Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 23, 2006

Rolf Kuntz A odisséia de Lula

 
A odisséia de Lula

Rolf Kuntz*

O Brasil está bem calçado, até agora, para resistir às ondas de impacto emanadas do treme-treme na embaixada da República de Ribeirão Preto em Brasília. Com US$ 13,5 bilhões de superávit na conta corrente do balanço de pagamentos, reservas de US$ 59,07 bilhões em 21 de março e exportações em alta, o País parece pouco vulnerável, neste momento, a pressões especulativas. O setor financeiro tem refletido as mudanças de humor no mercado internacional, ocasionadas, por exemplo, pela expectativa de nova alta dos juros básicos americanos na próxima semana. Os sinais de problemas com algumas moedas - especialmente da Islândia, da Hungria e da Polônia - podem ter chamado a atenção dos operadores brasileiros. Mas a grande incerteza atual do cenário interno - cai ou não cai o ministro da Fazenda, Antonio Palocci - ainda provoca reações notavelmente moderadas. Noutros tempos, com outros indicadores, dificilmente se poderia esperar uma calmaria como a das últimas semanas.

Os sinais de inquietação, muito discretos até o momento, refletem alguma incerteza quanto à política econômica a partir do próximo ano. Parece haver um consenso, ou quase consenso, entre empresários, analistas e operadores do mercado financeiro: com ou sem Palocci o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manterá as linhas gerais da política econômica pelo menos até a eleição. Essa política tem sido uma blindagem para seu governo e ele não cometerá a imprudência de mudar o roteiro nos próximos meses, seja quem for o ministro.

Há bons argumentos a favor desse ponto de vista. Se for correto, o presidente Lula assumirá como sua a política econômica e o nome do ministro, nos próximos meses, será um detalhe secundário. Se for uma pessoa identificada com a atual política, melhor para Lula. Se não for, terá de aceitar o estilo de política seguido até agora, sem causar grande agitação.

Mas, nesse caso, por que o presidente Lula tanto se esforça para manter um auxiliar sujeito a um bombardeio tão intenso e tão pesado? O ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, deu uma primeira indicação, ontem, de que o empenho presidencial terá um limite. "Com o que está revelado até agora", disse Wagner, referindo-se a Palocci, "vamos sustentá-lo." Mas a permanência do ministro da Fazenda, explicou, dependerá da evolução das investigações.

Os analistas do mercado podem estar subestimando a complexidade do quadro. O presidente pode ter mais de um motivo para se empenhar na defesa de Palocci. O ministro da Fazenda, tem dito Lula, é responsável por algumas das conquistas mais importantes do atual governo. Ele não disse quais, mas é fácil defender esse ponto de vista. No mínimo, a política de Palocci - e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles - tem permitido a Lula viver sem grandes sobressaltos. A inflação contida tem preservado o poder de compra dos trabalhadores e isso também pesa. Mas é preciso avaliar outros pontos.

Se Palocci cair, o presidente da República terá perdido em pouco tempo os dois nomes mais fortes de seu governo, o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro da Fazenda. Ambos terão caído em condições moral e politicamente custosas para o governo. Irão somar-se a outras baixas importantes no partido e no Congresso. Ulisses conseguiu chegar a Ítaca mesmo tendo perdido seus companheiros na longa viagem. O risco de a odisséia petista acabar num desastre será muito maior.

Em segundo lugar, Lula será mesmo capaz de manter o rumo da política, sem desarrumar os fundamentos da economia, na ausência de Palocci? O presidente sustentou muitas decisões importantes do atual ministro da Fazenda, mas essa não é toda a história. A firmeza de Palocci e sua influência sobre Lula também foram determinantes. E mesmo a firmeza do ministro teria sido menos eficaz, provavelmente, sem a teimosia do presidente do BC e de sua equipe.

Enquanto Palocci era alvejado, o ministro de Relações Institucionais montava em Brasília, no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, um seminário com predominância de críticos da política econômica. Foi um seminário organizado, segundo o ministro Wagner, não para a defesa do governo, mas para a discussão de temas importantes para o desenvolvimento do País. Mas os debatedores não cuidaram de algo tão vago quanto "o governo".

Afastado Palocci, pressões como essa poderão ganhar uma eficácia que não tiveram até agora. Nesse caso, ninguém poderá dizer com um mínimo de segurança qual será o limite das mudanças possíveis. A política de juros poderá ser o primeiro alvo e os empresários aplaudirão. Mas haverá pressões, também, por mudanças no câmbio e na política de gastos públicos. Lula será capaz de administrar essas pressões?

*Rolf Kuntz é jornalista

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