sexta-feira, março 21, 2008

Crise Bancos dos EUA pagam alto preço pelo risco

Sob o impacto de 1929

Ben Bernanke é estudioso da grande
depressão, quando o Fed errou por omissão.
Ele pode estar errando por ativismo agora?


Giuliano Guandalini

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Quadro: Alta volatilidade

Desde a eclosão da crise nos Estados Unidos, há sete meses, uma onda de desconfiança encharcou as principais praias financeiras do globo. Aplicações tidas como sólidas revelaram-se frágeis como castelos de areia. Dezenas de fundos de investimento já foram liquidados. A maior queda até o momento foi a do Bear Stearns, o quinto maior banco americano de investimento. Fundado em 1923, o Bear teve seu valor de mercado destruído em um único fim de semana – o preço de cada ação, de 30 dólares, caiu para 2 dólares. Exposto até a medula aos créditos hipotecários podres, o banco não encontrou mais quem financiasse suas operações. Para não fechar as portas, acabou sendo comprado a toque de caixa pelo JP Morgan após uma mobilização de emergência feita pelo Federal Reserve (o Fed, banco central americano). No centro desse furacão, Ben Bernanke, presidente do Fed desde 2006, tem um incentivo extra para solucionar essa turbulência cujas causas e natureza ainda são objeto de intenso debate. Acadêmico brilhante de Princeton, ele dedicou boa parte de seus estudos ao crash de 1929. É considerado por muitos de seus pares o maior especialista vivo no assunto. Sua tese: a crise de oito décadas atrás foi potencializada por uma barbeiragem das autoridades monetárias, que enxugaram o crédito em vez de dar alívio monetário às empresas e consumidores.

Bernanke não corre o risco de repetir o erro histórico que estudou à exaustão. Pode estar cometendo o erro oposto, o do ativismo exagerado? Ele vem executando a mais agressiva redução na taxa de juros em duas décadas. Sob seu comando, o Fed já reduziu seis vezes a taxa básica de juros dos Estados Unidos: ao todo, ela caiu de 5,25% ao ano, no início de setembro, para 2,25%, na semana passada. Essa taxa serve de referência para o custo do dinheiro que os bancos tomam emprestado uns dos outros. Quando essa taxa cai, os bancos têm acesso a dinheiro mais barato – e assim podem emprestar a pessoas e a empresas a juros menores. Com isso, o Fed pretende evitar um colapso do consumo, o principal motor da economia do país, e debelar o risco de uma recessão prolongada. Mas essa não foi a única medida tomada por Bernanke. O Fed também estendeu suas linhas de financiamento diretamente para hedge funds (fundos de investimentos agressivos) e também para corretoras e financeiras – tradicionalmente, o Fed emprestava apenas a bancos. Além disso, a instituição decidiu recomprar títulos lastreados em hipotecas que haviam virado mico, limpando a carteira dos bancos e corretoras, que obtêm fôlego extra para seguir adiante.

Mas essa estratégia de Bernanke lhe rendeu críticas de um grupo de economistas que não vê sentido em torrar dinheiro do contribuinte americano para resgatar meia dúzia de banqueiros imprevidentes. A esta altura do jogo, no entanto, esse tipo de comentário não se justificaria se a opção fosse simplesmente deixar o sistema financeiro ruir, dando origem a uma depressão, como nos Estados Unidos na década de 30, ou a uma prolongada estagnação, à maneira do Japão nos anos 90. A exemplo de seus antecessores no cargo (veja o quadro abaixo), Bernanke será criticado seja qual for a estratégia que adotar. Nesse contexto, é melhor que use sua experiência acadêmica e permita ao mundo escapar da armadilha monetária que esmiuçou durante toda a sua vida acadêmica.

Eles nunca estão certos

Por mais correta ou desastrosa que a gestão deles se revele com o tempo, os presidentes do Fed, o banco central americano, são duramente criticados enquanto tentam
debelar crises ou estimular o crescimento

Arthur Frank Burns (1970-1978)

Baixou os juros para combater os efeitos econômicos adversos da Guerra do Vietnã e do primeiro grande choque do petróleo. Foi criticado por montar, por meio dessa estratégia, uma bomba-relógio de preços. E foi o que ocorreu: a inflação americana chegou a 12,3% ao ano em 1974

Paul Volcker (1979-1987)

Elevou os juros de 10,9% para 19,1% ao ano para combater a inflação. Sofreu violentos protestos dos ruralistas, que o acusaram de conduzir o país à recessão. Volcker estava correto. A inflação despencou de 13,5% para a faixa de 3,% ao ano, abrindo caminho para o crescimento

Alan Greenspan (1987-2006)

Imaginou que, com a produtividade em alta e os importados baratos, seria possível expandir a economia mais rapidamente sem inflação. Reduziu os juros, o que lhe rendeu ataques por supostamente estimular a formação de bolhas. Foi vingado pelo tempo: o mundo cresceu sem inflação e com juros baixos por quase duas décadas


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