Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, julho 27, 2005

Zuenir Ventura Saindo da mala


no mínimo
Que Glória Peres que nada! Que "América"! A novela do momento, a que está mobilizando a opinião pública pela intriga do enredo e pelos atores é a da CPI, transmitida no horário da tarde em capítulos que às vezes duram 14 horas. Apesar disso e embora pareça um pouco inverossímil e improvável – chega-se a desconfiar que aqueles personagens foram inventados – é uma obra realista e um sucesso de público. Conheço pessoas que não saem mais de casa e nem atendem telefone.

Cada episódio é mais imprevisível do que o outro, mais emocionante, mais inacreditável. O suspense é de tirar o fôlego. O cenário é pobre, a ação se passa toda numa única sala, como naqueles filmes sobre julgamento, só que, no caso, com vários réus ou suspeitos. De um lado os inquiridores e em frente, na mesa, o depoente, com um ou mais advogados ao lado. Não sei como se consegue construir uma trama com tantos ingredientes dramáticos: corrupção, suborno, chantagem, mentira, hipocrisia, cinismo e muita grana rolando – tanta que só mesmo num país rico como o nosso.

Os próximos dias prometem ser mais explosivos do que os da semana passada, que já não deixaram ninguém sair da frente da tv. Escrevo na véspera de um capítulo ansiosamente aguardado, quando deve se apresentar a mulher do principal vilão (são tantos!), um certo Marcos Valério. O que ela dirá? Será que vai entregar o marido, comprometendo-o ainda mais? Será verdade que estão querendo se separar?

É bom lembrar que as investigações avançaram graças a uma mulher, uma personagem instigante dessa novela, a ex-secretária de Valério, Fernanda Karina. Com coragem e a ajuda de sua agenda, ela forneceu pistas seguras e apontou caminhos que possibilitaram a descoberta de uma conexão milionária e criminosa que começava nas agências de publicidade de seu ex-chefe e terminava no Planalto, passando por petistas poderosos como Dirceu, Genoino, Delúbio, Silvio Pereira, João Paulo Cunha, a lista é interminável. Não era um mar de lama, mas uma tsunami.

Além da mulher, Marcos Valério promete desembarcar em Brasília com quilos de documentos que só Deus, ou melhor, o Diabo, sabe o que contém. "Quem tiver motivos para preocupação pode ir se preocupando", ameaçou. É difícil dizer quando e como será o desfecho dessa trama, que só tende a se agravar. Enquanto o governo vai saindo do armário, ou da mala, uma pergunta que não quer calar. Lula sabia ou não sabia? Ao contrário de Collor, que todo mundo queria ver mergulhado nos escândalos, ninguém quer o envolvimento de Lula, nem aliados e nem adversários. Os primeiros por motivos óbvios, os segundos porque preferem enfrentar em 2006 um presidente fraco e desmoralizado, se é que ele dura até lá como candidato.

As pessoas podem conseguir preservar Lula, mas e os documentos, os que estão por aparecer? A deputada Denise Frossard, uma das mais ativas integrantes da CPI, acredita que de alguma maneira o presidente sabia do esquema, conforme revelou domingo na tv Bandeirante, lamentando: "gostaria que ele fosse investigado como presidente, não como ex."

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