sábado, março 15, 2008

RUY CASTRO

Leitura de cativeiro
RIO DE JANEIRO - Em fins de 1992, um empresário foi seqüestrado em São Paulo. Os bandidos o atiraram no cativeiro e, a princípio, bonzinhos, perguntaram-lhe se ele não gostaria de um livro para ajudá-lo a passar os dias seguintes, em que ficaria fora do ar. Caso sim, dispunham-se a ir lá fora e lhe comprar um. O empresário pediu um livro que, segundo os jornais, saíra naquele dia: "O Anjo Pornográfico", de Fulano de Tal, sobre a vida de Nelson Rodrigues.
O livro lhe foi entregue e o empresário leu-o sem esforço em poucos dias, enquanto esperava que as negociações para seu resgate se concluíssem e ele fosse logo libertado. Mas algo emperrou nas tratativas, e essas foram suspensas. Sem prazo para sair, o empresário pediu que lhe comprassem outro livro. Os seqüestradores disseram que a sopa acabara, que lesse o mesmo livro de novo.
E, assim, nos seus mais de 40 dias de cativeiro, o empresário releu o livro três ou quatro vezes. A certa altura, pediu papel e lápis aos captores e, de memória, reconstruiu a árvore genealógica da família Rodrigues, descrevendo as tremendas tragédias que se abateram sobre cada um de seus membros. Quando foi finalmente libertado, o empresário disse ao "Jornal Nacional" que o livro o ajudara a suportar sua própria tragédia, inspirando-lhe força, resistência e resignação.
Ouço dizer agora que "O Anjo Pornográfico" é quase o livro oficial dos participantes da última edição do "Big Brother Brasil". É passado de mão em mão entre os homens e as mulheres que estão há semanas doce ou ferozmente presos naquela casa. E, mais uma vez, a saga de Nelson Rodrigues e sua família ajuda a atravessar adversidades.
No passado, havia os livros a se levar para uma ilha deserta. "O Anjo Pornográfico", pelo visto, é ideal para os cativeiros.

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