sábado, março 08, 2008

Ruy Fabiano -Dias confusos para o Continente

Blog Noblat
O nó geopolítico expresso no recente conflito entre, de um lado, os governos do Equador e da Venezuela e, de outro, o da Colômbia sinaliza dias confusos e turbulentos para o continente Sul-Americano.

Isso porque o conflito é ideológico e está longe de ter sido superado. De um lado, o projeto bolivariano e anti-norte-americano de Hugo Chavez, a que se ligaram, com maior ou menor intensidade, países como Equador, Bolívia, Nicarágua e Argentina; de outro, o governo conservador colombiano, apoiado pelos Estados Unidos.

Os radicalismos, de direita ou de esquerda (e nada mais parecido com um do que o outro), se atraem.

O antiamericanismo de Chavez, cujo país é o terceiro maior fornecedor de petróleo aos Estados Unidos, excita os ânimos belicistas do Império, recolocando em cena a luta armada como instrumento de ação política no continente.

Não por acaso, a solidariedade venezuelana às Farcs teve como imediata contrapartida a irrestrita solidariedade de George Bush ao presidente colombiano Álvaro Uribe. As Farcs são um grupo armado, que nasceu sob a égide da luta revolucionária de esquerda, mas que derivou para a ação criminosa, elegendo-a como forma de conquista do poder político. Matam, seqüestram, vendem drogas. Não são revolucionários. São bandidos, sob disfarce ideológico.

O problema seria exclusivamente de economia interna da Colômbia não fosse o apoio – logístico, político e financeiro - que aquela organização criminosa recebe de fora - sobretudo dos governos equatoriano e venezuelano. Portanto, o ataque colombiano na faixa da fronteira do Equador não inaugura o conflito. É apenas um de seus capítulos, pois as tensões são antigas e complexas.

De que vale o mútuo compromisso de fim das hostilidades, firmado entre Colômbia e Equador, na reunião desta semana da Organização dos Estados Americanos (OEA), se Chavez já avisou que a guerra continua? Rompeu relações com a Colômbia e ameaçou nacionalizar (eufemismo para confisco) empresas daquele país na Venezuela e conclamou os países amigos a derrubar o governo de Uribe, que considera sucursal dos Estados Unidos, referindo-se aos criminosos das Farcs como "heróis latino-americanos".

Hugo Chavez comparou a Colômbia de hoje à cidade peruana de Ayacucho, numa referência à guerra de 1824, que opôs os espanhóis aos independentistas peruanos. Disse que os espanhóis de ontem são os norte-americanos de hoje, que teriam se apossado da Colômbia, sendo o governo de Uribe testa de ferro do Império, que precisa ser derrubado a qualquer custo.

Se isso não é violar a soberania da Colômbia, que elegeu pelo voto direto o seu presidente da República e vive a plenitude do Estado democrático de Direito, o que mais o será?

Além de financiar uma organização criminosa, as Farcs, classificadas internacionalmente como terroristas, Chavez e seu colega equatoriano Rafael Correa dão-lhe apoio logístico e político, garantindo sua sobrevida e prolongando a já de si extensa guerra que move internamente contra o governo colombiano.

E o governo brasileiro nisso tudo?

As dimensões do país e a liderança natural que daí decorre o impedem de se alinhar ao discurso chavista. Mas os vínculos com a causa são evidentes e remontam ao Foro de São Paulo, entidade criada em 1990 pelo PT (então presidido por Lula), para congregar as organizações de esquerda do continente, em busca de estratégias comuns para chegar ao poder.

As Farcs integram aquele Foro, o que impede que a diplomacia brasileira (oficial e oficiosa, a do Itamaraty e a do PT, de Marco Aurélio Garcia) as reconheça como o que de fato o são: uma organização criminosa, que trafica drogas e armas e neste momento mantém algo em torno de 800 reféns, submetidos a tratamento desumano e sem qualquer perspectiva de libertação.

O papel de mediador que o Brasil, em circunstâncias normais teria, está prejudicado por esse vínculo, que, mais dia menos dia, terá que ser melhor explicado. A tensão no continente continua.

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