| O Estado de S. Paulo |
| 22/3/2006 |
| Governistas amenizam invasão de conta, como fizeram antes com o caixa 2 O governo repete o padrão: primeiro, socializou o prejuízo do escândalo dos repasses de dinheiro ilícito para o PT e outros partidos da base de apoio parlamentar ao Palácio do Planalto sob o argumento de que o uso do caixa 2 e a prática do fisiologismo são "usuais" na política brasileira. Agora, retoma a lógica do "todo mundo faz" para se defender preventivamente da suspeita de utilização da Polícia Federal e da Caixa Econômica para expor ilegalmente os dados bancários de Francenildo Santos Costa, e tentar dar a impressão de que o assunto em pauta não é quebra de sigilo e sim vazamento de informações. Trata-se, na prática, da nova versão do "dinheiro não contabilizado" celebrizado por Delúbio Soares. O risco que correm os petistas com esse hábito de imprimir naturalidade a ilegalidades - criando sempre um sofisma para encobrir a impossibilidade de abordar as questões de forma direta - é acabarem passando à História como integrantes do governo eleito democraticamente que mais contribuiu para a retomada dos piores preceitos do manual de imposturas anos a fio cultivado na política e, por extensão, na sociedade brasileira. O exemplo do cidadão que vai ao médico e opta pelo preço da consulta sem nota fiscal é gasto, mas emblemático da pretensa esperteza que minou valores e conferiu normalidade à licenciosidade geral sobre a qual se construíram tanto a promiscuidade nas relações políticas quanto um cenário-limite como o do assentamento do narcotráfico na condição de Estado paralelo em várias regiões do País. É fato que o PT não inventou a transgressão, mas é verdade também que, uma vez no governo, adotou - e incentivou - a inversão de valores como exercício de cotidiano. As coisas vêm numa escalada tal que no presente momento o País está prestes a sair do episódio em cartaz encarando como natural a invasão de privacidade quando em jogo está a reputação de um ministro. Assim que passar a onda e a indignação arrefecer, sobrará a legitimação de mais um ato de lesa-democracia com o aval do partido da ética. Exatamente por ter feito fama sob essa bandeira, o PT acaba passando às mentes desavisadas da maioria a mensagem de que, se ele faz e todo mundo faz também, então está bem feito porque o Brasil não tem jeito. É possível que nem todos os integrantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores tenham a noção exata do que significa a utilização do simbolismo da legenda no sentido inverso ao construído por sua história: o aprofundamento do retrocesso e a consolidação de práticas que, na lei, o Brasil tentara abolir com a Constituinte de 1988. Na prática, vinha repudiando no dia a dia mediante o aprimoramento dos critérios da sociedade a respeito do que seja ou não aceitável no convívio civilizado de um país que se pretenda desenvolvido política, social, econômica, cultural e moralmente falando. Ectoplasma A carruagem avançou tanto na direção do precipício que a permanência ou não do ministro da Fazenda acabou se tornando irrelevante do ponto de vista da política econômica. Ferido de morte em sua credibilidade, é evidente que Antonio Palocci já não tem condições de se apresentar mais como porta-voz e fiador da economia a interlocutores internos e externos. Mas, da mesma forma como o mercado financeiro reage indiferente ao fato, o governo também parece não se importar. Palocci virou, na concepção do Planalto, uma questão de cabo-de-guerra eleitoral. Tanto que a reunião dita de "cúpula" ontem no palácio, ao final da qual se anunciou que o ministro da Fazenda fica, prescindiu da presença do presidente da República. Enquanto seus auxiliares decidiam, Lula fazia comício na Bahia. De si para si Análise de uma autoridade ponta-de-lança da área política do governo, o resultado da eleição estará sujeito exclusivamente ao desempenho do presidente. Se Luiz Inácio da Silva, interpreta, estiver bem, ganha de qualquer adversário. Se estiver mal perante o eleitorado, perde de qualquer um. A referência aí são os tucanos e foi feita para sustentar opinião de que para Lula tanto José Serra como o escolhido Geraldo Alckmin representariam o mesmo grau de facilidade ou dificuldade, a depender do quadro. Longo prazo Os 15 dias pedidos pela Caixa Econômica para descobrir quem, como, quando, onde e por que os dados da conta-poupança de Francenildo Costa foram violados pode até atender ao desejo do governo de apostar no esfriamento do caso na imprensa e no Congresso. Mas certamente não atende à idéia de afastar do Planalto as suspeitas de autoria nem confere credibilidade à franqueza dos apelos de petistas e governistas em defesa da apuração rigorosa e punição exemplar para os responsáveis pela quebra do sigilo do moço. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, março 22, 2006
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