sábado, março 08, 2008

CLÓVIS ROSSI

De classes e esperanças
MADRI - Talvez nada seja tão didático a respeito do que Elio Gaspari chama de "andar de cima" e "andar de baixo" do que o caso dos brasileiros "inadmitidos" na Espanha.
Antes, confesso que acho esse "inadmitidos" um horror, mas tecnicamente é isso: quem nem sequer foi admitido, não pode ser expulso, como seria a palavra mais adequada, tecnicalidades à parte.
Voltemos ao tema central. Todos os dias, brasileiros são inadmitidos ao desembarcarem no aeroporto de Barajas. No mês passado, foram 452, o que dá 15,5 por dia, já que houve apenas 29 dias.
Ninguém nunca fala nada (nem nós da mídia, que, de resto, nem ficamos sabendo). Basta, no entanto, que três universitários -uma no mês passado e dois agora- entrem na lista de inadmitidos para que se arme um baita escândalo e se chegue ao ponto do olho por olho/dente por dente, com a inadmissão de espanhóis em Salvador.
Os universitários, ainda por cima, pertencem à cobertura do andar de cima, posto que são uma da USP e os dois outros do Iuperj.
Nada contra o escândalo. Tenho, no entanto, dúvidas sobre a eficácia da represália adotada. Pode lavar a alma de brasileiros cujos brios patrióticos estão à flor da pele, mas não vai livrar a cara de brasileiros que chegam a Barajas. Ao contrário, pode provocar uma escalada de retaliações.
O ideal -ou o possível nesse círculo de ferro- é a política espanhola para os países pobres da África: tentar ajudá-los para evitar que seus habitantes emigrem. Até agora, funciona precariamente, é verdade. Mas é melhor ajudá-los no ponto de partida do que barrá-los no de chegada.
Não vale para o Brasil, que não é pobre, embora tenha inaceitável quantidade de pobres. O ideal seria que a esperança vencesse mesmo o medo, na vida real e não só no gogó de governantes, como demonstra o tamanho da diáspora.

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