sexta-feira, março 07, 2008

Luiz Carlos Mendonça de Barros

Na mesma velocidade...


Folha de S. Paulo
7/3/2008

O acréscimo de uma pequena palavra no comunicado do Copom deixa claro que o sinal amarelo já está aceso

AS PRIMEIRAS informações sobre o comportamento da indústria neste início de ano mostram que o nível de atividade se mantém nos níveis do fechamento de 2007. Duas estatísticas me chamaram a atenção: o crescimento está espalhado por todos os tipos de indústria -em economês, elevada difusão- e houve aceleração da taxa de crescimento acumulada em 12 meses para 6,3% ao ano.
Pelos números de Fabio Ramos, economista da Quest, quase 80% dos 77 subsetores acompanhados pelo IBGE estão crescendo, o que mostra um comportamento homogêneo da expansão da produção industrial. Há destaque para o setor de bens de capital, cuja produção cresceu 19,2% em 12 meses. A julgar pelos dados de importação de bens de capital dos últimos meses, o investimento em máquinas e equipamentos continuará crescendo perto de 20% nos próximos meses.
Outro setor de nossa economia que mantém o ritmo de crescimento é o agropecuário. A safra de verão deverá ser 6% superior à verificada em 2007, e os preços dos principais produtos brasileiros continuam a se elevar nos mercados internacionais. Por isso o PIB agrícola deve ser, em 2008, bem superior ao do ano passado.
Outra informação relevante neste início de ano vem do mercado de trabalho. Iniciamos 2008 com o emprego crescendo a taxas ainda mais elevadas do que as verificadas no ano passado. Sinal de que a massa salarial vai continuar a se expandir a taxas superiores a 6% ao ano.
Como o sistema bancário mantém (até o momento) o ritmo de expansão de seus empréstimos, o consumo das famílias também não dá sinais de arrefecimento. Finalmente, estou convencido de que os gastos do governo permanecerão elevados, principalmente em razão da arrecadação fiscal em crescimento, apesar da bem-vinda perda do CPMF.
Por tudo isso, acredito que a demanda interna deverá manter um ritmo de crescimento próximo ao dos últimos 12 meses. Embora a participação das importações continue a aumentar de forma sustentada, não consigo ver o PIB brasileiro crescendo muito menos do que no ano passado. A crise externa -que ainda está se aprofundando e chegando agora de forma mais intensa ao continente europeu- não está afetando a dinâmica de nossa economia. A não ser que ela se transforme em uma catástrofe global, cenário no qual não acredito, essa hipótese deve se consolidar ao longo dos próximos meses.
Esse é o lado bom dessa minha previsão. Mas alguns problemas de fundo macroeconômico devem ficar mais graves. O mais importante deles é o aparecimento de riscos altos no campo da inflação. Embora o crescimento das importações e a valorização do real funcionem como antídoto poderoso no segmento dos chamados bens comercializáveis, que até está se acentuando pela aceleração do ritmo das importações, tensões em outros mercados podem continuar a se desenvolver.
Apesar de as pressões de inflação ainda não serem dramáticas, o Banco Central se manterá vigilante e poderá optar por elevar os juros, em uma possível estratégia preventiva.
O acréscimo de uma pequena palavra no comunicado da reunião do Copom na última quarta-feira deixa claro que o sinal amarelo já está aceso no prédio de nossa autoridade monetária em Brasília. O ritmo da atividade econômica será o fator determinante para a ação do Banco Central nos próximos meses.

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