| Panorama Econômico |
| O Globo |
| 22/3/2006 |
| Há dez anos, o Brasil cresce menos que a média mundial. Essa é a constatação de um estudo da Confederação Nacional da Indústria. O Sindicato Nacional da Indústria do Cimento também fez uma análise do seu setor e mostra que está havendo queda, e não alta, no consumo. As duas fotografias juntas confirmam o grande problema brasileiro: a perda da capacidade de crescer. Segundo a CNI, no ritmo em que o PIB per capita vem crescendo, seria preciso um século para que a renda dobrasse. O boletim da CNI lembra que, desde 1995, o Brasil cresce menos que a média mundial. São 10 anos com números abaixo dos do mundo. Nesta última década, em média, crescemos, anualmente, 1,6 ponto percentual menos que a média dos países. Enquanto a economia mundial cresceu 45,6%, o PIB brasileiro aumentou 22,4% (veja gráfico). Se o Brasil tivesse acompanhado o passo do mundo, teria crescido 17 pontos percentuais a mais. A construção civil é dos setores que mais vêm patinando no país nestes últimos anos. Enquanto no ano passado o PIB cresceu 2,3%, o que já é muito pouco, na construção o crescimento foi menor ainda, de 1,3%. Ainda sem dados fechados, espera-se que a indústria de cimento tenha tido um incremento em torno de 3%. Anos de resultado ruim na construção acabaram fazendo com que o país caísse da 6 para a 9 posição no consumo mundial de cimento. Em produção, saiu da 6 para a 12. Quem ajudou a mudar esse e outros dados foi a China. Hoje ela consome a metade do cimento que se produz no mundo. Para lá, vai quase 1 bilhão de toneladas dos cerca de 2 bilhões produzidos anualmente (só para se ter uma idéia, o segundo colocado, os Estados Unidos, consome 124 milhões de toneladas, praticamente um décimo da China). Por causa disso, em qualquer comparação que se faça hoje, é preciso excluir da conta o país asiático. O problema é que, mesmo assim, saímos mal na foto. Na comparação entre 1998 e 2004, o consumo mundial de cimento cresceu 18%. No mesmo período, apenas Brasil, Japão e Turquia, da lista dos 12 maiores consumidores, tiveram queda. No caso do Brasil, ela foi de 15%. A produção aqui também caiu, na mesma proporção, já que o país importa pouquíssimo do que consome. O secretário executivo do Sindicato da Indústria do Cimento, José Otávio Carvalho, vê aí vários fatores que podem ter contribuído para o resultado, que aproxima o país da minoria malsucedida: — Uma boa parte da produção vai para infra-estrutura mas, nos últimos anos, quase não houve investimento grande em infra-estrutura. A área habitacional também ficou parada, seja por problemas nas linhas de crédito, seja por problemas burocráticos. Isso sem falar na questão da renda, que é o que rege o setor de construção — avalia. Porém, normalmente, ano de eleição costuma trazer alguns bons números para a economia. O governo federal, com dinheiro em caixa, está desde o começo do ano abrindo as torneiras. Mas, ainda que a previsão para o setor de cimento seja de um crescimento de 5% (acima, portanto, da expectativa de 3,5% para o PIB), José Otávio acha que a Lei de Responsabilidade Fiscal acabou por diminuir a gastança do último ano de governo, que sempre foi praxe. Uma boa notícia, no fim das contas. Mas o ideal é que os investimentos público e privado sejam mantidos sem ou com eleição. O Sindicato do Cimento calculou também o consumo per capita. O Brasil caiu 22% enquanto o mundo, sem considerar a China, subiu 7%. Ou seja, nos mantivemos na contramão. Mas encontramos os nossos pares ao observar os valores da América Latina no período 1998-2004. Vários países, como Venezuela, Colômbia e Argentina, tiveram quedas expressivas de consumo e produção de cimento. O problema é que, no ano passado, apenas o Brasil perdeu o passo, porque os outros países voltaram a crescer. O estudo da CNI dá o contexto geral. A Confederação da Indústria comparou o ritmo de crescimento do PIB per capita do Brasil com a média mundial. Segundo os cálculos, se o PIB per capita mundial continuar crescendo a 2,6% ao ano, como vem acontecendo, "a renda média da população mundial dobrará em menos de 30 anos". No Brasil, a média de expansão anual é de 0,7%, ou seja, demoraria 100 anos, um século, para dobrar a renda per capita. Uma curiosidade: numa tabela com os maiores países da América Latina, o único que tem crescimento negativo é a Venezuela. Justamente o país cujo governo, com os cofres abarrotados dos petrodólares, poderia investir e criar um ambiente de crescimento. O país que mantém crescimento mais forte é o Chile. Ao tentar identificar o que fez com que o Brasil tivesse tais resultados, a CNI aponta também o baixo investimento. Estamos, com média de 19,3% do PIB, novamente, próximos do número latino-americano, mas ainda muito longe dos 35,4% do PIB dos emergentes asiáticos. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, março 22, 2006
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