quarta-feira, março 05, 2008

Outra face


EDITORIAL
O Globo
5/3/2008

No início da gestão Lula, há mais de cinco anos, chamou a atenção a corrida da militância para o aparelhamento da administração direta. Veio dali a cessão de segmentos inteiros do Estado a grupos políticos, sendo o caso mais notório o do Incra, doado a movimentos de sem-terra. Foi uma virtual privatização do setor público - não por razões de eficiência, por óbvio.

Nas estatais houve um movimento semelhante, embora menos estridente. Os segmentos petistas ligados ao sindicalismo se posicionaram, desde o início, nas duas maiores estatais, o Banco do Brasil e a Petrobras. E terminou ficando para o segundo mandato, com a entrada do ávido PMDB na aliança partidária do governo, uma disputa mais intensa por cargos nas empresas públicas. Talvez não seja surpreendente, mas é digno de nota, o afinco com que peemedebistas se lançam para garantir o controle da diretoria internacional da Petrobras.

Pelo tempo, a gestão Lula já permite que se avaliem os efeitos desse aparelhamento maciço nas empresas públicas. Na administração direta, é sabido: paralisia, incompetência gerencial e abuso nos cartões corporativos, certamente. Nas estatais, o fato de a administração ter passado a subordinar-se à esfera política tem ficado visível na perda de lucratividade nos balanços mais recentes. A Petrobras, num período de petróleo em alta recorde no exterior, obteve um lucro líquido no ano passado que caiu 17% em relação a 2006 - R$21,51 bilhões contra R$25,91 bilhões. O retrocesso se explica por razões cambiais, pela transferência de R$1,75 bilhão ao fundo de pensão dos funcionários (Petros), entre outros pontos. Mas é certo que a contenção interna de preços de combustíveis, inspirada por Brasília, explica parte importante da frustração.

No BB, outra das estatais loteadas, o lucro em 2007 retrocedeu 16,3% na comparação com o ano anterior (R$5,058 bilhões contra R$6,044 bilhões), num período em que os bancos privados ostentaram invejável desempenho. A ponto de já ameaçarem a primeira posição do BB no ranking do setor. A Caixa Econômica Federal (CEF), também retalhada entre companheiros, não foge à regra. Na instituição já foi observado um aumento da inadimplência, sinal de gestão bancária pouco prudente. A Petrobras e o BB malbaratam os acionistas. A CEF costuma alegar ser um "banco social". O que não lhe dá carta branca para ter prejuízos, a serem bancados mais cedo ou mais tarde por quem paga impostos.

Começa a ficar mais clara a outra face do aparelhamento de fundo ideológico e do loteamento ditado pelo fisiologismo.

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