terça-feira, março 25, 2008

Jânio de Freitas - Mais um grande feito




Folha de S. Paulo
25/3/2008

Forças Armadas que tivessem de esperar pelo ministro civil para instalar hospitais não seriam forças nem armadas

O ROL DE responsabilidades pelo drama das vítimas de dengue no Rio tem mais um nome: Nelson Jobim. Embora Marinha, Aeronáutica e Exército pudessem iniciar em 24 horas as instalações emergenciais para aumentar o atendimento a pacientes, Nelson Jobim determinou de Washington, na semana passada, que a colaboração dos militares esperasse por sua volta. O bombeiro, soldado da tropa amazônica, submarinista, especialista na escolha de aviões de caça, submarino e tanques e, de quebra, estrategista da defesa continental Nelson Jobim condicionou o início da assistência: só depois de uma reunião médico-militar (marcada para ontem) por ele presidida para "definir a participação das Forças Armadas". Participação a ser afinal divulgada televisivamente pelo doutor Nelson Jobim.
Forças Armadas que precisassem esperar pela presença de seu ministro civil para instalar uns quantos hospitais de campanha, com vista ao atendimento simples como o de dengue, não seriam forças nem armadas. Se desprovida de propósito oportunista, tal decisão estaria afeta, no máximo, aos comandos locais. O novo especialista em mobilização militar e em epidemia já comprovara sua habilitação com o comunicado, ainda lá de Washington, de que o Exército estava pronto para oferecer 30 leitos em suas futuras instalações de campanha. Ou seja, mobilização para menos de metade dos novos casos ocorridos em apenas uma hora.

Os segredos
A obstinação com que a Presidência da República comanda a imobilização da CPI dos Cartões autoriza duas certezas. A primeira, que, a rigor, já vem de antes, é a inexistência de qualquer dificuldade para separar, nos gastos encobertos da Presidência, os relativos à segurança presidencial e os demais. Se a procedência dos gastos não fosse identificável, o mínimo a dizer da Presidência é que se trataria de uma bagunça beirando, senão entrando, o criminoso. Afinal de contas, é a Presidência da República.
A outra certeza é a existência de gastos, não de segurança, que ecoariam mal para Lula e seus dispositivos no Planalto e no Alvorada. Gastos que não podem ser apenas aqueles já emigrados de auditoria do Tribunal de Contas da União, relativos a divergências entre despesas declaradas e suas notas fiscais. Problemas desse tipo apenas complicam funcionários, muito pouco para explicar o pretexto da segurança vital do presidente e a obstinação contra o conhecimento, pela CPI, das outras despesas da Presidência.

A coerência
A investida de Lula contra os prazos para os compradores de carros remete a um encontro narrado pelo próprio Lula, não faz muito tempo. Quando representantes das principais marcas reclamaram, em conversa com ele no ano passado, da dificuldade criada pelos juros para a venda de carros, Lula lhes deu uma resposta simples: "Vocês só querem vender carro pra rico. É só vocês, em vez de 24 meses, 36 meses, darem 72 meses. Aí pobre vai poder comprar carro". Os prazos subiram para 72 meses.
Ainda mais recentemente, Lula usou, em vários discursos, o auto-elogio de que as vendas batiam recordes porque, graças ao seu governo, "agora, com o crédito facilitado, os pobres estão podendo comprar carro".
Lula e Mantega atribuem o risco de inflação aos prazos dilatados, a grande maioria das ofertas feita em 72 meses. Os dois acham que o prazo ideal é, no máximo, de 36 meses.

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