sábado, março 01, 2008

Sucessão Dilma Rousseff é a primeira opção de Lula

A primeira aposta de Lula

Sem um candidato natural à sucessão em 2010, 
Lula testa a viabilidade eleitoral de Dilma


Otávio Cabral

Dida Samapio/AE
Dilma e Lula: o presidente acha que a ministra é o melhor nome dentro do PT

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, está passando por um processo acelerado de metamorfose. Habitualmente reservada, de uma hora para outra ela começou a participar de festas, viagens e reuniões com jornalistas. Deixa-se fotografar com facilidade e reserva boa parte da agenda para encontros políticos. Na semana passada, Dilma acompanhou o presidente Lula em solenidades no interior do Nordeste para o lançamento de mais um programa social. Em Aracaju, a ministra discursou sobre as obras do Programa de Aceleração do Crescimento e depois se reuniu com governadores para debater os projetos. Na próxima sexta-feira, o presidente Lula vai visitar três favelas do Rio de Janeiro, onde o governo começará a implantar infra-estrutura básica. De novo, a ministra foi convidada para discursar no evento e, inclusive, já foi orientada sobre o teor do pronunciamento. Em vez de ficar citando números e estatísticas sobre as condições de vida da população carente, ela vai se dedicar a ressaltar as melhorias que o governo federal vem promovendo na vida das comunidades mais pobres. Discurso de candidata? Sim. Dilma Rousseff foi escolhida pelo presidente Lula para ser testada como a primeira opção petista para a sucessão nas eleições de 2010.

A exposição pública da chefe da Casa Civil é o primeiro movimento da estratégia do presidente para enfrentar um paradoxo. Lula tem altos índices de popularidade, comanda um governo que, apesar dos inúmeros escândalos, é bem avaliado pela população, mas não tem um candidato natural para suceder-lhe. Todas as pesquisas de opinião apontam os candidatos da oposição como favoritos. O presidente acha que sua popularidade, caso ela se mantenha alta até as eleições, já garantiria ao menos a presença no segundo turno de qualquer candidato que ele indicasse. Dilma foi a escolhida para encarnar esse papel. Na última pesquisa do instituto Sensus, divulgada há duas semanas, a ministra foi incluída entre os prováveis candidatos. No melhor dos cenários, ela conseguiu 5,4% das intenções de voto, contra 38% do governador José Serra, o primeiro colocado. O presidente, porém, acredita que é capaz de catapultar esses índices. No início de fevereiro, os dois tiveram uma longa conversa sobre o assunto. Dilma ainda se mostrava refratária à idéia, justificava que não tinha experiência, era desconhecida para a maioria dos brasileiros e achava que não tinha talento para lidar com a política e, principalmente, com os políticos.

Os argumentos do presidente fizeram a ministra mudar de idéia. Lula disse que, para superar o anonimato, ela o acompanharia nas viagens. Para superar a resistência dos petistas que não vêem na ministra uma legítima representante, Lula deixou claro ainda que, entre todos os possíveis candidatos do PT, ela é a mais viável nas urnas. Lula, finalmente, aposta no crescimento da onda feminina na política mundial, principalmente se Hillary Clinton ganhar a eleição nos Estados Unidos e juntar-se ao time de mandatárias formado pela alemã Angela Merkel, pela chilena Michelle Bachelet e pela argentina Cristina Kirchner. O presidente já disse várias vezes que gostaria de apoiar uma candidata em 2010. Deixava a dúvida se a mulher em questão era Dilma ou a ministra do Turismo, Marta Suplicy. "Lula quer que Dilma veja como é a política de fato, quem são as lideranças de cada local. Quer que ela aprenda a se comportar em um comício, a sorrir para os eleitores. Para o presidente, essa é a principal dificuldade da ministra. Conseguir visibilidade também é importante, mas é mais fácil", explica um assessor do presidente. Até o início de abril, o Palácio do Planalto encomendará uma pesquisa específica para verificar o desempenho de Dilma. A idéia é sondar o que o eleitorado pensa da ministra e se há restrições a votar em uma mulher para presidente.

Empenhada na tarefa que recebeu, Dilma tem montado uma agenda própria de olho no seu processo de transformação. Ela tem conversado constantemente com políticos do PT e dos partidos aliados. Nunca se declara candidata nem pede apoio. Mas os voluntários sempre aparecem. O ministro da Justiça, Tarso Genro, apontado como uma das alternativas à sucessão de Lula, disse na semana passada que está fora da disputa. Nos bastidores, revela que se sentirá à vontade em apoiar Dilma. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, já se colocou à disposição para tentar aproximar o PMDB de Dilma. Em troca, quer que a ministra o apóie para o governo de Minas Gerais. Os elogios à primeira escolha do presidente, porém, estão longe de ser unânimes. Além da resistência que a ministra enfrentará dentro do próprio PT, seus adversários, que já existem e não são poucos, criticam sua personalidade, considerada difícil. "Ela cria muitas arestas, faz muitos inimigos. Precisa aprender a ser mais diplomática se quiser mesmo ser candidata", analisa outro assessor de Lula. Um detalhe importante é que transferência de voto não se enquadra em nenhuma fórmula matemática. Nas projeções mais otimistas, marqueteiros e políticos avaliam que qualquer candidato do governo, se carregado por Lula, pode ter entre 25% e 30% dos votos e passará para o segundo turno. Mas é só. "Apenas esse apoio não determina a vitória. O candidato também terá de apresentar um bom currículo e uma grande desenvoltura política para conseguir ser eleito", explica Ricardo Guedes, diretor do instituto Sensus.

Lula tem repetido em suas conversas reservadas que apoiará um candidato do PT, seja Dilma, seja qualquer outro, mas que não está disposto a entregar o governo de bandeja à oposição. Isso significa que, caso os testes fracassem, alternativas poderão ser sacadas. O presidente cultiva uma enorme simpatia pelo deputado Ciro Gomes, do PSB, mantido como uma espécie de reserva estratégica. Entre as opções ainda está a improvável hipótese de filiação do governador mineiro Aécio Neves a um partido aliado. Dentro do PT, não há muitas alternativas. Marta Suplicy é a que se sai melhor nas pesquisas, mas Lula não quer vê-la candidata. Sobram Dilma, a escolhida, e Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e responsável pelo programa Bolsa Família. Se nada der certo, pode sempre aparecer alguém com uma idéia totalitária, como a do deputado Devanir Ribeiro, do PT paulista, que promete apresentar nesta semana no Congresso um projeto prevendo a possibilidade de um terceiro mandato para Lula. É melhor para a democracia que o presidente continue procurando um sucessor dentro das regras do jogo.

 

Os "presidenciáveis" de Lula

André Dusek/AE
Marta Suplicy
A ministra do Turismo é a petista mais bem colocada nas pesquisas, mas não anima o presidente por ser ligada ao PT paulista, responsável pelos principais escândalos do governo. Deve disputar a eleição para a prefeitura de São Paulo. Se ganhar, ficará naturalmente credenciada à disputa. Se perder, sairá do páreo.
Elza Fiuza/ABR
Patrus Ananias
O ministro do Desenvolvimento Social é o responsável pelo principal programa do governo, o Bolsa Família, o que lhe daria facilmente uma bandeira de campanha. É, porém, um completo desconhecido, exceto em Belo Horizonte, município que administrou por quatro anos. Tem a confiança de Lula, mas não a da cúpula do PT.
Celso Junior/AE
Tarso Genro
O ministro da Justiça é ex-prefeito de Porto Alegre e já disse várias vezes que não pretende ser candidato a presidente. Mas seu nome continua sendo considerado por Lula caso a aposta em Dilma não dê resultados. É muito próximo do presidente, mas rejeitado pela atual direção do PT, à qual não poupa críticas.
Celso Junior/AE
Ciro Gomes
O deputado federal do PSB e ex-ministro da Integração Nacional é o político aliado com melhor desempenho nas pesquisas de opinião, em grande parte por ter disputado duas eleições presidenciais. Lula pensa em apoiá-lo caso não vingue nenhuma aposta oriunda do PT.
Celso Junior/AE
Aécio Neves
Pode parecer estranho, mas o governador de Minas, o tucano Aécio Neves, é a opção que Lula cultua como solução ideal. O presidente já disse que gostaria de tirá-lo do PSDB e lançá-lo por um partido aliado, o que considera um golpe de morte na oposição. O problema é que o PT não tolera a idéia nem como hipótese.

 

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