Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 23, 2006

CELSO MING De novo, o conundrum

OESP
De novo, o conundrum

Celso Ming
ming@estado.com.br

A era Greenspan teve um conundrum. A do seu sucessor começa com o mesmo conundrum e novas preocupações.

Conundrum, palavra latina que o inglês incorporou, significa enigma. Em fevereiro de 2005, Alan Greenspan, o presidente anterior do banco central dos Estados Unidos (Federal Reserve, o Fed) chamou a atenção para uma distorção. Os juros já tinham subido no curtíssimo prazo de 1% ao ano para 3% ao ano e, no entanto, os juros de dez anos fixados pelo mercado secundário das Notes do Tesouro americano continuavam inalterados, ao redor dos 4,7% ao ano. "É um conundrum", dizia Greenspan, sem esconder o espanto.

É uma anomalia. Se posso obter juros mais baixos no curtíssimo prazo, por que me vou amarrar a um título de longo prazo, pela mesma remuneração?

Greenspan confessou que não descobriu a causa da anomalia. Uma hipótese é que a demanda por títulos de longo prazo ficou tão grande que o aplicador se conformou com uma remuneração mais baixa, independentemente de como estiverem as condições da economia no vencimento do título.

Faz sentido. Os países asiáticos, especialmente China, Coréia e Índia, estão empilhando reservas, que se fazem por meio da compra de títulos de longo prazo. Além disso, apenas o patrimônio consolidado dos fundos de pensão dos Estados Unidos está acima dos US$ 6 trilhões, o que exige mais e mais aplicações de longo prazo.

A outra explicação é que o aplicador acredita em que as condições da economia dentro de alguns anos estarão tão boas que os juros de curto prazo ficarão perto de zero. Nesse caso, o melhor é assegurar agora juros mais altos do que os que serão praticados lá na frente.

Uma das principais conseqüências da falta de reação dos juros de longo prazo é que continua barato levantar empréstimos para compra de imóveis (financiamento hipotecário) nos Estados Unidos. Essa facilidade produziu um boom, a grande valorização dos imóveis leva os proprietários a levantar novos financiamentos, que torram em consumo - o que é péssimo para um banco central.

Segunda-feira, perante o Clube Econômico de Nova York, o novo presidente do Fed, Ben Bernanke, não usou a palavra conundrum, mas se estendeu sobre a anomalia. Não se mostrou preocupado com a bolha imobiliária. Mas pareceu apreensivo com o enfraquecimento do Fed. Se a política de juros deixar de atuar sobre segmentos importantes do crédito, não será preciso redobrar a dose (dos juros) para que o efeito desejado aconteça?

É o que, por outras razões, acontece no Brasil. Nosso Banco Central reclama de que, aqui, pelo menos 33% do crédito opera com juros especiais, não influenciáveis pelos juros do Copom. Entre esses segmentos estão os empréstimos do BNDES (regido pela TJLP), os do sistema habitacional e os créditos à exportação. Assim, para que a política monetária possa agir sobre a demanda global, os juros básicos (Selic) têm de ser muito mais altos.

A fala de Bernanke acendeu uma profusão de luzes amarelas. Analistas, Fed-watchers, diretores-financeiros, operadores de mesa - enfim, essa gente que ganha a vida no mercado de dinheiro agora espreme os miolos para descobrir até onde vão os juros básicos nos Estados Unidos, que hoje estão a 4,5% ao ano e devem ir a 4,75% no dia 28.

O raciocínio está ao alcance de qualquer principiante. Se o presidente do Fed diz que a política de juros perdeu potência, segue-se (não só no Brasil) que a dose será reforçada? Se o mercado de renda fixa tiver de pagar remuneração mais alta, todo o mercado de risco, a começar pelo de ações e o nicho dos títulos dos países emergentes, terá de se ajustar. Vai doer?

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