Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 25, 2006

EDITORIAL DA FOLHA DE S PAULO NA CADÊNCIA DO DEBOCHE

O Carnaval já passou, mas coube à deputada Ângela Guadagnin, do PT de São Paulo, oferecer ao público a mais desinibida alegoria dos tempos que correm. As cenas de sua solitária dança em plenário, comemorando a absolvição do correligionário João Magno (PT-MG), ficarão na memória política do país como a manifestação acabada do quadro de deboche que se instalou nas rodas do poder central.
Seria o caso de invocar o decoro parlamentar; mas como é justamente esse quesito que se viu pisoteado nas últimas decisões da Câmara, os critérios para julgar o desempenho da deputada vacilam, balançam e gingam, conforme o senso de humor e a complacência estética de cada um.
Do ponto de vista coreográfico, seria difícil avaliar a precisão, o "timing", o acerto dos passos da parlamentar, a menos que se soubesse ao som de qual música, inaudível à opinião pública, ela imaginava estar, vá lá o termo, sassaricando. "Mamãe eu quero mamar", para quem celebra o triunfo e a glória do valerioduto, não seria, data venia, uma escolha inadequada. Verdade que o fundo musical das pizzarias costuma ser o de animadas tarantelas.
Não cabe pedir a Ângela Guadagnin esclarecimentos sobre esse ponto, uma vez que tantos outros mais importantes, nos escândalos em curso, foram sonegados devido à sua atuação feroz nas CPIs.
Ainda que constrangedor, o espetáculo não precisa suscitar extremos de pessimismo. Em tempos idos, o teatro de revista se encarregava de fazer, entre um e outro número de rebolado, a sátira dos costumes políticos. Passada a época áurea de Dercy Gonçalves e Oscarito, talvez faltasse o tom de irreverência e brasilidade -para lembrar um tema caro à deputada- com que se contrabalança, na vida espiritual da nação, a vista deprimente das mazelas do poder.
Graças à deputada, o escândalo e a sátira, o mar de lama e o rebolado, convergem num único palco. Não deixa de ser uma economia de tempo para o respeitável público.

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