terça-feira, março 04, 2008

Ação diplomática


EDITORIAL
O Globo
4/3/2008

A América do Sul enfrenta uma das mais graves crises dos últimos anos devido à decisão do governo da Colômbia de eliminar um dos principais líderes das Farc que se encontrava em território do Equador. Por mais motivos que tenha o governo colombiano para neutralizar essa narcoguerrilha que o desafia há cinco décadas, nada justifica a violação do território de um Estado soberano.

Dito isso, é necessário destacar que o presidente Chávez, da Venezuela, tem usado abertamente o drama dos reféns em poder das Farc (mais de 700 pessoas) para aumentar sua influência política em detrimento da luta que o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, trava contra a guerrilha. Chávez e a direção das Farc demonstram amplo entendimento, que resultou inclusive na libertação de seis dos reféns da guerrilha desde janeiro. Nessas operações, o ministro do Interior da Venezuela, Rodríguez Chacín, trocou palavras amistosas com os rebeldes que conduziram os reféns ao ponto de encontro. O que faz Chávez tem nome: ingerência nos assuntos internos de outro país.

O fato de Raul Reyes, responsável pela área internacional das Farc, ter sido morto no Equador evidencia o uso consentido ou não, pela guerrilha, do território de países limítrofes como refúgio para renovar os ataques à Colômbia. Assim como justificadamente repudia a invasão colombiana, o governo do Equador deveria ter feito o mesmo em relação à incursão das Farc. Não o tendo feito, levanta a suspeita de colaboração com a guerrilha.

A crise levou os presidentes Chávez e Correa a elevarem suas condenações à Colômbia a um nível perigoso. Embaixadores foram chamados de volta a suas capitais. Chávez, numa demonstração de total falta de senso do ridículo, ordenou ao ministro da Defesa uma mobilização militar na fronteira com a Colômbia. Pela televisão!

O momento é grave e a diplomacia deve agir rapidamente. A América do Sul tem demonstrado maturidade na busca de consenso para superar divergências. Nesse particular, avulta a importância do Brasil como interlocutor de todos os países da região, independentemente de orientação política. Essa condição deve ser usada rápida e eficientemente, em conjunto com a comunidade internacional, para neutralizar o risco de uma quebra irreversível da paz regional.

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