Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, outubro 12, 2005

PAULO RABELLO DE CASTRO Ecologia e economia

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Diz a ciência popular que o perceptivo joão-de-barro sempre prepara a porta do seu ninho na direção oposta à predominância do mau tempo. É uma simples regra de como organizar sua casa de acordo com a antecipação correta do clima. O joão-de-barro é economista sem ter ido à escola, pois sabe organizar sua casa (do grego "ekos", "nomos", a "ordem da casa") ao mesmo tempo em que utiliza o conhecimento do ambiente ("ekos", "logos", ou conhecer o lugar). O pequeno pássaro também é um ecologista de nascença. E o bicho-homem?
Coincidência ou conseqüência, fato é que, ultimamente, a natureza tem sido madrasta com a humanidade, devolvendo dor, prejuízos e mortes aos que estiveram postados no caminho dos mais agressivos fenômenos naturais dos últimos 12 meses. Entre o tsunami nas costas do sul da Ásia e o terremoto desta última semana na Caxemira, centenas de milhares de vidas foram ceifadas, sem contabilizar prejuízos materiais de muitos bilhões de dólares, dos quais o mais importante teria sido aqueles provocados pelos furacões Katrina e Rita na região sul da Louisiana, EUA. Cresce a percepção de que o homem tem construído sua "casa" com a porta virada para o lado errado. Vem o mau tempo e a derruba. Mais do que isso. Ao interferir poderosa e negativamente no equilíbrio da natureza, o avanço da destruição da camada vegetal dos solos, conjugada aos "buracos" no escudo de ozônio do globo terrestre, começa a provocar megarreações climáticas como o derretimento acelerado das calotas polares, a elevação do nível dos mares, o desequilíbrio da temperatura dos oceanos, provocando, então, a proliferação de "castigos" da natureza, sob a forma de inundações, furacões e tufões, invernos rigorosos e secas horrorosas. Para quem ainda tem dúvida, mesmo diante dessa breve contabilidade de tragédias, está aí a seca de vastos trechos dos cursos d'água formadores do Amazonas -nosso rio-mar- obrigando o governador daquele Estado a decretar estado de calamidade pública em todos os municípios ribeirinhos, onde até o transporte fluvial está afetado.
Já não importa ter a ciência completa das causas e conseqüências. Daqui para a frente, é a consciência ecológica da humanidade que irá determinar uma revisão acelerada dos procedimentos de ocupação do solo e dos mares, de emissão de agentes destruidores da atmosfera, a poluição emitida por fábricas, veículos, queimadas etc. -e, principalmente, os de conservação dos recursos naturais mais escassos, entre os quais a própria água.
É a ecologia entrando no complicado campo da economia. Antes, a destruição do ambiente tinha custo, mas não tinha preço. Agora, começamos a colocar preço sobre a poluição de terra, mar e ar, sobre o desaparecimento da cobertura verde, sobre a exaustão de recursos minerais, em especial, os combustíveis fósseis.
O vasto território do planeta que chamamos Brasil é parte de nossa responsabilidade jurisdicional para o resgate do equilíbrio ecológico perdido. O Brasil está na mira da consciência ecológica mundial. Somos, por assim dizer, uma grande área de preservação permanente, ou assim deveríamos nos considerar. Mas estamos longe do estágio de respeito explicito à natureza.
Portanto, ao resvalar o debate mundial para "preço", vamos acumular, desde logo, passivos e contingências, em vez de créditos, perante as demais nações. É imperativo inverter esse jogo, com a maior rapidez possível. Para tanto, é importante utilizar os mecanismos de oferta e demanda em favor da conservação ambiental, estabelecendo mercados novos nos quais "preços" possam surgir -como sinais de informação- aos que pretendem sacar a débito do ambiente, tanto quanto aos que investem a crédito de sua recomposição. O crescente mercado de certificados de seqüestro de carbono é um exemplo atual de como as trocas econômicas podem gerar um ordenamento ecológico que impõe custos aos sacadores da natureza e vantagens aos que ajudam a recompô-la, sem absolutizar o debate, ou seja, sem a necessidade de configurar como crime quaisquer deseconomias de poluição ou de degradação, eventualmente trazidas, como contrabando, na bagagem do progresso material da humanidade.

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