Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 25, 2006

EDITORIAL DA FOLHA DE S PAULO INFÂNCIA PERDIDA

O documentário "Falcões -Meninos do Tráfico", exibido no último domingo pela TV Globo, expôs uma das facetas mais cruéis do narcotráfico. Sem recorrer ao melodrama ou a explicações sociológicas, o filme retrata o cotidiano de garotos empregados por traficantes em favelas de diversas cidades brasileiras. Na gíria dos bandidos, "falcão"- uma das funções desempenhadas por menores- é o vigia encarregado de dar alertas sobre a aproximação de outras facções ou da polícia.
O impacto da peça não se deve à novidade das circunstâncias, mas ao realismo com que elas são retratadas. A utilização de meninos como mão-de-obra para as quadrilhas e a "lei do cão" (na expressão de um dos entrevistados) imposta nas favelas por chefetes do crime são fatos bastante conhecidos da sociedade.
O mais inquietante, porém, é a paralisia do poder público diante dos avanços do crime organizado nas áreas mais pobres das metrópoles brasileiras. Embora o problema seja complexo e de difícil solução, ao menos algumas medidas necessárias para debelar essa mazela são bastante conhecidas. Esse é o caso, por exemplo, da reforma urbana que, prometida durante a campanha de 2002 pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, não saiu do papel.
Tampouco houve avanços significativos em ações essenciais para reprimir o crime e fornecer alternativas aos moradores. Esses populosos quistos metropolitanos de violência e pobreza, em pleno século 21 ainda carecem de infra-estrutura urbana básica: asfalto, iluminação, rede de água e esgoto, legalização da posse imobiliária, policiamento, saúde, treinamento profissional.
O tráfico tende a prosperar nos espaços deixados vagos pelo Estado e pela família -instituição dilapidada, como se vê no documentário, nos morros cariocas. Que a exposição a nu dessa tragédia social ao menos abale a inércia das autoridades.

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