| O Globo |
| 22/3/2006 |
| Os dois principais candidatos à Presidência da República, o presidente Lula, ainda não declarado, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, já indicado pelo PSDB, estão com o mesmo problema: armar seus respectivos palanques pelo país, tendo como limitação a regra da verticalização, que deve ser mantida pelo Supremo Tribunal Federal em decisão a ser tomada talvez ainda esta semana, mas certamente até o dia 31, prazo fatal para que os postulantes a cargos eletivos, com exceção dos que tentarão a reeleição, deixem seus postos nos diversos níveis de governo. Mais do que com o PT, o presidente Lula arma sua estratégia com o PMDB, abrindo espaço para ter mais de um palanque nos estados onde não for possível um acordo político entre os dois partidos. Para tanto, o PMDB não pode ter candidato próprio à Presidência, e todas as manobras que a ala governista do partido vem fazendo para não validar as prévias são combinadas com o Palácio do Planalto. Um candidato como Garotinho, que venceu a consulta de domingo, só atrapalharia os planos de reeleição de Lula. O ex-governador do Rio aparece num patamar logo abaixo do de Alckmin e, na situação atual, ajudaria a ter um segundo turno na eleição presidencial sem representar uma ameaça concreta aos tucanos, que até o incentivam a continuar na sua luta. O governador paulista telefonou a Garotinho após a consulta, e ele parecia muito sensibilizado pelo gesto. O PSDB conta com o eventual apoio de Garotinho, e de parcela ponderável do PMDB num segundo turno contra Lula, mas não conta com a possibilidade de Garotinho, conseguindo se tornar candidato oficial do PMDB, vir a superar Alckmin na disputa pelo segundo turno. Como a hipótese de ser candidato oficial é remota, o mais provável é que Garotinho e seus adeptos no PMDB fiquem de fora da disputa, e apóiem o candidato tucano. Já o PSDB luta para confirmar a aliança formal com o PFL, mas o prefeito do Rio, Cesar Maia, não parece muito entusiasmado com a parceria. O PFL parte da certeza de que, com verticalização, o PMDB não terá candidato a presidente, permitindo assim coligações do PFL com o PMDB em estados como Pernambuco, Brasília, Tocantins. E na Bahia, a coligação cruzada PSDB, PT, PDT contra o grupo do senador Antonio Carlos Magalhães fica impossibilitada. Cesar Maia, que anunciara que abriria mão de sua candidatura se o prefeito José Serra disputasse a eleição pelo PSDB, parece disposto a vender caro essa desistência para o governador Alckmin. Ele diz que a questão central não é apoiar ou não Alckmin, mas qual a melhor estratégia para derrotar Lula. Maia, que é o analista de pesquisas do PFL, diz que os dados ainda não permitem concluir se o melhor é apoiar Alckmin, ou lançar candidato próprio. Ele teme que a junção da verticalização com o nível em que Alckmin se encontra nas pesquisas de opinião possa ajudar a que o primeiro turno da eleição seja único, nesse caso beneficiando Lula. E ainda deixa no ar a sugestão de que um nome lançado pelo PFL possa vir a se transformar em uma surpresa para a polarização entre PSDB e PT. Uma análise inicial de Cesar Maia das pesquisas mostra que a situação de Geraldo Alckmin não é tão boa como foi apregoada recentemente, quando teria subido seis pontos percentuais na última pesquisa Datafolha. Pegando as nove pesquisas realizadas pelo Datafolha para presidente da República de maio de 2005 a março deste ano, Cesar Maia faz uma soma das intenções de voto nos candidatos dos três partidos que considera "assemelhados": PSDB, PFL e PMDB. O resultado das nove pesquisas vai de 33% a 36%, surgindo fevereiro como um ponto fora da curva, quando a soma dos votos dá 28%. Somando-se apenas os votos dos candidatos do PSDB e PFL, a série varia de 23% a 20%, sendo que outra vez fevereiro aparece com resultado fora da média, com 17%. Portanto, para uma análise criteriosa da série do Datafolha, é preciso abandonar os números de fevereiro, exatamente o resultado que foi usado para garantir que o governador Alckmin subiu seis pontos percentuais na última pesquisa. Na leitura de Cesar Maia, rigorosamente nada aconteceu desde maio de 2005 para cá. Essa análise, se enfraquece a posição do candidato do PSDB, enfraquece também a estratégia do PFL, que exige de Alckmin uma campanha mais agressiva. A direção do PFL estava comemorando a subida de Alckmin, atribuindo-a à série de filmetes na televisão contra o governo Lula. Na negociação para reforçar os palanques estaduais, o interesse de Alckmin é que o prefeito Cesar Maia seja candidato a governador no Rio, e que José Serra dispute o governo em São Paulo. Com o governador Aécio Neves concorrendo à reeleição em Minas, o PSDB teria três candidatos fortes nos maiores colégios eleitorais do país. O prefeito Cesar Maia, que se candidataria caso o candidato tucano fosse Serra, ontem disse que não pretende se candidatar, e parece querer forçar uma aliança no Rio com outro candidato de seu grupo, talvez até mesmo seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia. Uma solução desse tipo parece inviável, já que os principais líderes tucanos do Rio já avisaram que o acordo só vale para apoiar o próprio Cesar Maia, e não seu grupo, com quem estão rompidos politicamente. Por outro lado, Cesar Maia não quer sair da prefeitura e deixá-la para o tucano Otávio Leite, seu vice. A alternativa do PSDB do Rio, que não tem candidato forte disponível, seria apoiar a deputada Denise Frossard, que aparece nas pesquisas com 20% das intenções de voto. Nesse caso, porém, o PPS não poderia lançar Roberto Freire à Presidência, o que conflita com uma outra estratégia tucana, a de incentivar o lançamento de vários candidatos por vários partidos — o PDT poderia lançar o senador Cristovam Buarque, e o PSOL deve lançar a senadora Heloisa Helena — para que a realização de um segundo turno seja garantida. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, março 22, 2006
Merval Pereira - Palanques instáveis
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