sexta-feira, março 21, 2008

Roberto Pompeu de Toledo

Vence o candidato negro.
E então, nos EUA…

Um livro esquecido de Monteiro Lobato trata como
sonho dourado um futuro que mais soa a pesadelo

O romance O Presidente Negro (ou O Choque das Raças), publicado por Monteiro Lobato em 1926, previa, para o ano de 2228, uma eleição presidencial nos Estados Unidos em que concorriam um negro e uma mulher, além do homem branco candidato à reeleição. Venceu o negro, ficando a mulher em segundo lugar. Como se dizia em 1926: "Hurra!". Um autor brasileiro, oitenta anos atrás, previu o que está acontecendo hoje! Como se diz em 2008: "Menos, menos". Guardemos a comemoração para depois de saber do que trata, exatamente, o livro.

Monteiro Lobato era, em 1926, aos 44 anos, o mais famoso e mais lido autor brasileiro, não só por causa do Sítio do Picapau Amarelo mas também pelo tipo do Jeca Tatu, pelos contos de Urupês e de Cidades Mortas, pelos artigos nos jornais. Era também um raro modelo de escritor que se desdobrava em empresário; entre outros empreendimentos, foi fundador, sócio majoritário ou sócio importante de sucessivas editoras (Monteiro Lobato e Cia, Companhia Editora Nacional, Brasiliense). Lobato pensava grande. Em 1926 teve um estalo: ia entrar no mercado dos EUA. Sonhou, em carta ao amigo Godofredo Rangel, vender 1 milhão de exemplares. Foi com esse propósito que escreveu O Presidente Negro.

Os EUA imaginados por ele para o ainda hoje distante 2228 tinham uma população de 314 milhões de habitantes – 206 milhões de brancos, 108 milhões de negros. Lobato tinha admiração pela grande república da América do Norte; Henry Ford, a quem dedica parágrafos entusiasmados no livro, era o seu ídolo. Os EUA de 2228, tal qual os concebeu, estavam melhor ainda por causa do aprimoramento da raça. Para começar, haviam trazido de volta as "sábias leis espartanas" de eliminação, no nascedouro, dos portadores de defeito físico. Para completar o serviço, decidira-se esterilizar "os tarados, os malformados mentais" e outros capazes de "prejudicar com má progênie o futuro da espécie".

A utopia de Lobato é o triunfo da eugenia, conceito então em voga e cujos desdobramentos práticos o mundo logo conheceria – o nazismo já dobrava a esquina. Não se procriava às tontas, em 2228, como em 1926 ou em 2008. Só podiam fazê-lo os casais portadores do "brevê de pais autorizados", emitido pelo Ministério da Seleção Artificial depois de rigorosos testes de sanidade. Esse admirável mundo novo era perturbado no entanto por um entrave incontornável – a divisão da sociedade entre brancos e negros. A questão tornou-se aguda, às vésperas da eleição presidencial de 2228, em virtude de uma cisão nas hostes brancas; embaladas pelas ilusões do feminismo, as mulheres lançaram candidatura própria. Resultado: venceu Jim Roy, o candidato dos negros.

Que fazer? Os brancos, tanto homens como mulheres, ficaram em estado de choque. As mulheres, arrependidas, correram de volta aos maridinhos. Melhor assim, mas restava o problema do inaceitável resultado eleitoral. Golpe de estado nem pensar. A Constituição dos pais fundadores continuava sagrada. Foi aí que luziu o gênio do inventor John Dudley. Ele lançou no mercado, com vistas aos consumidores negros, uma milagrosa loção de alisar o cabelo. O sucesso foi absoluto. Até Jim Roy aderiu à loção "desencarapinhante", sem suspeitar do efeito secundário que o esperto Dudley introduzira no produto: ela esterilizava o usuário. Os EUA, com isso, não só se livraram do presidente negro, morto na véspera de tomar posse em circunstâncias não muito bem esclarecidas pelo livro, mas de toda a população negra. Antecipando um famoso adepto do esporte, Lobato inventou a solução final – ele que, anos mais tarde, seria um adversário tenaz dos fascismos, tanto os europeus como o brasileiro do Estado Novo.

O sonho de arrebatar o mercado americano deu em nada. Um dos poucos editores dos EUA que se dignaram dar-lhe uma resposta explicou que o negro é "um cidadão americano, parte integrante da vida nacional, e sugerir seu extermínio por meio da sabedoria e da capacidade superior da raça branca levaria a uma dissensão tão violenta no espírito dos leitores quanto faria um conflito entre dois partidos políticos, ou duas religiões, em que um extirparia o outro". No Brasil, onde as teorias racistas foram moeda comum entre os intelectuais da segunda metade do século XIX até a primeira do XX, a história chocava menos do que naqueles EUA em que a segregação era consagrada em lei.

A moda no Brasil era acreditar na maldição da mestiçagem. Ela teria criado uma raça fraca de corpo e mentalmente inepta. Nos EUA, ao contrário, a segregação, conforme diz Lobato no livro, gerou "a glória do eugenismo humano". Lido hoje, O Presidente Negro deixa uma dúvida: o autor falava a sério ou estaria usando da ironia para denunciar o despropósito da eugenia e do racismo? O tom não engana: é a sério. Miss Jane, a personagem do livro que narra a história, tal qual a viu no "porviroscópio", um aparelho de enxergar o futuro, fala por Lobato, em O Presidente Negro, tanto quanto, nos livros para crianças, fala por ele a boneca Emília.

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