terça-feira, março 11, 2008

Rubens Barbosa,Reta final

Para nós, brasileiros, que estamos acostumamos à escolha de candidatos à Presidência da República em reuniões de cúpulas partidárias com poucos atores e com forte influência de lideranças personalísticas ou carismáticas, é difícil entender como se desenvolve o processo de escolha dos candidatos presidenciais nos EUA.

A existência de apenas dois partidos, o Democrata, e o Republicano, ajuda a limitar o número de aspirantes à Casa Branca.

O sistema de seleção dos candidatos, contudo, apesar de aberto, não deixa de ser altamente complicado. As regras para as prévias ou primárias variam de Estado para Estado, gerando muitas incertezas e agora alguma contestação em virtude da decisão do Partido Democrático de excluir os resultados de Michigan e Florida onde Hillary e Obama não fizeram campanha, mas a senadora obteve a maioria dos votos. A decisão que vier a ser tomada terá clara influencia nos resultados da Convenção.

Será declarado vencedor na convenção partidária, do lado democrata, o candidato que tiver o maior número de delegados escolhidos de forma proporcional aos votos obtidos nas primárias ou de maneira absoluta, do lado republicano, onde o vencedor da prévia ganha todos os delegados.

Faltando onze eleições primárias, em que podem votar não só a militância partidária e filiados, mas também filiados ou não aos partidos políticos, a campanha entrou na etapa decisiva. Os Republicanos já escolheram John McCain como candidato. Do lado Democrata persiste a incerteza. Hillary Clinton e Barak Obama estão praticamente empatados, com ligeira vantagem para o primeiro negro com perspectiva real de ser escolhido para concorrer a presidência.

A eleição presidencial de novembro de 2008 entrará para a história por vários motivos: trata-se da primeira vez, nos últimos 60 anos, que nem o Presidente, nem o Vice-Presidente são candidatos. É também pela primeira vez que uma mulher e um negro uma disputam a indicação, ambos com chances de vitória; os custos da campanha serão os mais caros da historia, com gastos ultrapassando US$ 1 bilhão, sobretudo em função dos custos de anúncios na televisâo (não há horário eleitoral gratuito no sistema norte-americano).

O maior espetáculo político do mundo vem sendo acompanhado de perto pelos governos, por políticos, empresários e pela população nos quatros cantos do mundo. A eleição nos EUA é tão importante e nos afeta de uma forma ou de outra, que todos nós deveríamos ser chamados a votar, dizia-me um amigo empresário.

O “momentum” na campanha eleitoral que de Hillary havia passado para Obama, com os resultados do Texas e de Ohio, voltou a equilibrar-se. Obama lidera com 1527 delegados para a convenção contra 1428 de Hillary. Quebrada a mística da inevitabilidade da eleição de Hillary, Obama emergiu como o candidato da mudança na política americana em sintonia com as aspirações de seu tempo.

Em resposta às acusações de falta de experiência e ao receio de a presidência cair nas mãos de alguém não preparado, até nosso conhecido “a esperança vencerá o medo” ressoou na campanha publicitária de Obama.

Na hipótese de não haver uma clara maioria de delegados para um dos candidatos na Convenção democrática, deverá pesar – e muito – os votos dos super delegados. Criado em 1982 para evitar conflitos internos, o grupo de 796 representantes tem absoluta liberdade de voto e é integrado por deputados federais, senadores, governadores estaduais e membros da maquina do partido eleitos em cada Estado, isto é, o establishment democrático . Até agora, Hillary conta com mais votos dos super delegados do que Obama.

Na reta final da disputa interna, vários fatores serão cruciais para a indicação do candidato democrata no grande show da convenção de agosto: o resultado da primária em Pensilvânia em 22 de abril, o voto dos imigrantes latinos, dos sindicatos de trabalhadores, o voto feminino, dos negros e dos chamados super delegados.

Hoje o resultado da Convenção que vai indicar o candidato democrata é imprevisível pela aguda divisão existente no seio do Partido.

Resta saber qual o efeito da prolongada e dura disputa entre Obama e Hillary. Os ataques recíprocos, desviando o foco do candidato republicano, pode beneficiar McCain, mas a alta exposição deles na mídia, pode favorecer o futuro candidato democrata.

Algumas pesquisas indicam vitória de Obama sobre MCCain. Outras, pela primeira vez, apontam vantagem para o republicano. Nas mesmas pesquisas, McCain sempre ganha de Hillary.

A grande pergunta é se os EUA estão preparados para ter um negro, com um nome islâmico, como presidente. Tendo vivido cinco anos em Washington e visitado mais de 30 estados, minha impressão é que a resposta é afirmativa. Conhecendo, porém, o grau de conservadorismo do sul e de alguns estados do centro dos EUA, não se pode descartar o risco, comentado pelo New York Times, de uma ameaça, como ocorreu com Martin Luther King e John F. Kennedy.

Por tudo isso, a eleição parecia perdida para os republicanos pelos múltiplos fracassos de Bush na política externa, na Guerra do Iraque, pela corrupção, pela politização do Ministério da Justiça no tocante aos direitos humanos e a liberdade civil, pela deficiência na política educacional e pela crise financeira que tanto está afetando a economia americana. Nas últimas semanas, contudo, as pesquisas mostram que a disputa está aberta e que McCain passou a ter chance de vencer.

É bom lembrar que todas as vezes em que os Democratas se dividiram, os Republicanos (com Nixon e Regan) ganharam as eleições.

Rubens Barbosa, ex-Embaixador em Washington e Presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

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