sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Obama, Hillary, McCain e a imprensa

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por Reinaldo Azevedo

Fiz ontem uma ironia com a situação de Hillary Clinton, e um leitor antevê que ela vai ser derrotada — também estou achando — e que Barack Obama, sem dizer a que vem ou a que veio, será o candidato democrata, com ótimas chances de vitória. É... Grandes e queridos amigos meus estão bastante fascinados com ele. “Fascinados” talvez seja um termo de má vontade porque supõe uma espécie de adesão irracional. Um deles estudou detidamente a personagem, seus discursos, tudo, e vê mais consistência do que parece à primeira vista.


A mim ele me assusta um pouco – ou muito. E, claro, torço para estar enganado se ele se tornar mesmo presidente do EUA. O que mais me incomoda é o tal “carisma”. Marx dizia que Lassale era um “caos de idéias claras”, uma expressão muito boa. Obama me parece um “caos de discursos claros". Cada trecho faz sentido, mas não sei a que apela o conjunto da obra. Também não gosto muito desses sentimentos “mudancistas” que ele mobiliza. Estou como Hillary: “mudar o quê?” Quando vou em busca da resposta, encontro um excesso de substantivos abstratos. Se for eleito, acho que a primeira mentira que então terá contado será sobre a guerra. Vai mesmo tirar os EUA do Iraque? Não tira. Ainda que seu discurso a respeito seja um tanto ambíguo e frouxo, ora cá, ora lá, ele sabe que a expectativa que mobiliza é a do fim da guerra.


Também acho a tarefa grandeza demais para a sua pouca experiência, o que não precisa ser demonstrado. Mas não tem jeito, o furacão eleitoral está aí. Eu prefero a disputa que o New York Times recomendou aos americanos em dois editorais: John McCain contra Hillary Clinton — com a diferença de que o jornal apóia a democrata, e eu dou meu apoio inútil ao republicano.


Adultério

Leiam vocês mesmos a matéria sobre o tal caso de "adultério & lobby" envolvendo McCain. Está no site do New York Times. É o tipo de reportagem que não seria publicada pela demonizada mídia brasileira — e, nesse caso, acreditem, estamos mais certos do que eles. Por que digo isso?


Não há a comprovação do adultério nem a prova de que McCain, dormindo ou não com a lobista, tenha feito algo de impróprio envolvendo o seu mandato. Tudo está no território da suspeita. Interessante: nesse caso, a mídia brasileira — a séria, não esta que foi assaltado por ratazanas e mascates — é mais cuidadosa. É melhor que seja assim. Mas, é claro, o jornal pode ter em mãos mais do que publicou. A depender do comportamento do senador, fulmina a sua candidatura.


Não estou pondo em dúvida a respeitabilidade do NYT, não. Estas são questões importantes para a cultura americana — nesse particular, talvez seja melhor do que a de um país em que políticos chamam de assunto privado usar um lobista para pagar pensão a ex-amante.


Respeito à imprensa

O episódio também revela o respeito reverencial dos americanos pela liberdade de imprensa — e olhem que aquela é a república dos advogados, dos processos. McCain negou as acusações, disse que o jornal está errado, mas, em nenhum momento, fez qualquer ameaça ou lembrou que o Times é historicamente ligado ao Partido Democrata.


Imaginem se, no Brasil, um jornal ou revista declarasse apoio a este ou àquele e publicasse, duas semanas depois, uma reportagem com acusações um tanto vagas contra o adversário. Por aqui, flagrados em delito, com a boca na botija, os políticos logo arrumam alguns bois para justificar a sua renda, apresentam empresas de fachada e, claro, acusam uma conspiração dos adversários. Mais: contratam "jornalistas de serviços" para o jogo sujo.

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