segunda-feira, fevereiro 18, 2008

NELSON ASCHER



Rendição preventiva


Henrique 8º poderia ter reunido suas mulheres num harém; como ele não pensou nisso?

HENRIQUE 8º (célebre por ter se casado seis vezes e executado duas esposas) rompeu com Roma e estabeleceu, em 1534, a Igreja da Inglaterra, em parte porque o papa não lhe permitira anular o casamento com sua primeira mulher, Catarina de Aragão.
Quase meio milênio depois, a sugestão feita há pouco por Rowan Williams, arcebispo de Canterbury (Cantuária), líder espiritual da comunhão anglicana, teria, se mais nada, ensejado uma solução menos sanguinária para as crises conjugais do monarca. Com a desculpa de que se trata de algo inevitável, o prelado de fato propôs que seu país se "acomodasse construtivamente" com certos aspectos da sharia, a lei islâmica, por exemplo, na área do direito de família. Aceita a idéia, Henrique 8º poderia ter reunido harmoniosamente todas as suas mulheres (e outras tantas concubinas) num harém real. Como é que ele não pensou nisso?
A história começou, no princípio do mês, com uma palestra que o arcebispo deu a juristas e outros especialistas, bem como com a entrevista à BBC que a precedeu. Embora Williams tratasse de envolver suas opiniões num manto de obscuridade e ressalvas inócuas, o que disse foi inequívoco o bastante para que se desencadeasse um escândalo geral. O primeiro-ministro e os líderes dos demais partidos protestaram, a rainha manifestou sua preocupação, muçulmanos moderados acharam a idéia péssima e membros do clero pediram a renúncia de seu líder. Quanto à imprensa, ela já publicou dezenas, talvez centenas de artigos a respeito, a maioria desfavorável.
Entre as afirmações que mais revolta provocaram está aquela segundo a qual seria inflexível demais exigir de uma minoria que esta tivesse de optar entre lealdade ao país e lealdade à sua cultura de origem ou, pior, a de que seria perigoso pensar que tudo o que há para se dizer é que existe uma lei para todo mundo -e só. Para turvar as águas, ele pôs os judeus no meio do debate, lembrando que os ortodoxos resolviam diversas pendências em suas cortes religiosas. Esqueceu-se apenas de ressaltar que tais tribunais são inteiramente voluntários, suas decisões não têm a força da lei nem competem com as do país.
Diante da tempestade, que o pegou de surpresa, Williams alegou ter sido mal interpretado sem, no entanto, voltar atrás. Seus aliados e simpatizantes, para variar, puseram a culpa na imprensa tablóide. A leitura de sua palestra, porém, por mais retorcida e esquiva que esta seja, não dá margem a dúvidas. O arcebispo, nem que tenha sido por ingenuidade, cedeu aos argumentos tanto dos militantes mais radicais da comunidade islâmica como de seus apologistas mais hábeis.
O que Williams prega pode resultar apenas num desfecho: uma sociedade segregada na qual os direitos grupais eclipsariam os individuais, subvertendo a absoluta igualdade de todos os indivíduos, sem exceção, perante a lei. A sharia pode ser muitas coisas, mas não é um código democrático, pois se fundamenta, não na igualdade de todos, mas, sim, na desigualdade, primeiro, entre muçulmanos e infiéis e, segundo, entre homens e mulheres.
É assustador perceber que as grandes conquistas do Iluminismo, a autonomia do indivíduo, a emancipação das minorias e a igualdade dos sexos, estão à mercê de guardiões dispostos a sacrificar o universalismo para se render preventivamente a um grupo religioso (ou a uma minoria intolerante em seu interior) e a sua visão particularíssima do mundo e das relações sociais

Pode vir quente
Fiquei feliz ontem ao ver Arnaldo Antunes, que antes gostava apenas dos concretos, defendendo também as áreas verdes. Nunca é tarde para mudar de idéia e, falando nisso, em 2003, o roqueiro participou de um abaixo-assinado que, buscando condenar-me ao silêncio por crimes de pensamento, afirmava que era proibido, não proibir, mas discutir minhas opiniões. Levou cinco anos, mas, felizmente, agora ele admite que é melhor debatê-las que tentar censurá-las. Parece que até ajudei a convencê-lo de que o fundamentalismo islâmico é prejudicial à saúde e ao rock. Ótimo. Pena, porém, que, de resto, ele se limite a reciclar palavras de ordem esquerdistas, anti-americanas e ambientalistas, ou seja, clichês que, durante os cinco anos que levou para me responder, eu já examinei detalhadamente. Meus textos anteriores, que esclarecem todas suas dúvidas, podem ser lidos nos arquivos on-line da Folha. Quando alguém expõe um lado da questão, seu interlocutor, o outro, e o público, após compará-los, chega às próprias conclusões, surge o assim chamado mercado livre de idéias. Antunes acaba de ingressar nele e eu lhe dou minhas boas-vindas.

Burrice ou má-fé?

1 – Arnaldo Antunes: do concretinismo às áreas verdes

2 - A celebridade e o politicamente correto




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