Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 16, 2008

Daniel Piza

Salvem as ervilhas


Pega bem, hoje mais do que nunca, falar em ''conciliar a ciência e a religião'', como se a compatibilidade pudesse ser obtida de modo sereno e pleno. Mas a frase é vaga e menospreza perigos que ora voltam a ameaçar, no Brasil e no mundo. Fui um dos que criticaram, por exemplo, o tom panfletário com que Richard Dawkins e outros pregam a abolição da religião, até porque há muitos cientistas que afirmam crer numa força superior ou num espírito presente na natureza. É possível pensar assim e não ser obscurantista, intolerante ou dogmático. No entanto, é fundamental ter consciência de que há muitas explicações religiosas para o funcionamento da natureza - e não há religião que não se disponha a explicar o funcionamento da natureza - que foram derrubadas pela observação empírica ou que ainda não são nada além de uma hipótese, para a qual não dispomos e talvez jamais venhamos a dispor de instrumentos para testar consistentemente.

De vez em quando leio, inclusive em emails, que a Teoria da Evolução é isso, ''apenas uma teoria'', logo tão passível de contestação como qualquer outra. Não, ela não é apenas uma teoria, e muito menos como qualquer outra; é o resultado de exames concretos e conseqüentes, que muito ajudaram na compreensão de fenômenos como a formação das espécies. E como é bela! Lembro a sensação de encanto que tive ao ler livros como os de Stephen Jay Gould, principalmente Darwin e os Enigmas da Vida, ao aprender na escola a diferença entre ele e Lamarck ou ao entender como a genética de Mendel comprovou sua idéia sobre mutações. Nunca é demais lembrar a vastidão de preconceitos e distorções que ela precisou enfrentar, até porque ainda os enfrenta em ponto menor. O famoso ''julgamento do macaco'', no Tennessee, em 1925, coberto antologicamente pelo jornalista H.L. Mencken, é só um exemplo de como ela incomoda as pessoas que temem um universo amoral ou auto-suficiente. Minha sensação sempre foi a de que ela mostrou como a natureza é mais complexa e, portanto, fascinante do que nossas pobres mentes conseguem reduzir.

Nesse livro A Criação - Como Salvar a Vida na Terra, o biólogo Edward O. Wilson, a despeito do título exortatório, segue essa linha de argumento. Wilson, criador da sociobiologia - segundo a qual a dinâmica das sociedades humanas poderia ser explicada como, digamos, um formigueiro é explicado (tese que depois reconheceu limitada) -, não acredita em Deus. Mas, nessa carta a um pastor protestante, advoga um campo de consenso fundamentado na ética para que a humanidade se concentre em conservar a biodiversidade do planeta. Aos antiambientalistas que não entendem por que impedir o sumiço de um mico-leão dourado ou de uma mariposa tropical é importante, ele descreve a ampla, intrincada e ainda não totalmente conhecida rede de interdependência entre os seres vivos, além dos potenciais de farmácia e riqueza nela contidos.

Curiosamente há outro livro sobre o assunto chegando às livrarias, ou melhor, voltando a elas, Variedades da Experiência Científica, escrito por Carl Sagan em 1985. Sagan, outro agnóstico (mais do que ''aquele que não sabe'', aquele que não vê necessidade em explicações sobrenaturais para os fenômenos), defende a religiosidade como um sentimento de adoração pela humanidade e pela natureza, não como instrumento de decifração dos fatos e códigos. Não partilho em 100% o pensamento de Wilson e Sagan, até por causa de palavras como ''salvação'' e ''adoração'', mas ambos são ótimos exemplos de que a ciência não se pressupõe definitiva sobre todas as coisas - pois nasceu contra esse mesmo princípio. Há quem diga que regimes como nazismo e stalinismo cometeram a barbárie que cometeram por serem ''ateus'', mas é óbvio que eram ideologias totalitárias, inimigas da liberdade individual sem a qual não se faz ciência.

Há outros esboços de obscurantismo em nossos tempos. Em algumas situações, ele aparece no próprio ambientalismo, que parece defender a intocabilidade da natureza como se uma seita religiosa, esquecido de que ''desenvolvimento sustentável'' é, afinal, desenvolvimento - extração (e portanto destruição parcial e momentânea) de recursos naturais para o bem dos homens (que devem ter a consciência de recuperá-los). Outro foco está nas religiões, como a evangélica ao defender o criacionismo como teoria alternativa à Evolução - não apenas como informação histórica - e a católica ao transformar em ''pecado'' a manipulação genética sem a qual Mendel não teria estudado as ervilhas. Não espanta que a ministra Marina Silva seja evangélica e que a CNBB apóie tanto os ministros do Supremo contrários à biotecnologia.

Outro fato que passou despercebido recentemente foi a divulgação de uma pesquisa do IBGE que pediu aos brasileiros que hierarquizassem os valores mais importantes a passar para seus filhos e a maioria respondeu ''religião''. Curiosamente, a tolerância, que tantos dizem ser a melhor virtude da religião em oposição à ciência, ficou em nono lugar... É por aí que se entende que a maioria dos brasileiros apóie a pesquisa com células embrionárias - por saber que ela poderá permitir o tratamento de muitas doenças graves. Não se trata exatamente de apoio à ciência. De qualquer modo, irônico que seja, eis um exemplo do que Wilson e Sagan defendem: um ponto comum onde basear uma decisão que nos deixa mais perto e não mais longe da natureza. Salvem as ervilhas.

O MUNDO É UM TEATRO

Fui ver A Moratória, de Jorge Andrade, em montagem do admirável grupo Tapa. Escrevi no blog sobre os problemas da encenação, como certas pausas e monotonia nas falas. Mas fiquei matutando sobre o status de clássico dado ao texto de 1955. É uma boa peça - que mostra a crise do café e a decadência dos valores de seus protagonistas - e marcou época, mas... um clássico, uma obra-prima? Não chega a ser. Falta algo fundamental na grande arte: a projeção de uma inquietação interior com a qual até pessoas ignorantes daquele contexto podem se identificar.

Acho, indo além, que a crítica paulista dos anos 50 e 60, naquele momento em que a cidade crescia no cenário nacional, hipervalorizou algumas das criações estéticas locais. Reli Macunaíma, de Mario de Andrade, e vi a exposição de Tarsila na Pinacoteca também. Mais uma vez, embora tenham muitas qualidades e estejam relativamente acima de Jorge Andrade, não pude deixar de pensar que o melhor da arte moderna brasileira foi feito por mineiros, cariocas e nordestinos... Volto ao tema.

DE LA MUSIQUE

O melhor do CD de Omara Portuondo e Maria Bethânia é... a iniciativa. Juntar as duas só poderia dar boa coisa, um CD bem realizado e que aproxima duas tradições tão próximas, a da canção cubana com a brasileira. Ambas têm vozes levemente roucas, sabem o que dizem e se destacam pela enunciação pausada. Bethânia tem mais potência; Omara, mais vibrato e swing. O repertório é que poderia ser melhor. O grande momento é a faixa Para Cantarle a Mi Amor, de Orlando de la Rosa, em que elas fazem um duo.

POR QUE NÃO ME UFANO

É só numa cultura provinciana que o resultado positivo de um PIB implica a exaltação acrítica do governo, como se o bom momento econômico tornasse irrelevantes o atentado à ética e a incompetência em tantos setores, inclusive com reflexos econômicos. Trata-se do mais antigo problema nacional: a noção de que o Estado define a sociedade, de que a conduz como um pai a uma filha. Outro dia Ruy Castro listou algo que já comentei aqui, a quantidade de coisas atribuídas a JK porque ocorreram em seu mandato... E o governo Lula é um exemplo de que a sociedade consegue impor ao menos parte de sua agenda, afinal sua política econômica - contra cujas premissas brigou durante duas décadas - é aquela que a mídia e o mercado pediam. Inflação controlada, superávit primário e câmbio flutuante eram o que exigíamos em 2002. O mérito pessoal de Lula, no caso, foi deixar Meirelles & cia trabalharem sossegados.

Outra ingenuidade é acreditar que o patamar de 5% esteja realmente consolidado. Mesmo sendo um dos mais baixos entre os emergentes, há sinais de que ainda não está. O mais escandaloso é a taxa de juros campeã mundial. Boa parte do aumento do consumo atual vem da redução dela ao longo de vários meses, mas essa redução já foi interrompida. Outro sinal é a carga tributária de país escandinavo, para a qual a dita ''reforma'' proposta pelo governo não serve de quase nada. Cortar R$ 14 bilhões em impostos, quando o mero aumento inercial da arrecadação já supera esse montante, é brincadeira. Há ainda o aumento das importações, que já ultrapassam as exportações, o que mostra que mesmo o aumento dos investimentos (ainda em torno de medíocres 17% do PIB) não dará conta do ritmo. Além de tudo isso, problemas de médio e longo prazo como a carência de mão-de-obra qualificada nem sequer começaram a ser atacados.

Não é apenas sorte que explica o atual ciclo positivo, mas muito mais competência se faz necessária para que ele se prolongue.

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