazendeiros e foi ovacionado por 15 mil pessoas favoráveis à solução à partilha de terras com os índios, o presidente Lula, de volta nas asas do Aerolula, fez um agrado a sua candidata, ministra Dilma Rousseff, prometendo tirar três meses de licença para correr o país fazendo comícios e garantir a sua eleição. E a inesperada revelação que “daqui a dois anos vou me candidatar a vereador por São Paulo”.

Brincadeira ou para valer, o mandato de vereador que deveria ser gratuito, um serviço à comunidade, chega a despertar a cobiça de um presidente da República ao fim de dois mandatos.

sábado, setembro 12, 2009

Villas-Bôas Corrêa Lula corre em círculo sem sair do lugar

JORNAL DO BRASIL

O presidente Lula necessita consultar um pai de santo da sua confiança ou uma cartomante que leia o futuro nas cartas encardidas do seu baralho. Alguma praga de petista insatisfeito com a marginalização do partido que não dá um pio sobre os entendimentos políticos no Congresso ou ainda não engoliu o caroço da escolha da ministra Dilma Rousseff para candidata à sua sucessão, quando o partido foi o último a saber, está embaraçando seu esquema político,

Neste setembro que não deixará saudades, repetiu-se a tragédia que em novembro do ano passado maltratou os estados sulinos com uma devastação que deixou milhares de famílias desabrigadas e perderam tudo, absolutamente tudo, salvando a vida e a roupa do corpo; destruiu pontes, estradas descuidadas, que ficaram intransitáveis, e mobilizou o país numa corrente de solidariedade que lotou aviões com a doação de roupas, remédios, água potável, cobertores, lençóis, comida enlatada.

A lenta recuperação burocrática mal terminava os seus remendos, quando a tragédia se repete no bis do caiporismo da ventania das tempestades, que voltam a castigar Santa Catarina e áreas do Rio Grande do Sul, do Paraná e de São Paulo. Como as secas nordestinas, as tempestades de fim de ano já podem ser consideradas como um fenômeno sazonal, a ser previsto com antecedência para a programação do socorro de urgência, que poupa vida e atenua a sensação de desamparo da população.

O presidente Lula, com a ministra Dilma, devem percorrer as áreas mais castigadas, para levar às vítimas a solidariedade do governo e o compromisso de socorro, que é o dever do homem público.

Em Santa Catarina, o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) decretou estado de calamidade pública em 64 municípios mais atingidos pelos três tornados e temporais na noite de segunda-feira.

Quando o azar chega em duplicata, os santos devem ser invocados. O presidente Lula desabou da euforia com a compra, sem consulta à FAB, dos 36 aviões de caça Rafale, no amistoso bate-papo com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em sua visita ao Brasil, com a reação dos Estados Unidos, que alegam estar a Embraer em negociações sigilosas para vender aviões às Forças Armadas Americanas. Insiste a embaixada americana que a Boeing fará nova oferta para a venda dos caças.

Embaraçado nos fios da precipitação, Lula apelou para a ironia, com jeito de deboche: “Daqui a pouco vou receber os caças de graça”.

O ministro das Forças Armadas, Nelson Jobim, que adora falar em nome do governo, avisa ao mundo que “este assunto será encerrado até o fim do ano”. Em faixa própria, cuidando dos seus interesses eleitorais, os deputados aprovaram o reajuste salarial de 8,88% para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Não é nada, não é nada, são vencimentos de R$ 26.723,13 até fevereiro, data para o novo reajuste, A toga cuida do conforto da família, completado pela penca de mordomias: mansões, carros de luxo e muitos penduricalhos.

Para acertar com a Câmara a tramitação dos quatro projetos de lei que tratam da exploração da camada pré-sal, Lula retirou o pedido de urgência. Um bom acordo que interessa aos dois lados.
Mas, nos tempos das vacas gordas, Lula não negociava com o Congresso da roubalheira do Senado: dava ordens à sua maioria, muito bem lubrificada com ministérios, autarquias, mordomias, vantagens e demais agrados sonantes.

Mas são os tropeços da rotina, mais ou menos severos. E a óbvia prioridade obsessiva de Lula é a sua sucessão, com a eleição da ministra Dilma Rousseff, candidata da sua exclusiva escolha. Dois imprevistos embaçam a nitidez do seu esquema. O primeiro, o câncer linfático, tratado com sessões de quimioterapia, já concluído com sucesso e a garantia de 90% de cura e os 10% da cautela dos médicos. Dona Dilma tirou alguns dias de férias para retomar a campanha, acompanhando o presidente nas visita às obras do PAC e da construção do milhão de residências do Minha Casa Minha Vida.

E a ex-ministra do Meio Ambiente, senadora Marina Silva (AC), fundadora do PT, que se desligou do partido para ingressar no Partido Verde, com a candidatura lançada à Presidência da República, é ainda uma incógnita a ser decifrada pelas próximas pesquisas das tendências de voto.

sábado, setembro 05, 2009

VILLas-Bôas Corrêa - A campanha e a rotina engolem a crise

JORNAL DO BRASIL

De repente, a crise da roubalheira do Senado foi sendo rebaixada das manchetes e da primeira página dos jornais, das capas de revistas e dos destaques dos noticiários das emissoras de televisão, com a promoção da campanha eleitoral e do bate-boca sobre o pré-sal.

Não é apenas o cansaço e o tédio enojado sobre as trapaças escondidas pelos atos secretos, a conivência e a audácia de diretores qualificados, cúmplices e autores de mágicas com o dinheiro da Viúva que desaparecia sem deixar rastro, com o desvio de milhões. Mas a dupla evidência que entrava pelas butucas até dos mais sonsos, que a desmoralização do Congresso – a níveis só igualados nos 21 anos da ditadura militar, com o rodízio dos cinco generais-presidentes, que manteve o Legislativo aberto mas sob a tutela da censura à imprensa, dos atos institucionais, das cassações de mais de uma centena de mandatos, dos senadores biônicos, da prática da tortura nas câmaras de suplício dos Doi-Codis, das prisões arbitrárias, da bomba do Riocentro – desembocaria num colapso da democracia, que não se sabe aonde iria parar. Os parlamentares afinal caíram em si. E, em poucos dias, trocaram o enredo da trama para a comédia que nos diverte e irrita.

Um a um, os caroços estão sendo desmanchados na máquina de moer das conversas entre adversários, que restabelecem as boas normas da convivência, esquecidas em episódios burlescos como a cena protagonizada por Eduardo Suplicy (PT-SP) a sacudir da tribuna do Senado, com as veias do pescoço intumescidas, o cartão vermelho para a expulsão de campo do presidente José Sarney, no arremedo do juiz de futebol que manda para o vestiário o jogador que comete falta desqualificante.

A coitada da reforma eleitoral, que levada a sério seria fundamental para passar o Congresso a limpo, foi esquecida durante meses e ressuscita na correria para a aprovação do disfarce de meia dúzia de remendos. Ora, para valer nas eleições de 3 de outubro de 2010, precisa ser aprovada até o dia 30 deste mês de setembro e sancionada pelo presidente Lula até 3 de outubro. Um dos relatores no Senado, Eduardo Azeredo (PSDB-MG) começou a negociar com a Câmara as alterações no parecer de sua autoria que deve ser aprovado pelo plenário do Senado na próxima terça-feira. Uma das alterações que tem a aprovação garantida é a extinção do artigo que proíbe aos sites veicular propaganda política ou difundir opiniões favoráveis ou contrárias aos candidatos e partidos.

Mas as negociações não avançaram além da manifesta boa vontade no acerto dos poucos temas polêmicos, como a proibição de comentários sobre candidatos, consideradas como uma forma de censura. O Congresso ainda não fez as pazes com a democracia. Mas avançou alguns passos. Desanuviado o ambiente, a ministra-candidata Dilma Rousseff voltou à campanha em grande estilo. Vestida com apuro, a peruca caindo do lado direito até a sobrancelha, Dilma concedeu uma entrevista à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, e exibiu otimismo e bom humor. Não era para menos: afirmou que está curada do linfoma, o câncer nos gânglios linfáticos na axila esquerda, diagnosticado a tempo e tratado com radioterapia.

Com a impaciência do presidente Lula, sem prejuízo das suas viagens internacionais, a pré-campanha deve recomeçar nos próximos dias, maquiada pela desculpa da visita às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e as inaugurações dos primeiros blocos de apartamentos e casas residenciais do programa Minha Casa Minha Vida. Dilma não deu importância ao lançamento da candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente, senadora Marina Silva, que se desligou do PT e ingressou no Partido Verde. A campanha, depois da largada do presidente Lula e da ministra Dilma, deu as costas para a crise e começa a descontar o tempo perdido. O governador de Minas, Aécio Neves, anunciou que vai se licenciar em novembro, por 15 ou 20 dias, do cargo, para uma agenda intensa de viagens no Nordeste e contatos com governadores do Norte. Até dezembro espera que as pesquisas confirmem poder disputar com o governador José Serra, de São Paulo, a indicação como candidato, que se apresenta em condições de conseguir o apoio, além do PSDB, de partidos da base aliada, como PP, PSB, PDT, PTB e outras legendas.

Ninguém segura a campanha. O que não se sabe é se ela conseguirá degelar a indiferença de grande parte do eleitorado, que promete ir à forra com o voto em branco. Até lá, o eleitor pode mudar de ideia.

sábado, junho 13, 2009

villas-Bôas Corrêa - O escândalo que saiu do baú


Quando a temporada de escândalos do pior Congresso de todos os tempos parecia ter esgotado o repertório para a pré-campanha eleitoral, que começa a esquentar no primeiro trimestre do próximo ano, eis que surge do fundo do baú dos segredos da cumplicidade o que parece disputar o recorde do maior do período do mandato e meio da reeleição do presidente Lula.

A esta altura, a encruada CPI da Petrobras ou a esquálida CPI das ONGs foram rebaixadas das manchetes para os destaques das páginas internas. E desta vez cabe ao Senado o lugar no alto do pódio. Ele não compartilha com a Câmara dos Deputados, apesar das muitas leviandades e trampas do seu repertório, a descoberta que a Mesa do Senado vinha guardando a sete chaves, à espera da melhor hora de divulgar o seu feito histórico.

Vamos aos fatos, antes de mais delongas. A atenta e severa Mesa Diretora do Senado foi informada, com o suporte de dados preliminares, da descoberta de mais de 500 atos secretos, que nunca foram publicados no Boletim Administrativo, como é da rotineira exigência da lei, que distribuem, com a generosidade dos que lidam com o dinheiro da explorada Viúva, favores em cascata para senadores e a sua enorme parentela dos afins, além do cupinchas, cabos eleitorais e amigos do peito e do bolso, de nomeações aos privilégios que podem render mais do que o salário.

Alguns senadores com o queixo enterrado no pescoço mexem-se para a apuração rigorosa do tamanho da trapaça, uma vez que o seu principal responsável é de fácil identificação: o ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia, genial inventor da fraude dos atos secretos, utilizados pelos ex-presidentes nos últimos dez anos.

E na forma do costume a apuração deslizou como água de córrego, sem bulha, na maior moita. Quando começou a varredura, o otimismo da Mesa do Senado foi alimentado pela avaliação da comissão instalada para investigar os atos secretos, em cerca de 300.

De 300 para 500 é menos que o dobro, uma mixaria. Mas não há como manter o sigilo depois do estouro do traque. E o relatório, final que deveria ser apresentado hoje, ficou adiado para a próxima semana, tempo para recuperar o fôlego. O azar nunca anda sozinho. O Ministério Público vai pedir ao Tribunal de Contas da União (TCU) a anulação dos atos secretos e a devolução do dinheiro que os ex-felizardos embolsaram e, por certo, gastaram com a imprevidente com que se costuma dissipar o que não custou o suor e o esforço do bestunto.

Até aqui, a corriola dos senadores vinha tentando abafar o estrondo da denúncia, com o pinga-pinga da liberação das apurações nas últimas páginas do Boletim Administrativo.

Não será tarefa para amadores encolher escândalo que se alinha entre os recordistas, com o tom de criatividade e ineditismo, da nomeação secreta de meio milhar de parentes, amigos, cupinchas, crias da casa, além de cargos de agentes secretos, aumentar salários ou a mais simples criação de horas extras sem limite.

Afinal, a longa permanência do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia, e a sua prosperidade de milionário pródigo, tem a sua explicação exposta à luz dos números na apuração da comissão criada para apurar o milagre. Até prova em contrário, senadores de todos os partidos, do governo e da oposição fartaram-se nos banquetes do ex-diretor-geral. Nada impedirá que contamine a campanha eleitoral e seja um dos destaques da rede nacional de TV e na de rádio para a propaganda eleitoral gratuita.

O líder do DEM, senador José Agripino Maia, antecipou-se na cobrança pública de punições e "com a devolução dos recursos aos cofres públicos". Não é tudo. O freio de mão da cautela aconselha prudência antes de conhecidos os beneficiários com a sangria secreta. Pois, o escândalo tem todo o jeito de ser superpartidário.

Mais afoito, o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), adiantou que vai pedir a demissão do ex-diretor do Senado Agaciel Maia, por improbidade administrativa. Com a agravante de ter mentido quando questionado por senadores: "Perguntei ao Agaciel se havia atos secretos nesta Casa, ele respondeu que não. Já pedi as notas taquigráficas para entrar com um processo administrativo por ele ter mentido aos senadores".

Se não perder o embalo, este será o escândalo do ano.

sábado, fevereiro 28, 2009

Clima de mudança Paul Krugman

JORNAL DO BRASIL

Eleições têm consequências. O novo orçamento do presidente Obama representa enorme ruptura, não apenas com as políticas dos últimos oito anos, mas com as tendências políticas dos últimos 30 anos. Se ele pode conseguir qualquer coisa como o plano anunciado na quinta-feira no Congresso, vai pôr os EUA em um novo caminho.

O orçamento vai, entre outras coisas, vir como um grande alívio para os democratas que estavam começando a se sentir um pouco deprimidos. A lei de estímulo que passou no Congresso pode ter sido muito fraca e concentrada em reduções de impostos.

A recusa do governo em ser duro com os bancos pode ser profundamente decepcionante, mas temores de que Obama sacrificaria prioridades progressivas em seus planos orçamentários e se satisfaria ao lidar com o sistema fiscal foram banidas agora.

Para isso, o orçamento aloca US$ 634 bilhões na próxima década para reforma da saúde. Não é suficiente pagar cobertura universal, mas é um começo impressionante. E Obama planeja pagar pela reforma da saúde, não apenas com impostos maiores para os mais ricos, mas dando um basta na terrível privatização da Medicare, eliminando excesso de pagamentos para empresas de seguro.

Em outra frente, também é animador ver que o orçamento prevê US$ 645 bilhões em receitas a partir da venda de permissões de emissões. Depois de anos de negação e adiamentos por seu antecessor, o governo Obama mostra que está pronto para assumir mudanças climáticas.

E essas novas prioridades estão num documento cuja clareza e plausibilidade parecem quase incríveis para aqueles de nós que crescem acostumados a ler orçamentos da era Bush, que insultavam nossa inteligência em cada página. Esse é o tipo de orçamento em que podemos acreditar.

Muitos vão perguntar se Obama pode, na verdade, conseguir reduzir o déficit como promete. Ele conseguirá reduzir o déficit de US$ 1,75 trilhões este ano para menos de um terço em 2013? Sim, ele pode.

Agora, o déficit é enorme graças a fatores temporários (pelo menos esperamos que sejam temporários): uma desaceleração econômica violenta está reduzindo as receitas e grandes quantias precisam ser alocadas tanto para estímulo fiscal quanto para socorros financeiros.

Mas se e quando a crise passar, o panorama do orçamento deve melhorar bastante. Não esqueça que de 2005 a 2007, ou seja, nos três anos antes da crise, o déficit federal ficou, em média, US$ 243 bilhões por ano. Durante esses anos, as receitas foram infladas, até certo ponto, pela bolha imobiliária. Mas também é verdade que estávamos gastando mais de US$ 100 bilhões por ano no Iraque.

Então, se Obama sair do Iraque (sem nos atolar num pântano afegão igualmente caro) e conseguir uma recuperação econômica sólida, baixar o déficit para cerca de US$ 500 bilhões até 2013 não deve ser tão difícil. Mas o déficit não vai aumentar com os juros sobre a dívida nos próximos anos? Não tanto quanto você deve achar. Taxas de juros sobre dívida do governo de longo prazo são menos de 4%, então até um trilhão de dólares de dívida adicional acrescenta menos de US$ 40 bilhões por ano para futuros déficits. E esses gastos com juros estão totalmente refletidos nos documentos do orçamento.

Então, temos boas prioridades e projeções plausíveis. Do que não dá para gostar nesse orçamento? Basicamente, o cenário em longo prazo continua preocupante. De acordo com as projeções orçamentárias do governo Obama, a proporção da dívida federal em relação ao PIB, medida amplamente usada para indicar a posição financeira do governo, vai subir nos próximos anos, depois mais ou menos estabilizar.

Mas essa estabilidade será alcançada numa proporção de dívida em relação ao PIB de cerca de 60%. Isso não seria um nível de endividamento extremamente alto para padrões internacionais, mas seria o maior que os EUA vivenciaram desde os anos imediatamente posteriores à segunda guerra mundial.

E nos deixaria com espaço bastante reduzido para manobra se outra crise vier. Além disso, o orçamento de Obama nos fala dos próximos 10 anos. É um avanço em relação aos orçamentos da era Bush, que faziam projeções apenas para cinco anos à frente. Mas os problemas fiscais realmente grandes se escondem além do horizonte orçamentário: mais cedo ou mais tarde teremos de conter as forças que aumentem os gastos em longo prazo – acima de tudo, o custo muito alto da saúde.

E mesmo que a reforma do sistema de saúde fundamental controle os gastos, eu, pelo menos, acho difícil ver como o governo federal pode atender as obrigações de longo prazo sem aumentos de alguns impostos na classe média. Seja lá o que os políticos digam agora, há provavelmente impostos maiores no futuro.

Mas não culpo Obama por deixar algumas grandes perguntas sem respostas nesse orçamento. Ele está fazendo o que pode por enquanto. E esse orçamento parece muito bom.

domingo, fevereiro 01, 2009

Augusto Nunes Sete Dias



O Ministro assassina a verdade

Se não padecesse de prolixidade incurável, se não sofresse de admiração aguda por si próprio, se não contemplasse a catarata de idéias que despenca da cabeça do pensador Tarso Genro com o deslumbramento de turista na primeira vez em Foz do Iguaçu, o ministro da Justiça poderia ter livrado da cadeia o assassino de estimação sem reforçar a suspeita de que o Brasil não é um país sério. Mas quem o conhece sabe que Tarso derrapa na tentação de defender alguma tese até em festa de batizado.

Se não lhe faltasse a sensatez que sempre deveria sobrar a um ministro da Justiça, o magistrado acidental teria comprimido em cinco ou seis linhas a sentença que absolveu Cesare Battisti de todos os pecados. Era só alegar que a legislação brasileira é meio confusa, tanto que manda promover a refugiado político um terrorista condenado à prisão perpétua na Itália, mas nem por isso a nação amiga deve sentir-se injuriada, coisas assim. Encerrada a concisa exposição de motivos, Tarso Genro capricharia na pose de constrangido, sairia à francesa e ficaria alguns dias na muda.

Em vez disso, o ministro resolveu redimir-se do fiasco da refundação do PT com um parecer que refundaria, além do caso Battisti, a história recente da Itália. Acabou produzindo um samba do crioulo doido de deixar pálido de espanto o mais delirante compositor da Sapucaí. Bandidos viraram mocinhos, heróis viraram vilões. E a democracia suficientemente musculosa para erradicar a praga do terrorismo sem recorrer a qualquer medida de exceção transformou-se numa tirania dissimulada, "que usou leis que reduziram as prerrogativas da defesa para coibir organizações revolucionárias". Para libertar o companheiro, Tarso matou a verdade e humilhou a Itália.

O que o ministro qualifica de "guerra civil" foi o duelo que opôs a governos eleitos pelo povo grupos de liberticidas tão despovoados quanto ferozes, decididos a implantar a ditadura comunista. Tarso rebaixou a perseguidores perversos autoridades que defenderam o estado de direito sem quaisquer concessões ao autoritarismo.

Se representavam efetivamente a vontade do povo, as "organizações revolucionárias" poderiam liquidar a tirania com uma única disputa eleitoral. Ou porque não tinham votos para eleger um síndico, ou por acharem pouco heróica a luta nas urnas, os patriotas de Tarso resolveram, em 1975, que seria mais emocionante chegar ao poder pela trilha da violência. E então começaram os assaltos, atentados, seqüestros e assassinatos. Os terroristas capitularam na década seguinte. A procissão de horrores se estendeu até o fim do século, prolongada pelo primitivismo brutal dos mafiosos.

Os jovens generais da guerra sem sentido revogaram os limites da fúria. A nação ainda convalesce da perplexidade dolorosa provocada pela explosão da estação ferroviária de Bolonha, pela execução do primeiro-ministro Aldo Moro, pelo assassinato do general Carlo Alberto Dalla Chiesa, pelo extermínio de juízes engajados na Operação Mãos Limpas. Para Tarso, nada disso é importante. Guerras são assim mesmo. E nenhuma é mais justa que a guerra pelo socialismo.

- Companheiros de luta e de cama

Os companheiros que festejam a iminente libertação de Cesare Battisti ficam grávidos de ira quando alguém apresenta como assassino e terrorista o veterano de guerra que merece ser qualificado de ex-guerrilheiro e escritor de primeira. Engajado no grupo Proletários Armados pelo Comunismo, Battisti não fez nada que justificasse medalhas ou condecorações por demonstrações de bravura em combate. Matou dois contra-revolucionários, ajudou a liquidar outros dois inimigos burgueses e assaltou uma dúzia de estabelecimentos comerciais. O autor do livro de memórias já lançado no Brasil, com o título Minha fuga sem fim, está à espera de apreciações insuspeitas. Segue-se um trecho que envolve o homem que o delatou:

"Depois de certo tempo, eu e Pietro Mutti passamos a partilhar as noitadas no bar, mas às vezes a mesma cama e a mesma garota. (...) O vinho abolia as minhas reticências e a cama era suficientemente grande para três. Ela era a mulher dele, estavam casados havia dois anos. (...) Cheguei a me perguntar se devia admirá-lo ou me sentir culpado. Um pensamento apenas, que não impediu de fazer amor com a mulher dele na presença dele. Claro, sua absoluta falta de ciúmes não deixava de me intrigar".

Pela aspereza com que tem tratado Pietro Mutti, o ministro Tarso Genro e o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh ou não leram o livro ou acham melhor fingir desconhecê-lo. Os dois estão muito mais bravos com Mutti do que o ex-companheiro de lutas e madrugadas.

Rudá provou que o país tem jeito


O Brasil soube pela TV da morte de John Updike. No dia seguinte, os jornais contaram em extensas reportagens como foi a vida e a obra do escritor americano. Faz sentido. O que não faz é o tratamento dispensado à morte de Rudá de Andrade pela TV, que nem a noticiou, e pelos jornais, que a confinaram em espaços diminutos. O país merecia saber que não havia perdido apenas o filho de Pagu e Oswald de Andrade. Perdeu também um dos fundadores da Cinemateca, da escola de cinema da USP e do Museu da Imagem e do Som. Perdeu o criador da primeira oficina cultural do Estado de São Paulo. Quem conheceu Rudá tem o dever de acreditar que o Brasil tem jeito.

Assim é a vida que se pede a Deus


Castigado com a nomeação para o posto de adido da Abin em Portugal, o delegado Paulo Lacerda não tem motivos para morrer de saudade do Brasil. Ganha um dinheirão em dólares para descansar na embaixada em Lisboa. Dessa vida que todo mundo pede a Deus desfrutam, espalhados por 32 países, mais dois adidos da Abin, 63 adidos militares, sete adidos policiais e três adidos tributários e aduaneiros. O governo acha pouco. Até o começo de 2010, serão 101 os que foram dispensados da escala no Instituto Rio Branco para pousarem em 34 países. Aguardam a chamada para o embarque outros 17 adidos policiais e nove adidos agrícolas – cargo inventado a quatro mãos, em maio de 2008, pelo presidente Lula e pelo ministro Reynhold Stephanes.

Os salários mensais vão de US$ 9 mil a US$ 17 mil (ou de R$ 19.800 a R$ 37.400, se convertidos em moeda nacional). Com o aumento da tribo, a folha de pagamentos engolirá, a cada 30 dias, mais de R$ 2,2 milhões. Stephanes garante que o país sairá no lucro. "Os Estados Unidos têm adidos agrícolas há mais de 50 anos", exemplifica. O orçamento americano é infinitamente maior que o brasileiro há mais de 200. "Em Bruxelas, o adido acompanhará as negociações dos interesses bilaterais com os 27 países-membros da União Europeia", anima-se Stephanes. Os gastos com os adidos ficam por conta do ministério que os indicou. O Itamaraty só cuida do curso que ensina um monoglota a gaguejar em língua estrangeira.

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sábado, janeiro 31, 2009

Aula magna de Heráclio Salles Villas-Bôas Corrêa

JORNAL DO BRASIL

Revendo, a pedido da família, artigos do meu fraterno e saudoso amigo, o baiano de Santo Amaro da Purificação, Heráclio Assis de Salles, que devem compor o livro que está sendo montado com a dedicação dos seus filhos, mergulhei no texto impecável de um dos maiores repórteres e escritores da minha geração.

No artigo, com o título que aguça a curiosidade do leitor – História, dia a dia – de 11 de fevereiro de 1993, o autor esclarece que o tema gira sobre "a verificação de que, nos últimos 30 anos, a imprensa em geral, e não alguns profissionais isolados, perdeu competência para lidar com os fatos produzidos na esfera do Legislativo e também do Judiciário".

E entra firme no tema: "A verdade maior, entretanto, está em que a imprensa reflete as condições gerais de vida de uma sociedade de modo a se deixar, ela mesma, afetar pelas distorções e erros de toda a espécie. Do ponto de vista do que estamos tratando, que é a propriedade dos meios de expressão usados na transposição de fatos e temas institucionais, pode-se dizer em síntese: se a imprensa parece mal, deve-se antes buscar a causa que opera fora dos seus quadros".

E chegamos ao ponto que deve interessar especialmente aos repórteres políticos: "Em relação ao Congresso, por exemplo, a imprensa tratou sempre os temas a ele pertinente com propriedade irrepreensível, até a mudança para Brasília. Poucos foram os profissionais qualificados (pela frequentação ao plenário e às comissões) que se transferiram para o Planalto goiano. Além disso, lá, o Congresso passou, como instrumento de operação, a enfrentar condições adversas de funcionamento. E logo cairia no alvo das desconfianças e golpes de grupos autoritários, provocados pelo desequilíbrio pessoal de dois presidentes sucessivos, que acabaram abrindo o caminho às intervenções militares mutiladoras do quadro institucional.

Diante de um Legislativo que deixava de ser sujeito, para figurar como simples objeto no pensamento dominante, os jornais perderam a preocupação com os profissionais que iriam visitá-lo – e não mais freqüentá-lo – sem a qualificação exigida para a tarefa em outros tempos. Os erros se sucederam no noticiário e na avaliação crítica da importância do processo legislativo, esquecido em meio ao eclipse da vida política.

O aparelho refletidor passa a atuar, no caso, inevitavelmente, como gerador de luz falsa para iluminar uma imagem que já se construía com o propósito inconsciente de fazê-la repulsiva. Tanto é este o fenômeno que o mesmo se deu com o Judiciário, igualmente empurrado para a sombra dos regimes castrenses. Se os repórteres desconhecem o processo legislativo, igualmente não se informam, sequer sobre as espécies de processo que correm nas varas e tribunais. Pouquíssimos assimilaram a terminologia essencial, informando mal o leitor e confundindo o trabalho dos magistrados.

Tanto a causa do fenômeno era a indicada que a imprensa procurou rapidamente se aparelhar em Brasília – por iniciativa dos próprios repórteres, o que é expressivo – para tratar adequadamente os atos praticados na área econômica, também afetada pelas deficiências estruturais e de instalação física da nova capital".

Paro aqui a transcrição para algumas observações que considero pertinentes. O artigo de mestre é de fevereiro de 1993, lá se vão quase 16 anos. Do governo de Itamar Franco até os dois mandatos de Lula, passamos pelos oito anos dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Não quero cometer injustiça com colegas que fazem o que podem para cobrir um Congresso que não se dá ao respeito, que não tem rotina de trabalho na madraçaria da semana de três dias úteis e que perdeu os limites da compostura com a desfaçatez com que se premiam com a cascata de vantagens, benefícios, privilégios, dezenas de assessores até a inqualificável verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para ressarcir as despesas de suas excelências no fim de semana na base doméstica com passagens aéreas pagas pela Viúva.

A saudade do velho amigo não precisa ser invocada na pequena homenagem da transcrição de trechos de artigo que parece escrito ontem, neste espaço que ele ocupou durante anos.

domingo, janeiro 25, 2009

AUGUSTO NUNES SETE DIAS


O nocaute dos farsantes



Por que o silêncio que endossou a deportação dos pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, perguntam os que não se renderam ao cinismo, tirou para dançar esse berreiro que avaliza a promoção a "refugiado político" do terrorista em recesso Cesare Battisti? Por que não foram estendidas aos fugitivos da ditadura cubana as mãos que afagam o foragido da democracia italiana?, perguntam brasileiros honrados aos jornalistas que se tornaram cúmplices, por ação ou omissão, das duas abjeções consumadas pelo ministro Tarso Genro com o apoio explícito do presidente da República. Jornalistas que têm compromisso com a independência intelectual aprendem muito cedo que a misericórdia seletiva é um dos sintomas que identificam portadores de esquizofrenia conveniente. A disfunção se manifesta em 10 a cada 10 colunistas federais, mas nenhum se curva ao que é evidente. Preferem costurar fantasias e gaguejar desmentidos que só reafirmam uma lição antiga como o mundo: a esperteza, quando é muita, fica grande e come o dono. "De acordo com o noticiário da época", escreveu um integrante da tribo, os boxeadores que desertaram da delegação enviada por Cuba aos Jogos Pan-Americanos do Rio renunciaram espontaneamente à liberdade que os aguardava na Alemanha. Acharam melhor voltar ao marco zero da fuga "por naturais razões familiares". "Noticiário da época" deve ser o novo codinome de Tarso Genro, pai da versão que reduz dois passageiros do medo a marujos sem juízo nem rumo, enganados por empresários gananciosos, mas socorridos a tempo por policiais brasileiros e enfim resgatados da criancice pela saudade do lar abandonado alguns dias antes. Bonito, isso. E tão verossímil como uma cédula de três reais, tão consistente como um prédio de Sérgio Naya. A versão já nasceu grogue. Foi nocauteada pela segunda, e desta vez solitária e bem-sucedida, escapada de Erislandy Lara. Escaldado, percorreu a rota que evita a perigosa escala no Brasil e o risco da derrapagem em "naturais razões familiares". Enfim na Alemanha, durante a entrevista que não houve no Brasil por ordem dos carcereiros, Erislandy traduziu para língua de gente a expressão misteriosa. Enquanto permaneceram confinados na Polícia Federal, à espera do avião cedido a Fidel Castro pelo companheiro Hugo Chávez, os cubanos foram proibidos de conversar com jornalistas e advogados. Só não perderam completamente o contato com o mundo exterior porque pressurosos policiais apareciam a cada 15 minutos com notícias recém-chegadas de Cuba. Souberam, primeiro, que foram declarados "traidores" por Fidel, que alguns parentes já haviam perdido o emprego e que os amigos não paravam de ouvir ameaças por telefone. Mas em seguida souberam que seriam perdoados pelo ditador caso voltassem imediatamente. Confusos, assustados, embarcaram sem barulho. Já no aeroporto de Havana souberam que nunca mais voltariam a lutar. Todos haviam mentido. Só Fidel admite sem constrangimentos ter feito o que fez. Os outros continuam mentindo.



Temporão luta contra o rebaixamento

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, declarou guerra à Unicef no começo da semana, inconformado com a agressão oficializada pelo relatório Situação mundial da infância
2009. Divulgado anualmente, o
documento reúne informações, colhidas nos 12 meses anteriores, que mostram como andaram as coisas em 2007. Temporão exige a remontagem do ranking que mede as taxas de mortalidade infantil no universo das crianças com até 5 anos. O Brasil aparece na 107ª colocação entre 197 países, com 22 mortos para cada mil nascidos vivos. A comparação com os dados de 2006 informa que o país perdeu seis posições. Temporão engoliu sem queixas o índice que não deixa o país bem no retrato. O que o incomoda é a queda. O relatório informa que, em um ano, a taxa subiu de 20 para 22 mortes. Estudos feitos pelo próprio ministério garantem que a taxa de 2006 foi de 23,1 para cada mil nascidos vivos. O Brasil, portanto, subiu no ranking. "Nossos critérios são mais confiáveis", diz Temporão. "Já me reuni com representantes, e até eles concordam". Os autores do estudo não emitiram nenhum sinal de que pretendem alterar a classificação divulgada há dias. Nem Temporão parece disposto a esquecer a posição no campeonato e concentrar-se na redução da mortandade ultrajante. A História do Brasil republicano informa que é mais difícil montar o pior que o melhor ministério desde 1889. O governo Lula ainda vai chegar lá.

O milagreiro de Minas Gerais
O ex-governador de Minas Newton Cardoso está bravo com a revista Veja: jura que seu patrimônio foi subestimado pela reportagem publicada na edição desta semana. E está bravo com a deputada federal Maria Lúcia Cardoso: jura que seu patrimônio foi superestimado pela ex-mulher, que reclama na Justiça metade da fortuna. "Tenho duas ou três empresas de reflorestamento, praia na Bahia, mais de 150 automóveis, 145 fazendas com declaração, documentos e taxas do Incra. É fazenda pra chuchu", garante. "Não tenho hotel em Paris. Tenho só seis quartos, recebidos como pagamento da dívida que uma empresa européia tinha com uma das minhas usinas de ferro-gusa". Tudo somado, qual o valor dessas imensidões? "A revista diz que descobriu R$ 150 milhões, mas só no Banco do Brasil tenho R$ 200 milhões aplicados", desconversa. "Como é que eu posso ter essa merda de dinheiro só?". Depois de discorrer com ironia sobre outras cifras divulgadas pela reportagem, avisa que vai ficar ainda mais rico com a bolada que espera juntar ao fim do processo que promete mover contra a revista. Também encara com otimismo a disputa judicial. Acha que Maria Lúcia não vai levar um único centavo. "Tenho pena dela e dos meus filhos", capricha na voz. Não é esclarecimento. É confissão. Agora é só a Justiça apurar o tamanho exato do patrimônio e descobrir como se faz para transformar em bilionário um pobretão de nascença.

Faltou imaginação
ao bandido nativo
Fernandinho Beira-Mar agora sabe que perdeu em 2001 a chance de trocar o uniforme de prisioneiro pela fantasia de revolucionário comunista e entrar para a história como o Cesare Battisti brasileiro. Bastaria jurar que pousara na Colômbia para entender-se com as Farc ­ e traficar armas e drogas em paz ­ mas acabou entendendo que não haverá salvação para o mundo sem a destruição do capitalismo explorador. Continuava na bandidagem não para embolsar os lucros, mas para financiar a guerrilha. Os dois ou três que matara no mês anterior eram contra-revolucionários. Se o ministro da Justiça fosse Tarso Genro, Beira-Mar hoje desfilaria na ala dos anistiados à espera da indenização.


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sábado, janeiro 24, 2009

O efeito Obama Villas-Bôas Corrêa JORNAL DO BRASIL



FOFOCAS INTENCIONALMENTE VAZADAS pelas brechas do Palácio do Planalto espalham o aviso que acende a luz vermelha de advertência, sobre o mau humor que virou pelo avesso o temperamento alegre do presidente Lula . O tom de voz subiu na escala para os berros que ressoam nos corredores palacianos sem que se saiba exatamente o que provocou a explosão. Não é necessário o faro de detetive para reconhecer que os últimos dias, ou semanas, têm sido férteis em aborrecimentos. A marolinha da crise econômica explode nas praias em ondas que desafiam a ousadia dos surfistas. E a equipe econômica bate cabeça na teimosia de quem insiste nos erros, com a esperança de uma nova reviravolta.

Acautelo-me contra a praga da arrogância. E não quero descobrir a pólvora. Mas tenho lá a minha desconfiança de que o efeito Obama mexeu com a cuca do menino nordestino que fugiu da seca no pau-de-arara com a heróica mãe, Dona Lindu, vendeu badulaques nas ruas de São Paulo, completou o curso primário em três escolas públicas até matricular-se no Senai para conquistar a profissão de torneiro mecânico. Daí, um pulo para a militância sindical que revelaria o maior líder popular do país ­ comandou greves que paralisaram as empresas em São Bernardo do Campo. A fundação do Partido dos Trabalhadores foi o arranque para a militância política, com a escalada que impôs a disciplina do aprendizado dos insucessos para o impulso dos sucessos. Lula perdeu e ganhou eleições.

Deputado federal por São Paulo, com milhares de votos, não se ajustou à rotina parlamentar, nem mesmo com o estímulo da Assembléia Constituinte, responsável pela contraditória colcha de retalhos da Constituição de 88, mais remendada que calça de mendigo. O menino de Garanhuns, o rapaz do Senai, o líder sindical de São Bernardo do Campo chegou à Presidência da República, em 2003, e emplacou o segundo mandato que termina em 1º de janeiro de 2011. Lula sorveu a suprema delícia da ascensão vertiginosa. E com a sua pronta inteligência e aguda intuição logo ficou à vontade entre os grandes do mundo ­ presidentes, reis e rainhas, primeiros-ministros de países parlamentaristas ­ galgando os degraus da escada até o reconhecimento como um dos mais destacados líderes, não apenas do continente mas de assembléias internacionais. Juscelino e Jânio também desfrutaram de grande popularidade.

Mas ­ se JK naufragou no JK-65 pela sofreguidão com que foi ao pote, inaugurando Brasília antes de estar pronta e injustamente punido com a cassação do mandato de senador e a perda dos direitos políticos pelo constrangido marechal-presidente Castelo Branco, e se Jânio se perdeu com o golpe frustrado da renúncia, tramado para a volta ao poder nos braços do povo, que não saiu à rua nem para assistir ao embarque para o exterior ­ nenhum dos dois chegou ao recorde de Lula de popularidade aos seis anos já passados de dois mandatos. Lula acusa o golpe de inesperadas dificuldades em duas frentes.

Tem até o fim do ano para comprovar que é capaz de transferir pelo menos metade da sua popularidade para viabilizar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, por ele lançada sem ouvir ninguém, ignorando o PT, calado e submisso. A munição armazenada para a arrancada da ministra-candidata este ano, a partir do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), terá que ser dividida entre as centenas de obras em diferentes estágios, alguns com tudo por fazer, e os socorros urgentes, inadiáveis para os milhares de desabrigados, que perderam tudo menos a vida, na interminável e dramática sucessão de enchentes em várias regiões do país: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, estado do Rio, São Paulo, Espírito Santo.

E a chuvarada continua a castigar os que não têm mais nada a perder e os que construíram suas casas em áreas de risco. Há dezenas de pontes a serem reconstruídas, rodovias com o asfalto comprometido, trechos com o trânsito desviado. Além de porto com filas intermináveis de caminhões lotados de carga, paralisados pela buraqueira das estradas, com trechos interditados.

É difícil manter o bom humor com tantos problemas a reclamar a urgência prioritária do socorro.
E, para mal dos pecados, o Barack Obama a explodir como um fenômeno político ­ que junta 2 milhões de pessoas nas ruas geladas de Washington para assistir à posse do presidente do mais poderoso país do mundo.
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quarta-feira, janeiro 21, 2009

Augusto Nunes Assassino de estimação (1)

SEMPRE QUE TARSO GENRO tem uma idéia, sempre que lhe bate a vontade de fazer alguma surpresa, deveria ser trancado no banheiro, no sótão ou no porão até que a coisa passasse. Tal medida preventiva teria evitado, por exemplo, que o ministro da Justiça pensasse na revanche contra torturadores aposentados ­ algo parecido com um Brasil x Uruguai 30 anos depois da tragédia da Copa de 1950, com os mesmos jogadores em campo. Em meia hora de cárcere privado, o impulsivo gaúcho talvez tivesse esquecido a idéia de recusar o pedido de extradição formulado pela Justiça italiana e promover o criminoso Cesare Battisti a asilado político. Bandido de estimação é gente fina. Ao reaparecer em Brasília depois de duas semanas de sumiço, o ministro contou que não usara o período de folga para mergulhos no mar, como o presidente Lula. Atravessara dias e noites acordado, caprichando em mergulhos no oceano de papéis que reconstituem o caso Battisti. O rosto bronzeado, a ausência de olheiras e a loquacidade avisam que, se é que existiram, as madrugadas insones não foram muitas. O palavrório comprova que, se é que houve, o mergulho não alcançou a folha corrida de Battisti. Não tem nenhum parentesco com biografias resumidas de idealistas exemplares. É só um prontuário que permite identificar um homicida singularmente brutal. A leitura da capivara informa que o ladrão comum, concentrado desde a adolescência em batalhas diárias contra o direito de propriedade, foi bem mais operoso e muito menos feroz que o soldado mobilizado, de 1976 a 1978, para a guerra suja contra o regime democrático ­ e contra o direito à vida. Quem entrou na cadeia foi o assaltante de alta produtividade. Quem saiu foi o embrião de um assassino de alta periculosidade. Convertido por um vizinho de cela em devoto da seita terrorista Proletários Armados do Comunismo, Battisti tinha 24 anos quando foi considerado pronto para matar. Num artigo publicado na Folha de S.Paulo, o jurista italiano Armando Spataro, procurador da República em Milão e coordenador do Departamento de Combate ao Terrorismo, escancarou o lixão de mentiras, fantasias, invencionices, espertezas e pilantragens amontoadas para justificar a absolvição arbitrária pelo magistrado Tarso Genro de um personagem que Spataro qualifica de "assassino puro". Hoje com 60 anos, faz quase 30 que sabe tudo sobre o caso. Auxiliado por colegas do Ministério Público, policiais e juízes vinculados à Operação Mãos Limpas, foi ele quem conduziu as investigações que resultaram na prisão do terrorista em 1979 e, depois, no julgamento que condenou à prisão perpétua o réu comprovadamente envolvido em quatro homicídios. Sereno, seguro, Spataro implode uma a uma as falácias recitadas pelo pedaço do Brasil que, depois de espantar o lado decente com manifestações de apoio a vilões de novela, agora torcem ostensivamente por bandidos de verdade. "Naquele tempo, a Itália vivia uma fase conturbada", vem repetindo Tarso. Conturbada por delinqüentes que trocaram votos e urnas por metralhadoras e bombas para substituir o estado de direito e substituí-lo pela ditadura comunista. "Battisti foi militante de um grupo político de orientação esquerdista", viajou o jurista Dalmo de Abreu Dallari num artigo tão delirante que enquadrou na "extrema-direita" o governo que os guerreiros do proletariado queriam derrubar. No período em que o artilheiro adotado pelo governo Lula liquidou a tiros dois policiais e dois comerciantes "contra-revolucionários", o país controlado pela extrema-direita era o Brasil. Na Itália democrática, estavam no poder donos de currículos que identificam veteranos da resistência ao fascismo. Se Dallari escala na extrema-direita o ex-primeiro-ministro Francesco Cossiga, que posição sobraria para Mussolini? "Battisti foi condenado com base no que disse uma testemunha beneficiada pela delação premiada e não teve direito à ampla defesa", declamou Tarso. Bobagem, conta Spataro. Se não tivesse fugido do país, o acusado esperaria sem torturas nem ameaças o dia do julgamento, que acompanharia na primeira fila. E então saberia que, ao depoimento do companheiro, que resolveu contar tudo, somou-se uma montanha de provas que o teria soterrado se o assassino não descobrisse o Brasil.
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